Em artigo publicado no Brasil 247 nesta sexta-feira (30), intitulado Por que o mercado financeiro ainda insiste em escrever cartas para Lula?, o jornalista André Vieira manifesta sua indignação com as cobranças que banqueiros, empresários e investidores estão fazendo ao presidente reeleito. Segundo o articulista, depois de três mandatos, Lula não deveria precisar demonstrar novamente que merece a confiança do grande capital.
A pergunta é absurda. Os capitalistas cobram Lula porque são capitalistas. Sua função na sociedade é defender seus interesses econômicos, exigir vantagens e procurar impor ao governo a política que mais lhes convém. Não existe nenhuma razão para que deixem de fazer isso porque Lula venceu uma eleição. Muito pelo contrário: a situação política criada pelas eleições de 2026 oferece condições particularmente favoráveis para que intensifiquem suas exigências.
O problema da análise de Vieira é que ela transforma a luta política em uma questão de reconhecimento pessoal. Como Lula já governou três vezes, os banqueiros deveriam reconhecer seus serviços prestados e deixá-lo trabalhar em paz. É uma concepção inteiramente fantasiosa das relações entre o Estado e a burguesia.
O capitalista não dá apoio político por gratidão, amizade ou consideração pela biografia do presidente. Faz negócios. Apoia um governo enquanto esse apoio lhe oferece vantagens e procura arrancar novas concessões sempre que encontra oportunidade. É assim que funciona o capitalismo, independentemente da vontade dos jornalistas que gostariam de ver Lula governar sem ser incomodado.
Há, além disso, uma omissão fundamental no raciocínio do articulista. O terceiro governo Lula não foi um governo dos trabalhadores contra os capitalistas. Foi uma administração de colaboração de classes, sustentada por acordos com partidos burgueses, empresários, banqueiros e representantes do grande capital. A própria presença de Geraldo Alckmin na vice-presidência simboliza essa orientação.
A burguesia não precisou derrotar Lula para defender seus interesses. Encontrou no próprio governo um instrumento para negociá-los. Por isso, é perfeitamente natural que, concluída a eleição, os capitalistas apresentem a fatura.
O aspecto mais importante, entretanto, é que Lula não está saindo fortalecido das eleições. A propaganda petista procura apresentar a reeleição como uma consagração popular de seu governo. Os fatos mostram uma situação muito diferente.
Lula chegou ao governo em 2023 cercado de expectativas. Depois de quatro anos de governo Bolsonaro, a população trabalhadora aguardava uma recuperação de suas condições de vida, a ampliação dos direitos sociais e uma mudança de orientação econômica.
Quatro anos depois, o resultado foi uma enorme frustração. A política econômica permaneceu submetida às exigências dos banqueiros, o ajuste fiscal continuou orientando as decisões do governo e as reivindicações fundamentais dos trabalhadores ficaram sem solução.
Se o governo Lula tivesse produzido uma transformação significativa nas condições de vida das massas, seria difícil explicar o resultado do primeiro turno.
Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O presidente em exercício ficou mais de 2,2 milhões de votos atrás de seu adversário, apesar de contar com a máquina federal e todas as vantagens políticas da Presidência.
Esse é o verdadeiro balanço eleitoral do terceiro governo Lula. Não foi o candidato da oposição que precisou superar o desgaste de quatro anos governando. Foi o próprio presidente que, depois de todo o mandato, terminou derrotado no primeiro turno.
Diante do risco concreto de derrota, o governo recorreu a uma distribuição de benefícios e promessas de última hora. O reajuste de aproximadamente 15% do Bolsa Família, anunciado em setembro depois de mais de três anos sem correção, foi acompanhado por medidas de renegociação de dívidas, concessões aos chamados microempreendedores e promessas relacionadas ao transporte público.
A questão não é que os trabalhadores não necessitassem dessas medidas. Precisavam delas muito antes. O problema é que o governo deixou necessidades urgentes sem atendimento durante boa parte do mandato e resolveu transformá-las em instrumentos eleitorais quando sua permanência no poder ficou ameaçada.
A utilização de benefícios sociais e promessas de campanha como moeda de troca eleitoral constituiu, politicamente, uma verdadeira operação de compra de votos. O governo procurou compensar sua falta de popularidade com concessões imediatas, sem alterar as bases de sua política econômica.
E o mais significativo é que essa operação ocorreu sem uma resistência decisiva dos setores burgueses interessados na continuidade de Lula. A burguesia que apostou na preservação do governo aceitou o uso da máquina estatal e das concessões eleitorais para impedir sua derrota.
Agora, concluída a eleição, quer cobrar pelas condições políticas que ajudou a preservar.
O articulista do Brasil 247 parece imaginar que a vitória de Lula coloca os capitalistas diante de um fato consumado que deveriam respeitar silenciosamente. Mas por que fariam isso? Se o presidente precisou lançar mão de medidas excepcionais para vencer, a conclusão dos banqueiros não será que ele se tornou invulnerável. Será exatamente a oposta.
A eleição demonstrou até onde vai a debilidade política do governo.
Existe uma diferença fundamental entre vencer uma eleição e sair politicamente fortalecido dela. Lula conquistou 51,79% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos.
É uma vitória eleitoral, mas não representa uma autorização irrestrita para governar, muito menos a formação de uma maioria política organizada em torno de um programa de esquerda.
O governo precisou reunir uma coalizão heterogênea, fazer concessões, explorar o temor de uma vitória bolsonarista e mobilizar os recursos políticos disponíveis para superar um adversário que havia saído na frente.
A votação expressa também a rejeição a Flávio Bolsonaro, e não apenas a aprovação de Lula. Confundir essas duas coisas significa criar uma imagem fictícia da relação de forças no País.
A situação torna-se ainda mais desfavorável quando se examina o Congresso Nacional.
O PL elegeu 121 deputados federais, conquistou 19 das cadeiras do Senado em disputa e terá uma bancada de 29 senadores a partir de 2027. O partido também elegeu seis governadores.
Trata-se de um avanço expressivo da oposição de direita, que controlará a maior bancada nas duas Casas do Congresso e terá posições importantes nos governos estaduais. Lula venceu a Presidência, mas seu principal adversário partidário ampliou consideravelmente o próprio poder.
Isso significa que o governo terá de negociar com um Congresso ainda mais hostil às suas propostas e mais favorável às exigências do grande capital.
Se Lula já não conseguiu realizar as promessas fundamentais de sua campanha durante o terceiro mandato, o que permitiria acreditar que terá condições melhores no quarto?
O mais provável é justamente o contrário. O governo ficará ainda mais dependente de acordos com a direita, o Centrão e os representantes diretos dos grandes interesses econômicos.





