França

Frente ampla tenta conter mobilizações e sabotar a França Insubmissa

Ministério do Interior acusa “extrema-esquerda” de vandalismo e governo tenta isolar a LFI com o apoio do PS

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, convocou os partidos políticos do regime para uma reunião nesta quinta-feira (22/10), em Matignon, sede do governo. O primeiro secretário do Partido Socialista (PS), Olivier Faure, confirmou que participará. Depois das manifestações de 17 de outubro, o governo de Emmanuel Macron procura reunir forças para conter a mobilização popular e atacar a França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon. A frente ampla que começa a ser articulada tem como alvo a esquerda que apoia os protestos.

Lecornu anunciou que a “segurança da campanha presidencial” estará na pauta. Os “socialistas” informaram que pretendem discutir o movimento social, a crise política e as mudanças na doutrina de policiamento. Entretanto, segundo reportagem do Le Monde publicada na terça-feira (20/10), integrantes da LFI e dos Verdes afirmaram que ainda não haviam recebido o convite. O primeiro-ministro já havia acusado Mélenchon e seu partido de contribuir para a desordem.

A reunião será, portanto, dirigida por quem procura responsabilizar a esquerda pela revolta contra o governo. Sob o pretexto da segurança, Lecornu tenta organizar a contraofensiva da burguesia: obter apoio para a repressão e isolar a organização que busca apoiá-las. A presença do PS é especialmente útil para apresentar essa política como um compromisso democrático entre governo e oposição, ao mesmo tempo em que pode utilizar o que resta da influência do PS no ativismo de esquerda para desmobilizar a rebelião popular.

Faure aceita o convite quando o Ministério do Interior enfrenta denúncias de pressionar a polícia para incriminar a LFI. Segundo investigação do Mediapart, reproduzida pelo L’Humanité em 20/10, agentes dos serviços de inteligência territorial e da polícia relataram ordens para atribuir à França Insubmissa a organização do movimento, apesar da ausência de provas.

O jornal teve acesso a mensagens de 18/10 nas quais um comissário dos serviços de inteligência territorial relatava a pressão a um colega: “Há coisas indizíveis, mas, quando nos pedem literalmente para escrever que é a LFI que está por trás do movimento, embora isso seja objetivamente falso na avaliação geral dos serviços de inteligência territorial, necessariamente estamos diante de decisões políticas.”

A denúncia aponta uma tentativa de fabricar a versão policial de que o governo necessita. A conclusão viria pronta do ministério; aos agentes caberia registrá-la em seus informes. A acusação contra a esquerda poderia então circular como resultado de um trabalho de inteligência, encobrindo sua origem política. É a utilização do aparelho de Estado para perseguir um adversário e justificar ataques às organizações populares.

Outro documento revelado pelo Mediapart mostra como o apoio aos protestos foi convertido em material de acusação. Uma nota de inteligência de 15/10 alertava para a presença da “ultraesquerda” nas manifestações previstas para dois dias depois. Atribuía a essas organizações a intenção de aproveitar a revolta dos estudantes secundaristas para ampliar a mobilização e mencionava Mélenchon, Fabien Roussel, do Partido Comunista Francês, e Marine Tondelier, dos Verdes.

As informações reunidas, porém, eram declarações públicas. A LFI anunciara que seus parlamentares nacionais e europeus participariam dos atos. Tondelier dissera à emissora BFMTV que também compareceria. A nota tratava como indício de uma operação subversiva aquilo que os próprios dirigentes haviam divulgado: sua disposição de estar nas ruas junto aos manifestantes.

O governo procura estabelecer que apoiar uma mobilização torna um partido responsável por qualquer confronto ocorrido durante o protesto. Aceito esse critério, basta uma depredação para colocar sob suspeita todos os que convocaram ou acompanharam um ato. A ameaça se dirige também aos sindicatos e às organizações estudantis: quem ajudar a organizar a oposição a Macron poderá ser acusado de promover a violência.

A versão governamental é contestada até por representantes policiais hostis à LFI. Um dirigente nacional de uma organização sindical da polícia declarou ao Mediapart: “Não vejo o que a LFI tem a ver com a história desse fiasco. É perigoso politizar assim um fracasso tão grosseiro e, sobretudo, não assumir inteiramente a responsabilidade por ele. No entanto, não tenho simpatia pela LFI, dadas suas incessantes críticas aos policiais.”

O depoimento impede que Lecornu apresente as objeções como simples defesa partidária de Mélenchon. A tentativa de vincular a LFI aos acontecimentos encontra resistência dentro do próprio aparelho policial. O dirigente ouvido pelo jornal cobra responsabilidade pela operação de segurança e considera perigoso transferi-la para uma organização política contra a qual faz questão de declarar sua antipatia.

A procuradora de Paris, Laure Beccuau, também contrariou o Ministério do Interior. Em entrevista à TF1, na segunda-feira (19/10), disse que não podia confirmar que os autores do “vandalismo” fossem pessoas politizadas na “ultraesquerda”. Segundo ela, os detidos eram, em sua grande maioria, pouco conhecidos, permaneciam em silêncio e não apresentavam reivindicações políticas.

Laurent Nuñez, ministro do Interior, respondeu ao Mediapart que a maior parte dos presos teria se agregado a militantes identificados pelos serviços de inteligência. Os integrantes da “ultraesquerda”, por terem experiência nesse tipo de acontecimento, teriam evitado a prisão. Assim, a ausência de confirmação entre os detidos não altera a acusação do ministro: os responsáveis seriam justamente aqueles que a polícia não prendeu. Sua resposta mantém a suspeita sem demonstrar o vínculo atribuído à LFI.

A campanha já estava em andamento antes de 17 de outubro. No fim de setembro, Nuñez qualificara como “irresponsável” a participação de representantes eleitos da França Insubmissa nas mobilizações. Depois dos protestos, citou anarquistas, antifascistas, organizações da esquerda radical e sindicatos estudantis. A lista reúne adversários políticos do governo, sem esclarecer a responsabilidade de cada organização por acontecimentos determinados.

Na terça-feira (20/10), o coordenador da LFI, Manuel Bompard, anunciou que o partido havia recorrido à Corte de Justiça da República contra o ministro do Interior. À France Info, declarou: “Quando o governo procura se eximir desse fiasco atacando a França Insubmissa, isso é absolutamente escandaloso. Chegar a manipular o trabalho dos serviços de inteligência territorial para tentar atingir a França Insubmissa é absolutamente inaceitável.” Mélenchon exigiu que Lecornu apresentasse provas das acusações.

As decisões do governo também passaram a ser questionadas no Parlamento. Yaël Braun-Pivet, presidente da Assembleia Nacional e integrante do Renascimento, partido de Macron, propôs uma comissão de investigação que examine, entre outros pontos, a estratégia de policiamento e suas possíveis falhas. No Senado, uma missão de informação recebeu apoio de todos os grupos para apurar problemas na preparação do dispositivo policial.

Lecornu convoca os partidos quando precisa responder por essas decisões. Ao transformar a reunião em discussão sobre segurança, tenta assumir a posição de árbitro da crise. Os responsáveis pela repressão passam a exigir dos demais dirigentes compromissos em defesa da ordem. A acusação contra a LFI ajuda a evitar que a reunião se concentre na responsabilidade do Executivo pelos acontecimentos.

A propaganda contra os “vândalos” acompanha o endurecimento nas ruas. O governo procura reduzir uma mobilização contra sua política a um problema de polícia. Os motivos da revolta são substituídos pela denúncia de agitadores, e a participação de organizações de esquerda é apresentada como manipulação dos manifestantes. Macron pretende conservar sua política neoliberal e reprimir a resistência que ela provoca.

A participação de militares no policiamento das manifestações agrava essa ofensiva. O governo trata a população mobilizada como inimigo interno e avança na imposição de uma ditadura contra o movimento popular. A discussão sobre a doutrina policial, anunciada pelo PS como um dos assuntos da reunião, ocorre sob essa pressão. Os manifestantes enfrentam a força do Estado enquanto seus apoiadores são ameaçados por acusações políticas.

Os “socialistas” oferecem ao governo uma ajuda que a polícia não pode fornecer: influência sobre setores que se consideram de esquerda e se opõem a Macron. A direção do PS pode utilizar essa influência para convencer sua base de que a prioridade é restabelecer a ordem e negociar com o primeiro-ministro. A frente ampla procura, assim, conter por dentro o movimento que o governo reprime nas ruas.

Faure também tem interesse em enfraquecer a França Insubmissa. O partido de Mélenchon disputa com o PS trabalhadores, jovens e eleitores descontentes com a direita. Quanto mais a LFI se aproxima das manifestações, maior a dificuldade dos “socialistas” para justificar sua colaboração com o governo. A acusação de irresponsabilidade permite atacar o concorrente sem assumir abertamente que o motivo da disputa é o apoio à luta popular.

A direção “socialista” não precisa repetir cada declaração de Nuñez para prestar esse serviço. Ao aceitar que o governo estabeleça a pauta e apresente a mobilização como ameaça à segurança, ajuda a pressionar os partidos que permanecem ao lado dos manifestantes. A LFI fica obrigada a se defender das acusações, enquanto o PS procura aparecer como interlocutor confiável das instituições. A confiança da burguesia é obtida à custa da oposição nas ruas.

O comportamento da extrema-direita esclarece contra quem essa aliança está sendo organizada. Ela não participa dos protestos nem apoia a população mobilizada contra Macron. Na defesa da ordem e na hostilidade à esquerda, converge com o governo. Quando trabalhadores e estudantes enfrentam as instituições apodrecidas e a política neoliberal, a burguesia dirige sua ofensiva contra quem pode dar organização à revolta.

Desaparece do centro da campanha oficial o perigo da extrema-direita, tantas vezes invocado para exigir que a esquerda se una aos partidos do regime. O grande inimigo passa a ser a “ultraesquerda”. As organizações que apoiam as manifestações são acusadas de ameaçar a democracia por aqueles que recorrem à repressão para preservar o governo. A defesa das instituições serve, assim, para encobrir o ataque às liberdades políticas.

A ofensiva já alcança a eleição presidencial de 2027. Lecornu acusou a “ultraesquerda” de pretender organizar uma desordem profunda no país até a disputa. Sua declaração vincula a continuidade das manifestações a uma ameaça ao processo eleitoral. A burguesia prepara o argumento de que uma candidatura apoiada nessa mobilização seria perigosa para a estabilidade do regime.

Mélenchon é o alvo porque sua atuação pode dar expressão política nacional ao descontentamento. Isolá-lo significa dificultar essa ligação e reduzir as possibilidades de que a revolta se traduza em força organizada contra o governo. Para o PS, a mesma operação oferece a oportunidade de recuperar espaço na esquerda, apresentando-se como alternativa aceitável aos partidos burgueses e aos responsáveis pelo aparelho repressivo.

A referência a comunistas e ecologistas na nota de inteligência amplia a intimidação. O governo avisa que outras organizações também podem ser incluídas na campanha, caso acompanhem os protestos. Se elas recuarem para preservar sua relação com as instituições, facilitarão o isolamento da LFI. A defesa da liberdade de manifestação exige combater essa perseguição, sem condicionar a solidariedade a acordos eleitorais ou à concordância com todas as posições de Mélenchon.

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