Em 15 de outubro, o jornal Opinião Socialista, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), publicou o artigo Afinal, o que é fascismo? Como combatê-lo?, assinado por Ray Maria. O texto cita Clara Zetkin e Leon Trótski, distingue o fascismo de outras formas de reação burguesa e defende a frente única operária. Lido isoladamente, contém afirmações corretas. Confrontado com a atuação do PSTU no segundo turno presidencial, revela uma falsificação: aquilo que Trótski propôs como unidade de luta independente da burguesia é invocado por um partido empenhado em pedir votos para a candidatura de Lula e Geraldo Alckmin.
Em 7 de outubro, a Direção Nacional do PSTU publicou Contra Bolsonaro: voto crítico no 13, e nenhum apoio ao governo Lula. O artigo de Ray Maria, publicado oito dias depois, oferece uma exposição teórica que deveria conduzir à política oposta. A autora escreve:
“É preciso diferenciá-lo do bonapartismo, a ditadura totalitária clássica – que o bolsonarismo se aproxima muito mais, por mais que até flerte com a estética fascista –, pois apenas apreendendo o que é de fato o fascismo enquanto fenômeno político que teremos a capacidade de combatê-lo de forma correta e consequente.”
Se o bolsonarismo não constitui o mesmo fenômeno que o movimento de Hitler, não se pode transportar para o Brasil a situação alemã de 1931 e, menos ainda, extrair dela a obrigação de votar no candidato do PT. Mesmo diante dos nazistas, Trótski não confundia ação comum contra os fascistas com entrega do voto e da direção política aos reformistas.
Na Alemanha, forças de choque nazistas atacavam sindicatos e organizações operárias. Milhões de trabalhadores seguiam o Partido Social-Democrata (SPD) e o Partido Comunista (KPD). Trótski combatia a recusa stalinista de organizar a resistência conjunta, mas não exigia que os comunistas adotassem o programa do SPD ou apoiassem governos burgueses.
Na carta O perigo iminente do fascismo na Alemanha, de 8 de dezembro de 1931, Trótski separou os compromissos parlamentares dos acordos para greves, defesa de sedes e proteção das organizações dos trabalhadores. O mesmo texto rejeitava uma plataforma política comum com a social-democracia. Uma frente para a ação não é uma autorização para transformar o partido operário em auxiliar eleitoral dos reformistas.
A confusão aparece numa passagem reveladora de Ray Maria:
“Ou seja, apesar da frente única amarrar todos os partidos a um programa antifascista em comum, todos podem e devem manter intacta sua independência política.”
Mas o que significa “amarrar” todos os partidos a um programa comum? Se a autora se refere a medidas práticas de defesa das organizações operárias, trata-se precisamente da frente única. Se pretende uma plataforma política compartilhada, apaga a distinção que constitui o núcleo da orientação trotskista. O objeto do acordo era concreto: enfrentar os bandos nazistas, defender locais de trabalho, reuniões e sindicatos. Nenhum compromisso de silenciar divergências políticas, legitimar a direção social-democrata ou sustentar um governo apresentado como mal menor.
A própria autora transcreve Trótski:
“Ao mesmo tempo, o Partido Comunista não deve de forma alguma renunciar à direção independente das greves, das manifestações, das campanhas políticas. Ele conserva toda a sua liberdade de ação. Não espera por ninguém.”
A independência não se resume a criticar o PT enquanto se distribuem materiais pedindo votos para sua chapa. Precisa aparecer na orientação concreta dada aos trabalhadores: que programa defender, que forças enfrentar e em quem confiar.
Ray Maria também reproduz outra passagem fundamental de E agora? A Revolução Alemã e a burocracia stalinista:
“A social-democracia, hoje principal representante do regime parlamentar burguês, apoia-se nos operários. O fascismo apoia-se na pequena burguesia. A social-democracia não pode ter influência sem organização operária de massa. O fascismo para instaurar o seu poder precisa destruir as organizações operárias.”
A tarefa era chamar os operários social-democratas à defesa de suas organizações, apesar dos dirigentes reformistas. Na ação conjunta, poderiam testar esses dirigentes e superar sua influência. Não se tratava de depositar esperanças eleitorais no SPD.
A resolução do PSTU contém uma confissão involuntária. Sua direção adverte contra a política de “votar mal menor a cada quatro anos”, mas escolhe precisamente a candidatura considerada menos perigosa. Afirma que o governo Lula alimentou a própria ameaça bolsonarista, que conservará seus compromissos com o capital e que a reeleição não derrotará a extrema direita. Qual é, então, a finalidade de fazer campanha para o mesmo projeto? Acrescentar a palavra “crítico” ao voto não resolve essa contradição. O partido pode recusar cargos e continuar na oposição depois da eleição; isso não apaga o conteúdo político da campanha que realizou antes dela.
Na prática do PSTU, uma tática para defender sindicatos contra ataques fascistas vira brigada eleitoral; uma frente de luta delimitada vira mobilização pela reeleição de um governo que o partido considera subordinado à burguesia.
A autora escreve corretamente que o fascismo não pode ser combatido apenas na institucionalidade. Reproduz, inclusive, a advertência de Clara Zetkin sobre a necessidade da autodefesa:
“O que se encontra em risco é a segurança pessoal e a própria existência dos trabalhadores; está em jogo a sobrevivência de suas organizações. A autodefesa é a necessidade do momento.”
E acrescenta que a frente única deveria levar da defesa à ofensiva proletária. Entretanto, nas condições concretas do segundo turno, a direção do PSTU transformou sua convocação à luta em uma orientação puramente eleitoral. A atividade mensurável da organização não foi a formação de uma frente independente para enfrentar ataques a sindicatos, greves ou liberdades políticas, mas a busca de votos para Lula.
Se Flávio Bolsonaro expressasse um movimento fascista nos moldes alemães, a necessidade de organização autônoma dos trabalhadores seria ainda mais urgente. Se, segundo Ray Maria, a caracterização é outra, menos cabível ainda é apresentar Trótski como autorização histórica para votar em Lula.
Em 2022, o PSTU já convocara o voto crítico no petista para derrotar Jair Bolsonaro. Em 2026, a própria direção reconheceu que o resultado de quatro anos dessa política não fora a eliminação do bolsonarismo, mas seu fortalecimento. Diante desse balanço, repetiu a mesma fórmula.
Trótski partia das condições reais e da independência da classe operária. O PSTU conservou as citações e abandonou o método. Em Os ziguezagues dos stalinistas na questão da frente única, o revolucionário resumiu:
“Enquanto o capital dominar, a social-democracia e o fascismo existirão em combinações diferentes. Todas as questões se reduzem assim a um só denominador: o proletariado deve derrubar o regime burguês.”
É precisamente essa tarefa que desaparece quando a luta contra a direita se converte, eleição após eleição, em campanha pelo candidato do regime apresentado como menos ameaçador. A frente única defendida por Trótski destinava-se a dar força e independência ao proletariado. O “voto crítico” do PSTU põe a organização de trabalhadores a serviço da vitória de uma frente eleitoral da burguesia. A distância entre essas duas políticas não é de palavras: é de classe.





