Milhares de drones ucranianos teriam sido instalados no Curdistão iraquiano para realizar operações militares contra a República Islâmica do Irã. A denúncia foi divulgada nesta terça-feira (20) pela agência iraniana Tasnim, com base em informações dos serviços de segurança do país. A movimentação ocorre apenas 20 dias depois do encerramento da missão militar da coalizão norte-americana no Iraque, que durante mais de duas décadas enfrentou a resistência armada à ocupação estrangeira.
Segundo a Tasnim, especialistas ucranianos estabeleceram uma rede de pequenos aparelhos não tripulados em países próximos ao território iraniano. Uma fonte de segurança afirmou que milhares desses equipamentos foram posicionados no norte do Iraque, onde organizações separatistas curdas mantêm bases militares e relações com os serviços de inteligência norte-americanos e israelenses. Os demais países que estariam abrigando unidades ucranianas não foram identificados.
A fonte declarou que Teerã considera a operação parte de uma ofensiva conduzida pelas potências europeias e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Acrescentou que as autoridades iranianas acompanham a movimentação militar e estudam medidas para impedir a utilização dos países vizinhos como bases de agressão contra a República Islâmica.
As informações sobre a quantidade e a localização dos drones ainda não foram confirmadas independentemente. Também não foram apresentadas provas públicas de uma operação militar conjunta entre ucranianos e israelenses em território iraquiano. A denúncia, entretanto, envolve uma região que já havia sido escolhida pelo sionismo para organizar ataques contra o Irã, utilizando agrupamentos separatistas estabelecidos no Curdistão iraquiano.
Em março, a agência Reuters revelou que “Israel” mantinha negociações havia aproximadamente um ano com organizações armadas curdas para promover uma ofensiva terrestre contra a República Islâmica. A operação deveria aproveitar os bombardeios norte-americanos e israelenses para conquistar cidades iranianas próximas à fronteira com o Iraque.
Entre os alvos estavam Oxnavieh e Piranshahr, no noroeste do Irã. As organizações envolvidas nas negociações incluíam o Partido Democrático do Curdistão Iraniano, o Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK) e o Partido da Liberdade do Curdistão (PAK). Estimativas citadas pela reportagem apontavam que esses agrupamentos reuniam, em conjunto, entre 5.000 e 8.000 combatentes.
O plano consistia em abrir uma frente de guerra no interior do território iraniano. Enquanto a aviação norte-americana e israelense atacasse instalações militares e industriais, as organizações separatistas procurariam ocupar localidades próximas à fronteira, obrigando o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica a deslocar tropas para enfrentar a ameaça. Integrantes desses agrupamentos também teriam fornecido informações sobre alvos militares iranianos aos agressores.
A presença de unidades ucranianas, caso confirmada, poderia ampliar a capacidade dessas operações. Pequenos drones são utilizados tanto para reconhecimento e espionagem quanto para ataques contra soldados, veículos e instalações militares. A Ucrânia desenvolveu uma grande experiência no emprego desses aparelhos durante a guerra contra a Rússia, recebendo equipamentos, financiamento e assistência técnica das potências imperialistas.
O governo de Volodimir Zelensqui depende militarmente da OTAN e mantém estreitas relações com os Estados Unidos. A atuação denunciada no Iraque representaria uma extensão dessa colaboração para a guerra contra o Irã, colocando especialistas e equipamentos ucranianos a serviço dos interesses militares dos adversários da República Islâmica.
A utilização de organizações curdas para atacar os países da região é uma antiga política do sionismo. Desde a década de 1960, “Israel” mantém relações com determinados dirigentes curdos, procurando aproveitar as disputas nacionais para enfraquecer governos considerados inimigos de Telavive.
Essa política ganhou uma manifestação pública em setembro de 2017, quando Benjamin Netaniahu declarou apoio à independência do Curdistão iraquiano. O governo regional havia organizado um referendo separatista, rejeitado pelas autoridades centrais de Bagdá. “Israel” destacou-se entre os defensores externos da separação, enquanto o Irã e a Turquia também se opuseram à iniciativa.
O interesse sionista na divisão do Iraque é militar e econômico. A formação de um Estado aliado no norte iraquiano permitiria estabelecer posições próximas às fronteiras do Irã, da Síria e da Turquia, além de ampliar a influência israelense sobre uma região com importantes reservas petrolíferas. A criação de um território dependente das potências estrangeiras facilitaria novas operações contra os governos que se opõem à dominação imperialista do Oriente Próximo.
A luta nacional do povo curdo, que sofreu perseguições e massacres durante décadas, não se confunde com as operações dessas organizações. Os curdos possuem reivindicações nacionais legítimas, mas seu direito à autodeterminação não pode servir de justificativa para transformar a região em uma base militar dos Estados Unidos e de “Israel”. Também existem importantes divergências entre os próprios dirigentes curdos sobre a utilização do norte do Iraque para atacar o Irã.
O governo israelense procura explorar essas divisões. A política separatista permite organizar forças militares dentro dos países que pretende enfraquecer, sem depender exclusivamente de uma invasão realizada por suas próprias tropas. Foi essa a finalidade das negociações reveladas em março, quando a ofensiva contra a República Islâmica não havia conseguido provocar a derrota militar do governo iraniano.
A denúncia desta terça-feira adquire maior importância porque surge logo depois da retirada das tropas norte-americanas no âmbito do acordo de encerramento da missão da coalizão internacional no Iraque. Em 30 de setembro, chegou ao fim a etapa de retirada prevista para 2026, depois de anos de pressão das organizações iraquianas que combateram a ocupação.
A presença militar norte-americana começou com a invasão de março de 2003, quando o governo de George W. Bush atacou o Iraque alegando que Sadam Hussein possuía armas de destruição em massa. O arsenal utilizado como justificativa para a guerra nunca foi encontrado. A agressão derrubou o governo iraquiano, destruiu grande parte da infraestrutura nacional e provocou centenas de milhares de mortes.
Washington pretendia transformar o Iraque em uma base permanente de sua dominação sobre o Oriente Próximo. O controle do território permitiria pressionar o Irã, a Síria e os demais países da região, além de garantir influência direta sobre uma das maiores reservas de petróleo do mundo.
A resistência armada impediu que essa ocupação se estabilizasse. Apesar da superioridade militar norte-americana, diferentes organizações iraquianas mantiveram operações contra as tropas estrangeiras. O imperialismo foi obrigado a realizar uma primeira retirada em 2011, retornando posteriormente sob o pretexto da guerra contra o chamado Estado Islâmico.
Organizações como o Cataebe Hesbolá e o Haracat al-Nujaba continuaram exigindo a expulsão definitiva dos militares norte-americanos. A guerra regional desencadeada depois de outubro de 2023 intensificou os confrontos, com operações da resistência iraquiana contra instalações dos Estados Unidos e alvos israelenses.
A retirada negociada entre Washington e Bagdá representou uma vitória política dessas organizações. Os Estados Unidos procuraram impor novas condições ao governo iraquiano, particularmente o desarmamento das forças que haviam combatido a ocupação, mas não conseguiram transformar essa exigência em condição para o cumprimento do acordo.
A saída das tropas, contudo, não eliminou os instrumentos de dominação norte-americanos. Washington continua exercendo pressão financeira e diplomática sobre o governo de Bagdá, enquanto seus aliados procuram conservar posições militares e políticas na região. O Curdistão ocupa um lugar estratégico nesses planos por sua localização geográfica e pela presença de organizações armadas com relações internacionais próprias.
É precisamente nessa região que, segundo a inteligência iraniana, os ucranianos instalaram milhares de drones. A denúncia aponta para a possibilidade de o imperialismo substituir parte da ocupação militar direta por operações realizadas através de países aliados e forças separatistas. A retirada dos soldados norte-americanos seria acompanhada pela tentativa de conservar uma estrutura de agressão contra o Irã e de intervenção nos assuntos iraquianos.
O governo de Bagdá enfrenta, assim, uma ameaça à sua soberania. A utilização do território nacional para organizar ataques contra um país vizinho contraria os interesses do povo iraquiano, que passou mais de duas décadas combatendo a ocupação estrangeira. Também ameaça arrastar o Iraque para uma nova guerra, quando o país ainda sofre as consequências da invasão de 2003.
O sionismo possui um interesse direto em promover essa situação. Sua agressão contra o Irã encontrou uma resistência muito maior do que esperavam seus dirigentes. As forças iranianas mantiveram sua capacidade de combate e continuaram apoiando as organizações do Eixo da Resistência, contrariando os planos norte-americanos e israelenses de impor uma capitulação militar e política à República Islâmica.
A tentativa de mobilizar agrupamentos separatistas pretende atingir o país por suas fronteiras, aproveitando conflitos nacionais que o imperialismo procura estimular. A divisão territorial do Irã seria uma vitória estratégica para “Israel”, assim como a fragmentação do Iraque enfraqueceria um dos principais países árabes da região.
A denúncia publicada pela Tasnim ainda exige esclarecimentos sobre a presença efetiva de militares ucranianos e seus equipamentos no norte iraquiano. Os planos israelenses de utilizar organizações separatistas contra o Irã, porém, já foram documentados. Depois de serem obrigados a retirar suas tropas do Iraque, os Estados Unidos e seus aliados procuram conservar meios de intervenção sobre o território, ameaçando novamente a soberania iraquiana e a segurança dos países que enfrentam o imperialismo.




