Há uma coisa curiosa no artigo publicado por Tiago Nogara, em 21 de outubro, na Fundação Maurício Grabois, ligada ao PCdoB. Com o título Se fores votar nulo, camarada… pensa nas consequências, o autor procura convencer a esquerda a votar em Lula contra Flávio Bolsonaro. Até aí, nenhuma novidade. O espantoso é a maneira como procura justificar essa posição.
Nogara reconhece que o governo Lula mantém uma política econômica neoliberal. Admite os juros elevados, as parcerias público-privadas, as privatizações não revertidas e o arcabouço fiscal. Depois de apresentar algumas medidas que considera “desenvolvimentistas”, chega ao seguinte argumento:
“Entretanto, evitemos aprofundar a discussão nesse sentido e consideremos os efeitos concretos de uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro.”
Como assim, evitemos aprofundar a discussão? O governo que a esquerda está sendo convocada a apoiar aplica uma política econômica neoliberal, mas seria melhor não discutir muito o assunto?
É justamente isso que precisa ser discutido. Afinal, para que serve um partido de esquerda se, na hora decisiva, sua tarefa é apoiar um governo que aplica a política econômica dos capitalistas? Se é para defender privatizações, juros elevados, austeridade fiscal e acordos com os grandes empresários, não seria mais simples deixar essa tarefa nas mãos dos próprios partidos burgueses?
O problema não é que Lula tenha cometido alguns erros, que tenha feito concessões ocasionais à direita ou que não tenha conseguido realizar tudo aquilo que prometeu. O problema é que seu governo está inteiramente amarrado à política neoliberal. E não se trata de uma situação que lhe foi imposta contra sua vontade. Foi o próprio governo Lula que organizou os acordos políticos necessários para colocar essa orientação em prática.
O chamado novo arcabouço fiscal, por exemplo, não caiu do céu. Não foi uma lei aprovada por Bolsonaro que Lula ficou impedido de revogar. Foi elaborado pelo ministro da Fazenda do próprio Lula, Fernando Haddad, e aprovado em 2023. A legislação estabelece limites para o crescimento real das despesas públicas, em regra entre 0,6% e 2,5% ao ano, e subordina a ampliação dos gastos às receitas e às metas fiscais.
Em outras palavras, o governo petista criou seu próprio mecanismo para limitar os gastos públicos em nome da tranquilidade dos capitalistas e dos credores da dívida pública.
O mesmo acontece com o Banco Central. A autonomia da instituição, aprovada sob Bolsonaro, foi preservada por Lula. O presidente pode reclamar dos juros em entrevistas, fazer discursos indignados e responsabilizar a autoridade monetária pelos problemas da economia. Na prática, porém, não rompeu com o mecanismo que entrega a condução da política monetária a uma instituição protegida das pressões populares.
E as privatizações? O terceiro mandato de Lula realizou 50 leilões federais de rodovias, portos e aeroportos entre 2023 e 2025, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em janeiro de 2026. Nesses setores, o número superou os registros dos governos Fernando Henrique Cardoso e Jair Bolsonaro.
O PT, portanto, não está simplesmente administrando as privatizações herdadas dos governos anteriores. Está promovendo novas concessões e entregando a exploração de setores fundamentais da infraestrutura nacional ao grande capital.
Diante disso, Nogara propõe que não se aprofunde a discussão sobre a política econômica. Mas, se não é para discutir o que o governo faz com o dinheiro público, com as empresas estatais, com os bancos e com os interesses dos trabalhadores, o que exatamente uma organização de esquerda deveria discutir?
Talvez a resposta esteja na própria composição do governo.
Lula escolheu Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB, para ser seu vice-presidente. Ele integra a própria chapa presidencial e ocupa o primeiro lugar na linha sucessória. Ao longo do mandato, Simone Tebet, do MDB, comandou o Ministério do Planejamento. Marina Silva, da Rede, assumiu o Meio Ambiente. Políticos do PSD, PP, Republicanos e MDB receberam ministérios e participaram da administração federal.
A frente ampla não é um detalhe do governo Lula. É o seu eixo político. A mesma orientação aparece nas eleições estaduais, com o apoio do PT a políticos como Eduardo Paes, do PSD, no Rio de Janeiro, Omar Aziz, no Amazonas, e Lucas Ribeiro, na Paraíba. O partido que foi eleito em meio a uma reação popular contra o golpe de 2016 passou a sustentar candidaturas de representantes tradicionais da política burguesa.
O que os trabalhadores ganharam com essa composição? Onde está a representação independente do movimento operário nas decisões fundamentais do governo? Quem, entre os dirigentes sindicais e os trabalhadores organizados, decide a política de juros, o destino das estatais, os limites do orçamento ou os compromissos assumidos com os grandes empresários?
As decisões são tomadas pelos ministros, pelos banqueiros, pelos dirigentes dos partidos da frente ampla e pelos representantes do grande capital. Aos trabalhadores resta ouvir que devem apoiar eleitoralmente essa mesma política para impedir que a direita chegue ao poder.
É um raciocínio extraordinário. Primeiro, o PT se alia à direita para governar. Depois, exige que toda a esquerda apoie eleitoralmente essa aliança para impedir uma vitória da direita.
É evidente que existem diferenças entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ninguém precisa fingir que os dois são a mesma pessoa ou que suas trajetórias políticas são idênticas. Mas reconhecer essas diferenças não resolve a questão fundamental: por que uma organização revolucionária deveria assumir a responsabilidade política por um governo comprometido com os capitalistas?
Nogara procura responder apontando os programas sociais do PT. É verdade que o governo mantém transferências de renda e outras medidas que beneficiam parcelas da população. O problema é apresentar essas concessões extremamente limitadas como se fossem uma transformação da situação dos trabalhadores.
O Bolsa Família não acabou com a exploração do trabalho, com os baixos salários, com o domínio dos bancos ou com a concentração da riqueza. É uma compensação financeira diante de uma situação de pobreza que permanece intacta em suas bases fundamentais.
E não há contradição alguma entre manter um programa desse tipo e governar para os capitalistas. Pelo contrário: concessões sociais limitadas podem servir justamente para administrar os efeitos de uma política econômica que preserva os privilégios da burguesia, evitando que a miséria produzida por essa política provoque uma revolta popular.
É por isso que até Flávio Bolsonaro promete manter o Bolsa Família.
Em julho, durante entrevista ao Flow Podcast, o candidato do PL declarou:
“Você que recebe Bolsa Família, eu vou manter o Bolsa Família, nenhum candidato vai cortar o Bolsa Família.”
Em 19 de outubro, voltou a afirmar que não extinguiria o benefício, embora sua equipe econômica defendesse alterações nas regras de transição para beneficiários que ingressassem no emprego formal ou abrissem empresas.
Eis o tamanho da suposta transformação social promovida pelo PT: seu principal programa de transferência de renda é tão limitado que até o candidato bolsonarista procura convencer os eleitores de que não pretende acabar com ele.
Isso não significa que os programas sociais sejam desnecessários ou que os trabalhadores devam abrir mão deles. Significa que não se pode confundir uma concessão da burguesia com um programa de emancipação da classe operária.
Uma política efetivamente voltada aos trabalhadores colocaria em discussão a propriedade das grandes empresas, a reestatização dos serviços privatizados, o domínio do sistema financeiro, a revogação das reformas contra os trabalhadores e a utilização dos recursos nacionais para atender às necessidades da população.
Nada disso constitui o programa da frente ampla. E não poderia constituir, porque os principais beneficiários da política neoliberal estão representados dentro dela.
O artigo de Nogara procura transformar essa contradição em um problema secundário. O importante, segundo seu raciocínio, seria impedir que Flávio Bolsonaro chegasse ao governo, pois sua vitória agravaria as condições de organização popular.
O argumento merece uma resposta: desde quando a independência política dos trabalhadores depende de eleger um governo da burguesia considerado menos perigoso?
A direita deve ser combatida por meio da organização, da mobilização e da luta dos trabalhadores. Não há razão para acreditar que os interesses populares estarão protegidos enquanto o governo estiver submetido aos bancos, às grandes empresas e aos partidos da direita tradicional.
Aliás, a própria política neoliberal aplicada pelos governos petistas contribui para o desgaste do PT entre os trabalhadores. Quando um partido que se apresenta como representante da classe operária governa para os capitalistas, a decepção popular abre espaço para o crescimento da direita.
E qual seria a solução proposta pelo PCdoB? Apoiar novamente o mesmo governo, com a mesma frente ampla e a mesma política econômica.
Nogara também questiona a necessidade de organizações de esquerda se diferenciarem eleitoralmente do PT. Recorda que a força histórica do partido foi construída nas greves, nos sindicatos e nos movimentos populares, e não simplesmente pela apresentação de candidaturas independentes.
Mas essa observação conduz à conclusão oposta àquela que pretende defender.
O PT se tornou um grande partido porque esteve ligado à mobilização independente da classe operária. Hoje, o mesmo partido se encontra associado a antigos dirigentes do PSDB, políticos do MDB, representantes do latifúndio e defensores das privatizações. Como justificar que a esquerda deva abandonar sua independência justamente diante dessa transformação?
O Partido da Causa Operária apoiou Lula em 2022. Naquele momento, a eleição estava marcada pelo golpe de 2016, pela prisão de Lula e pela operação política que o impediu de concorrer em 2018. O apoio eleitoral não significava um cheque em branco ao PT, muito menos um compromisso permanente com todos os governos que Lula viesse a organizar.
Quatro anos depois, a situação é outra. Lula governa há quase um mandato inteiro. Já não se trata de especular sobre o que ele poderia fazer. É possível examinar aquilo que efetivamente fez: manteve a autonomia do Banco Central, aprovou seu arcabouço fiscal, ampliou as concessões ao capital privado e consolidou uma aliança com os partidos tradicionais da burguesia.
A posição de uma organização revolucionária diante desse governo não pode ser determinada pela simples existência de um candidato ainda mais à direita.
Se esse critério fosse aceito, a esquerda estaria condenada a apoiar indefinidamente os governos neoliberais. Bastaria que surgisse um adversário mais reacionário para que qualquer crítica à política econômica fosse colocada em segundo plano e qualquer iniciativa independente dos trabalhadores fosse apresentada como uma ameaça.
O resultado seria uma situação absurda: os partidos burgueses poderiam governar como bem entendessem, contando sempre com o apoio eleitoral da esquerda, desde que apresentassem um inimigo suficientemente assustador.
Para que serviria, então, a existência de partidos à esquerda do PT? Para repetir seus argumentos eleitorais? Para justificar suas alianças com a burguesia? Para explicar aos trabalhadores que devem continuar aceitando juros elevados, privatizações e austeridade porque a alternativa poderia ser ainda pior?
Um partido revolucionário não existe para ser a ala mais exaltada da campanha eleitoral de um governo neoliberal. Existe para organizar os trabalhadores em torno de um programa próprio, independente dos capitalistas e de seus partidos.





