A derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, na terça-feira (3), impôs um sério revés a Donald Trump. Os democratas conquistaram a maioria nas duas casas do Congresso. Seria, porém, um erro confundir a derrota do presidente com uma vitória da democracia ou da paz.
Trump chegou à Casa Branca prometendo encerrar as guerras dos antecessores e diminuir a intervenção norte-americana no exterior. Essa promessa ajudou a elegê-lo. Ao decidir atacar o Irã e mergulhar o país numa guerra prolongada, voltou-se contra sua própria base eleitoral.
Uma parcela dos eleitores que o havia apoiado já não tinha motivo para defender os republicanos. A alta do custo de vida agravou esse descontentamento. Mas a questão central é política: Trump prometeu romper com a política de guerra do imperialismo e terminou colocando-a em prática.
Sua derrota não representa um repúdio popular abstrato ao chamado “fascismo”. Representa o fracasso de um governo que traiu as expectativas de seus próprios eleitores. A população não votou necessariamente a favor do programa democrata; votou prioritariamente contra a política aplicada por Trump.
Muito menos se pode apresentar o Partido Democrata como alternativa progressista. Trata-se de um dos principais instrumentos políticos do imperialismo norte-americano. Foi sob governos democratas que os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre o Japão e ampliaram a guerra do Vietnã. Barack Obama e Joe Biden deram continuidade a essa tradição imperialista.
A conquista do Congresso não altera essa realidade. Os democratas não se opõem à dominação imperialista sobre o mundo. Divergem dos republicanos sobre os métodos e as prioridades para preservá-la. Seu fortalecimento pode significar maior pressão pela continuidade da guerra na Ucrânia e pelo confronto com a Rússia. Não há razão para acreditar que a mudança parlamentar abra uma época de paz.
Por isso, a comemoração promovida por setores da esquerda brasileira é particularmente reveladora. Ao colocar a reeleição de Lula e a vitória dos democratas na mesma suposta “onda democrática”, dirigentes petistas deixam transparecer sua identificação com uma das facções dirigentes do imperialismo. É uma confissão política, depois de toda a propaganda eleitoral sobre soberania nacional.
A existência de candidatos com retórica mais à esquerda, inclusive favoráveis aos palestinos, não altera o caráter do Partido Democrata. Seu apoio ao Estado de “Israel” e às guerras imperialistas não desaparece porque alguns representantes adotam um discurso mais palatável.
Trump foi derrotado porque executou a política que prometera combater. Os democratas venceram sem deixar de representar os interesses fundamentais do imperialismo. Quem combate as guerras e a dominação imperialista não deve confundir a crise política do governo Trump com uma transformação democrática do regime norte-americano.





