As polícias Civil e Militar de São Paulo mataram uma pessoa a cada 12 horas e 13 minutos entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, durante o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, a frequência das mortes aumentou aproximadamente 70% em comparação com 2022, quando o intervalo médio era de 20 horas e 48 minutos. A contagem inclui ocorrências com policiais em serviço e de folga.
No primeiro ano de Tarcísio, uma pessoa morreu a cada 17 horas e 23 minutos em intervenções policiais. Em 2024, o intervalo caiu para 10 horas e 48 minutos; em 2025, para 10 horas e 30 minutos. Entre janeiro e agosto de 2026, ficou em 12 horas e nove minutos.
O aumento acompanhou o abandono de medidas de controle do uso da força. Tarcísio, crítico das câmeras corporais, entregou a Secretaria da Segurança Pública a Guilherme Derrite, apelidado de “DeHitler”, ex-integrante da Rota. Durante sua gestão, encerrada em dezembro de 2025, a frequência das mortes cresceu continuamente.
Procurada pela Folha, a secretaria confirmou os dados, mas não explicou o aumento. Em resposta, destacou o crescimento de 4,36% nas prisões, de 7,86% nos flagrantes e de 12,83% nos inquéritos instaurados entre janeiro e agosto de 2026, diante do mesmo período do ano anterior. Apresentou mais prisões como demonstração de eficiência, enquanto a polícia continuou matando em ritmo superior ao registrado antes da posse de Tarcísio.
A polícia do governo petista
A comparação com a Bahia mostra que a matança não se restringe aos governos da extrema direita. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, a polícia baiana matou 1.556 pessoas em 2024, sob o governo de Jerônimo Rodrigues (PT). Em São Paulo, foram 813 no mesmo ano.
A Bahia concentrou praticamente um quarto das 6.243 mortes provocadas pelas polícias brasileiras em 2024. Foram mais de quatro vítimas por dia, aproximadamente uma a cada cinco horas e 39 minutos. O total baiano correspondeu a quase duas vezes o paulista.
A diferença foi ainda maior quando considerada a população de cada estado. A Bahia registrou 10,5 mortos pela polícia por 100 mil habitantes, contra 1,8 em São Paulo: uma taxa quase seis vezes maior. As intervenções policiais responderam por 25,8% das mortes violentas intencionais em território baiano, mais de uma em cada quatro.
O estado registrou queda em relação aos 1.700 mortos de 2023, mas permaneceu na liderança nacional em números absolutos. A redução não alterou o fato de que o governo petista comandou uma polícia responsável por mais de 1.500 mortes em um único ano.
Outros estados também apresentaram números elevados. Em 2024, o Rio de Janeiro contabilizou 703 mortos em intervenções policiais; o Pará, 606; e o Paraná, 400. O Amapá teve a maior taxa do País, com 17,1 vítimas por 100 mil habitantes. No Brasil, a polícia respondeu por 14,1% das mortes violentas intencionais.
Os resultados variaram entre os estados, mas a dimensão nacional da violência policial ficou evidente. A troca do partido à frente do governo não impediu que as corporações continuassem matando centenas de pessoas anualmente.
Mortes e encarceramento
Entre as vítimas de intervenções policiais com informação de cor ou raça, 82% eram negras. O Anuário calculou que, em 2024, o risco de uma pessoa negra morrer pela ação da polícia era 3,5 vezes o de uma pessoa branca. A repressão atingiu principalmente os jovens negros, moradores dos bairros pobres.
O encarceramento também cresceu. O levantamento contabilizou 909.594 pessoas no sistema penitenciário e sob custódia das polícias em 2024, incluindo prisão domiciliar, com ou sem monitoramento eletrônico. Em 2023, eram 852.010: um aumento de 57.584 pessoas em um ano.
São Paulo concentrou 207.660 pessoas nessa situação, quase 23% do total nacional. Na Bahia, o número passou de 14.931 para 16.720. Entre os presos com informação racial no País, 68,7% eram negros.
É esse aparelho que setores da esquerda passaram a apresentar como instrumento de proteção dos trabalhadores. Na campanha de Lula, a defesa do endurecimento penal e do fortalecimento policial, sob a justificativa de combater o crime organizado, aproximou o discurso petista das propostas tradicionalmente defendidas pela direita.
Os números permitem avaliar o que significa ampliar esses poderes. O Brasil já mantém mais de 900 mil pessoas submetidas ao sistema prisional, contando as prisões domiciliares, e suas polícias mataram mais de seis mil em um ano. A proposta de aumentar penas prolonga o encarceramento; a redução da maioridade penal levaria adolescentes mais novos às prisões. Nenhuma dessas medidas oferece proteção contra a violência praticada pelo próprio Estado.
A experiência da Bahia demonstra que o comando petista não muda o caráter da instituição. A mesma polícia apresentada como necessária para defender a população matou, em um ano, quase o dobro de pessoas que a de Tarcísio.
Ao promover policiais à condição de heróis e disputar com a direita quem prende mais e pune com maior rigor, a esquerda ajuda a ampliar os poderes das corporações que reprimem a população pobre. O combate ao crime organizado serve de justificativa para operações, abordagens e prisões que recaem sobre os bairros operários. Fortalecer o aparato repressivo é fortalecer a máquina de matar trabalhadores e a população pobre.





