Polêmica

Só haverá fim das chacinas com o fim da PM

Articulista transforma a matança de trabalhadores negros em discussão acadêmica, enquanto dirigente petista afirma que o Bope “só matou otário”

Chacina no Rio de Janeiro

Em 28 de outubro de 2025, a chamada Operação Contenção deixou oficialmente 122 mortos, entre eles 117 pessoas que não eram policiais e cinco agentes de segurança. A Human Rights Watch identificou ainda dois homens mortos pela polícia antes do início formal da operação, elevando a 124 o número de mortes relacionadas aos acontecimentos. Nos primeiros dias, a Defensoria Pública chegou a divulgar números superiores ao balanço oficial.

Um ano depois, a articulista Sara York publicou no Brasil 247 o texto Um ano após a chacina no Complexo do Alemão, pesquisador Daniel Silva traz a esperança para o centro do debate acadêmico e político. Ao comentar uma conferência na Universidade Estadual Paulista (Unesp), a autora transforma a carnificina num desfile de expressões do tipo “recursos semióticos”, “produção de sentidos”, “agência das comunidades”, “resistência territorial” e “esperança radical”.

O palavrório acadêmico atenua a brutalidade do que aconteceu. Os moradores não removeram dezenas de cadáveres para realizar uma intervenção na “narrativa dos acontecimentos”. Retiraram seus mortos porque as forças policiais deixaram corpos espalhados pela mata. A praça não era um laboratório de semiótica, mas a demonstração pública da violência do Estado.

York escreve que os moradores revelaram “uma sofisticada compreensão dos recursos midiáticos e semióticos mobilizados na disputa pela memória pública”. Traduzido para o português corrente: moradores denunciaram a chacina. Para que envolver o fato num vocabulário que afasta o leitor da realidade? Homens armados pelo Estado entraram numa região pobre e realizaram um massacre.

A investigação da Human Rights Watch, divulgada no aniversário da operação, analisou 4.400 horas de gravações de câmeras corporais e não encontrou uma única morte registrada. Apenas cerca de 23% dos policiais destacados usavam os equipamentos. A organização encontrou indícios de manipulação das câmeras e de uso excessivo da força, além de elementos que apontam para possíveis execuções.

Setores da esquerda pequeno-burguesa apresentaram as câmeras corporais como solução para a violência policial. O resultado demonstra a inutilidade dessa política. Os policiais podem desligar, cobrir ou manipular os equipamentos, enquanto as corporações continuam realizando operações militares e espalhando a mote nas favelas.

A conferência relatada por York também apresentou uma pesquisa com cerca de 4 mil moradores da Rocinha, da Maré, do Alemão e da Penha. Segundo os resultados divulgados, 95% consideram que as operações não melhoram sua vida, 92% rejeitam o modelo violento e 91% presenciaram ou sofreram abusos policiais.

Os números mostram a dimensão da rejeição popular à repressão. Mas qual é a consequência política? Será necessário esperar outra chacina para realizar uma nova pesquisa? A população das favelas conhece a violência policial porque convive com ela. O problema é organizar a luta para acabar com esse regime de terror.

Onde está o identitarismo que exige cadeia por palavras e declarações consideradas ofensivas, mas não apresenta uma política correspondente à dimensão dessa brutalidade contra a população negra? A repressão racista aparece em sua forma mais monstruosa quando a polícia invade uma favela e deixa dezenas de corpos pelo caminho.

Alguns preferem substituir a palavra “favela” por “comunidade”, como se a mudança do nome acabasse com a pobreza, a falta de saneamento e os fuzis apontados para os moradores.

A reação de setores do próprio PT à chacina mostra a gravidade do problema. Em 2 de dezembro de 2025, durante um seminário do Partido sobre segurança pública no Rio de Janeiro, Washington Quaquá, prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, declarou:

“É óbvio que a polícia do Rio, o Bope, só matou ali otário, vagabundo, bandido. Eu perguntei: ‘Tem trabalhador aí?’. Não. Tudo bandido.”

A declaração provocou protestos entre os presentes. Uma mulher contestou o prefeito, afirmando que uma das vítimas era pedreiro e havia sido decapitada. Quaquá insistiu em sua posição. Também declarou que a operação não havia sido malsucedida pelo número de mortos, mas porque a polícia não ocupou os territórios. E essa é a esquerda que diz combater o fascismo.

O dirigente petista não esperou a apuração das mortes. Propagandeou a versão policial de que todos os mortos eram criminosos e tratou a matança como um resultado natural da política de segurança. É a mesma justificativa utilizada pela direita para defender as chacinas, em que a polícia decide quem é bandido, executa e depois apresenta os cadáveres como prova de que cumpriu sua missão.

Para falar dos moradores, York recorre à “esperança radical”, conceito apresentado por meio de uma comparação com a experiência histórica do povo indígena Crow, na América do Norte. A referência, no entanto, não esclarece o que deve ser feito contra as polícias do Rio de Janeiro.

York escreve sobre a possibilidade de “imaginar formas de vida que ainda não dispõem de garantias nem de modelos previamente estabelecidos”. Mas as famílias dos mortos não precisam de uma teoria sobre a esperança. Precisam de uma política capaz de impedir que as corporações policiais continuem assassinando seus filhos.

É preciso fazer como o Partido da Causa Operária (PCO) que denunciou a operação como uma guerra do Estado contra a população pobre e exigiu a investigação e a punição dos responsáveis, a saída de Cláudio Castro do governo fluminense e o fim da Polícia Militar e do aparato repressivo.

O Partido defende a substituição das polícias por milícias populares formadas pelos próprios trabalhadores, com dirigentes eleitos pela população e mandatos revogáveis. Reivindica o armamento geral do povo, a organização da autodefesa e o direito dos moradores de controlar diretamente os responsáveis pela segurança de seus bairros.

Essa é a tradição marxista de oposição ao monopólio das armas pela classe dominante. Em O programa militar da revolução proletária, escrito em 1916, Lênin afirmou que “uma classe oprimida que não aspire a aprender a manejar as armas, a possuir armas, tal classe oprimida mereceria apenas ser tratada como são tratados os escravos. Pois não podemos esquecer, sem nos transformarmos em pacifistas burgueses ou oportunistas, que vivemos numa sociedade de classes e que dela não há nem pode haver outra saída que não seja a luta de classes ”.

O revolucionário desenvolveu o argumento mostrando que, nas sociedades divididas em classes, os aparelhos militares são utilizados pela burguesia contra os trabalhadores. A defesa do armamento do proletariado faz parte de sua concepção da luta pela emancipação da classe operária.

É preciso também defender a legalização de todas as drogas. A proibição mantém um mercado clandestino e fornece ao Estado a justificativa permanente para enviar tropas aos bairros pobres. Décadas de guerra ao tráfico não acabaram com o comércio de entorpecentes nem com as organizações criminosas. Produziram operações militares, encarceramento em massa e milhares de mortes.

A defesa da legalização das drogas, do fim das polícias e do armamento popular constitui uma alternativa política à repressão. Não basta substituir uma palavra por outra, publicar pesquisas ou reconhecer a capacidade dos moradores de “produzir conhecimento”. É necessário enfrentar as instituições responsáveis pela violência.

York termina perguntando quem tem o direito de “imaginar o que virá depois” da chacina. Os moradores não precisam receber da universidade o direito de imaginar o futuro. Precisam de condições para organizar sua luta e impedir a repetição da matança.

Enquanto dirigentes políticos como Quaquá justificam o massacre e parte da esquerda se limita a discutir suas representações acadêmicas, a população pobre continua exposta à violência do Estado. É preciso defender abertamente a organização independente dos trabalhadores, o fim do aparato policial e a defesa do direito da população à autodefesa.

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