Em artigo publicado no Brasil 247 nesta sexta-feira (30), intitulado É urgente varrer os Bolsonaros da vida política do país, o jornalista Bepe Damasco defende uma ofensiva para eliminar a influência política da família Bolsonaro. Para o articulista, a presença dos Bolsonaro na política brasileira representa uma espécie de enfermidade nacional, que precisaria ser extirpada para que o País recuperasse sua normalidade democrática.
O artigo é uma demonstração particularmente clara da completa falência política da esquerda que apoia o governo Lula. Incapaz de enfrentar os interesses econômicos responsáveis pela situação do País e de apresentar um programa que mobilize os trabalhadores, essa esquerda passou a considerar que sua principal tarefa é eliminar os adversários por meio do aparelho de Estado.
A luta política foi reduzida a uma campanha para retirar determinadas pessoas da vida pública. Não é necessário apresentar um programa econômico, combater os banqueiros, melhorar as condições de vida da população ou conquistar os trabalhadores que votaram na direita. Basta afastar os Bolsonaro, de preferência com a ajuda da Justiça, e o Brasil estaria salvo.
Essa concepção é ainda mais absurda porque ignora completamente as relações sociais que permitiram o crescimento do bolsonarismo. Como se milhões de brasileiros tivessem passado a apoiar a direita por uma espécie de contaminação moral produzida por uma única família.
A direita brasileira não foi criada por Jair Bolsonaro. Ela é uma expressão política de interesses de classe que existem independentemente dele.
O artigo de Damasco precisa ser compreendido como expressão de um fenômeno mais amplo. O terceiro governo Lula foi marcado por uma política econômica de conciliação com os grandes capitalistas. Fernando Haddad foi colocado no Ministério da Fazenda para conduzir uma orientação fiscal favorável aos interesses do mercado financeiro. O governo aprovou o arcabouço fiscal, preservou a política de contenção dos gastos públicos e nomeou Gabriel Galípolo para presidir um Banco Central que continuou operando segundo as exigências do sistema financeiro.
O governo não desenvolveu nenhuma campanha séria para romper com essa política. Em compensação, desenvolveu uma verdadeira obsessão pela repressão aos adversários políticos.
A cada nova crise, a solução apresentada é uma investigação, uma punição, uma prisão ou a cassação de algum direito político. O Judiciário foi elevado à condição de principal instrumento de combate à direita. É a substituição da luta de classes pela ação policial.
Essa orientação não surge por acaso. É o resultado da própria política econômica do governo. Quem se recusa a enfrentar os banqueiros não tem condições de apresentar um programa efetivo de transformação social. Quem não mobiliza os trabalhadores contra seus exploradores precisa encontrar outro meio de sustentar sua influência política.
A solução encontrada pela esquerda da frente ampla foi transformar a perseguição à direita em seu principal programa.
O desprezo pelo povo fica particularmente evidente quando Damasco comenta a votação de Flávio Bolsonaro. Segundo ele, somente uma sociedade gravemente enferma poderia conceder mais de 59 milhões de votos ao candidato derrotado.
Mas que espécie de análise política é essa?
Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos no segundo turno das eleições presidenciais, correspondentes a 48,21% dos votos válidos. Lula venceu com 51,79%. A diferença foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos.
É impossível compreender esse resultado tratando quase metade dos eleitores como vítimas de uma doença coletiva. O que precisa ser explicado é por que, depois de quatro anos de governo Lula, tantos trabalhadores continuaram dispostos a votar na direita. Por que um presidente que chegou ao poder prometendo melhorar as condições de vida da população terminou derrotado no primeiro turno? Por que a oposição ampliou tão expressivamente sua representação parlamentar?
Essas são questões políticas. Não podem ser respondidas com insultos.
A esquerda pequeno-burguesa prefere atribuir a votação de Flávio Bolsonaro à suposta degeneração moral da população porque não quer fazer o balanço de sua própria política. O terceiro governo Lula produziu uma enorme frustração. As condições de vida dos trabalhadores permaneceram difíceis, o endividamento continuou pesando sobre as famílias e as principais reivindicações populares não foram atendidas.
Diante disso, a direita explorou o descontentamento social. Não é necessário concordar com o programa de Flávio Bolsonaro para reconhecer esse fato elementar. Pelo contrário, uma oposição consequente à direita deveria procurar compreender as razões de seu crescimento para combatê-la politicamente.
Damasco escolhe outro caminho. Despreza os eleitores e sugere que a eliminação política dos dirigentes bolsonaristas resolveria o problema. É uma maneira conveniente de evitar qualquer discussão sobre a responsabilidade do PT e do governo Lula pelo fortalecimento de seus adversários.
Há, entretanto, um problema ainda mais grave nessa política. O governo age como se o aparelho de Estado fosse uma extensão do governo Lula e pudesse ser utilizado livremente para eliminar seus inimigos.
Mas o governo não é o Estado. O governo representa uma administração temporária de determinadas instituições. O Estado, por sua vez, possui uma estrutura permanente, formada pelas Forças Armadas, pelas polícias, pelo Judiciário, pela burocracia e pelos demais órgãos responsáveis pela manutenção da ordem social.
Essa estrutura não constitui um instrumento neutro, situado acima das classes sociais. O Estado capitalista é, fundamentalmente, um instrumento de dominação da burguesia sobre os trabalhadores. Suas instituições foram historicamente organizadas para proteger a propriedade capitalista e preservar as relações sociais existentes.
A história brasileira está repleta de exemplos da utilização do aparelho repressivo contra os trabalhadores. É preciso ter uma confiança extraordinária nas instituições burguesas para imaginar que o fortalecimento de seus poderes policiais produzirá uma sociedade mais democrática.
Damasco encerra seu artigo afirmando que na “democracia” somente haveria lugar para aqueles que respeitam a “democracia”. Mas quem determinará quais cidadãos merecem participar da vida política? Os ministros do Supremo Tribunal Federal? Os procuradores? Os delegados da Polícia Federal? Transferir a essas autoridades o poder de decidir quais correntes políticas podem existir significa substituir os direitos democráticos da população pela tutela de uma burocracia que não foi eleita para governar o País.
A responsabilização por crimes comprovados deve obedecer à lei, ao devido processo legal e ao direito de defesa. Isso é completamente diferente de defender uma campanha de exclusão política de uma família ou corrente ideológica.
Outro aspecto revelador do artigo é o apelo para que os setores da direita que supostamente respeitam a “democracia” deixem de ser reféns dos Bolsonaro.
Essa formulação esclarece o conteúdo político da operação. Não se pretende eliminar a influência dos grandes capitalistas sobre o Estado, nem enfraquecer os interesses econômicos representados pelos partidos da direita. O objetivo é substituir uma direção política considerada inconveniente por outra mais adaptada ao regime e aos acordos da frente ampla.
Em outras palavras, Damasco não propõe enfrentar a direita como expressão política da burguesia. Propõe reorganizá-la.
A direita aceitável seria aquela disposta a conviver com o governo Lula, negociar com o PT e preservar a estabilidade das instituições. Uma direita que mantenha suas posições econômicas, mas não crie grandes problemas para a administração do regime político.
O problema é que esses setores chamados “democráticos” defendem os mesmos interesses fundamentais dos bolsonaristas. São favoráveis ao arrocho fiscal, à preservação dos privilégios do capital financeiro, à exploração dos trabalhadores e à manutenção da estrutura social capitalista.
O resultado dessa orientação é subordinar a esquerda a uma aliança com os setores tradicionais da burguesia para combater uma de suas expressões políticas. É exatamente a política que marcou o terceiro governo Lula e que contribuiu para o fortalecimento da oposição.





