Em 25 de outubro, a revista Ideas de Izquierda, vinculada ao Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) argentino, publicou La fragmentación del MAGA y la crisis del trumpismo, de Farid Reyes e Ezequiel Silva. O PTS é, por sua vez, ligado ao Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT), que atua no Brasil. O artigo pretende explicar as divisões entre os apoiadores de Donald Trump.
Ao mencionar as justificativas da guerra, os autores falam na suposta ameaça nuclear iraniana e nas críticas à “autocracia dos aiatolás”. A expressão é apresentada de passagem, como caracterização natural do governo iraniano, reproduzindo a campanha imperialista contra a República Islâmica, submetida durante décadas a sanções, sabotagens e ameaças militares.
Quando o imperialismo bombardeia um país e assassina seus dirigentes, a questão fundamental para os revolucionários não é se suas instituições correspondem aos ideais da esquerda universitária ocidental. É a defesa da nação oprimida contra os Estados Unidos e “Israel”.
A ofensiva de 28 de fevereiro tinha entre seus objetivos declarados destruir os programas nuclear e de mísseis do Irã e enfraquecer seu governo. Ali Khamenei foi assassinado e o país sofreu perdas gigantescas. Mesmo assim, o Estado iraniano não caiu nem perdeu sua capacidade de resposta e a luta pelo controle do estreito de Ormuz tornou-se um problema de primeira ordem para os imperialistas. O governo norte-americano foi obrigado a negociar, sem conseguir uma solução que impusesse seus objetivos políticos.
É isso que explica a dimensão da crise norte-americana. Trump prometeu liquidar as guerras intermináveis e colocar os Estados Unidos em primeiro lugar. Terminou envolvido numa guerra custosa contra um país que não atacara o território norte-americano. A resistência iraniana transformou a contradição entre a propaganda eleitoral e a política efetiva da Casa Branca numa crise entre setores da própria direita.
Os autores preferem falar em “estancamiento”, um impasse, e enumerar grupos religiosos, nacionalistas e empresariais do MAGA. As diferenças existem. Mas a guerra expôs os limites da força norte-americana e transformou antigas divergências numa crise aberta. Isto é, a crise no movimento é resultado da ação heróica do povo que o MRT calunia.
A ruptura mais importante diz respeito ao apoio a “Israel”. Tucker Carlson, que fez campanha por Trump, tornou-se crítico da guerra. Candace Owens e outros comunicadores conservadores atacaram a política da Casa Branca. Joe Kent renunciou em março à direção do Centro Nacional de Contraterrorismo, afirmando que o Irã não representava ameaça iminente aos Estados Unidos e que a guerra resultara da pressão de “Israel” e de seu lobby norte-americano.
Em vez de fazer dessa ruptura o centro do problema, a revista dedica grande espaço à contraposição entre sionistas cristãos e católicos antissemitas. Um de seus personagens é Nick Fuentes, militante da extrema direita que difunde preconceitos contra os judeus. Os autores distinguem corretamente o antissemitismo da crítica política a “Israel”. A questão é outra: por que uma crise histórica do apoio ao Estado sionista vira, sobretudo, uma discussão sobre os preconceitos da direita?
A mesma inversão aparece no tratamento dado ao imperialismo norte-americano. Trump é responsável pela agressão, mas a máquina de guerra não começou com ele. Joe Biden armou “Israel” durante o massacre em Gaza, sustentou o regime ucraniano e aprofundou o confronto com a Rússia. Democratas e republicanos participaram de sucessivas campanhas militares, golpes e intervenções contra países oprimidos. Não são dois imperialismos diferentes.
Quando a análise coloca no centro o combate ao trumpismo, em vez do combate ao conjunto do regime imperialista, a oposição dos democratas ganha uma aparência progressista que não merece. A identificação da direita como inimigo exclusivo serve, na prática, para apagar a responsabilidade dos democratas e abrir caminho à colaboração política com uma outra ala da burguesia.
Isso fica particularmente claro quando o artigo apresenta os protestos No Kings como exemplos de resistência. Há trabalhadores e imigrantes sinceramente indignados com a repressão promovida pelo ICE. Mas existe uma diferença fundamental entre a revolta de quem participa de uma manifestação e o caráter político das organizações que procuram dirigi-la.
Uma de suas principais organizadoras é a rede Indivisible, ligada ao campo do Partido Democrata e beneficiada por recursos de fundações do grande capital. Os democratas que hoje denunciam seu autoritarismo estavam à frente do mesmo Estado quando ele financiava o massacre dos palestinos e promovia intervenções no exterior.
A esquerda identitária reconhece imediatamente como progressistas as palavras de ordem contra as opiniões religiosas e os costumes da direita. Mas encontra enormes dificuldades para reconhecer o papel revolucionário que pode cumprir a resistência de um país oprimido, mesmo que seu governo não compartilhe a ideologia liberal dos professores universitários ocidentais.
O Irã não precisa mudar suas instituições religiosas para ter o direito de se defender. A política marxista não consiste em submeter cada país oprimido a um exame de costumes antes de decidir se seus habitantes merecem solidariedade. A questão é saber quem procura impor seu domínio pela força e quem luta contra essa imposição.
Depois de tantos meses de agressão militar, a insistência em caracterizar o Irã como “autocracia dos aiatolás” expõe o abismo entre a esquerda que deseja demonstrar suas credenciais progressistas e os povos que enfrentam, de armas na mão, os Estados Unidos e “Israel”.





