Engenheiros de empresas egípcias realizaram levantamentos em terrenos no leste de Rafá, no sul da Faixa de Gaza, acompanhados por militares de “Israel”. As informações foram publicadas pelo Middle East Eye na segunda-feira (19), com base em duas fontes egípcias. Os trabalhos se destinam a preparar o projeto habitacional chamado Rafá Verde, previsto para uma área submetida ao controle das forças de ocupação.
Uma fonte militar do norte do Sinai afirmou que os técnicos estiveram sob supervisão do Exército e da Força Aérea israelenses durante sua permanência em Gaza. Outra fonte, ligada ao grupo empresarial de Ibrahim al-Organi, disse que os levantamentos já foram entregues e poderão servir aos projetos de engenharia, remoção de escombros e preparação dos terrenos.
O empreendimento foi apresentado como uma área para abrigar inicialmente cerca de 20 mil palestinos, sob administração de uma força multinacional. As informações disponíveis não esclarecem como os antigos moradores de Rafá serão contemplados, nem quem decidirá sobre a ocupação dos novos imóveis.
Antes da devastação causada pelo sionismo, a cidade tinha aproximadamente 250 mil habitantes. A reportagem calcula que pelo menos 80% das construções da região foram destruídas. Famílias expulsas de suas residências enfrentam agora a perspectiva de ver sua cidade reorganizada por empreiteiras privadas, governos estrangeiros e pelo próprio Exército responsável pela ocupação.
Organi é um empresário egípcio com vínculos conhecidos com os serviços de segurança do país. Empresas relacionadas a seu grupo já foram apontadas como participantes do controle comercial da passagem de Rafá, por onde circulam pessoas e mercadorias entre Gaza e o Egito. A reconstrução pode ampliar seus negócios sobre um território arrasado pelos bombardeios.
O projeto recebeu, segundo uma fonte militar citada pelo Middle East Eye, apoio de Washington, que teria transmitido orientações por intermédio do diretor da CIA, John Ratcliffe. A afirmação não foi confirmada publicamente pela Casa Branca ou pela agência. O encontro de Ratcliffe com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi, em setembro, foi divulgado oficialmente, mas sem referência explícita ao empreendimento de Rafá.
A obra integra planos mais amplos apresentados por Jared Kushner, genro de Donald Trump, para redesenhar a Faixa de Gaza. A proposta denominada Nova Gaza fala em bairros, áreas industriais, infraestrutura de transporte e mais de 100 mil moradias permanentes em Rafá. Não esclarece, contudo, quais direitos terão os palestinos cujas propriedades foram destruídas ou incluídas nos novos projetos.
A disputa pelos contratos contrasta com a falta de recursos para uma reconstrução real. Avaliação conjunta da ONU, do Banco Mundial e da União Europeia estimou em US$ 71,4 bilhões as necessidades de recuperação de Gaza durante dez anos. Segundo o Middle East Eye, os compromissos financeiros divulgados pelo chamado Conselho da Paz somavam apenas US$ 280 milhões.
O chamado Rafá Verde não pode ser tratado como simples obra de habitação. A questão central é quem governará a região e quem decidirá sobre as terras de uma população que foi expulsa pelo imperialismo. A reconstrução de Gaza deve permitir o retorno dos palestinos às suas casas e ao controle de seu território, não estabelecer outro mecanismo de tutela imperialista.




