França

Todo o apoio à verdadeira luta contra a direita!

Após as manifestações de 17 de outubro, estudantes ampliam bloqueios, coletes amarelos convocam novos atos e sindicatos preparam a greve de 5 de novembro

As enormes manifestações de sábado (17) deram novo impulso à luta contra Emmanuel Macron na França. Os estudantes continuam organizando bloqueios e ocupações, os coletes amarelos convocaram outra jornada para 24 de outubro e a Confederação Geral do Trabalho (CGT) mantém a preparação da greve de 5 de novembro. Nesta segunda-feira (19), estudantes bloquearam o Museu do Louvre e tentaram impedir o funcionamento da Sciences Po, em Paris. O governo respondeu ao crescimento dos protestos com toques de recolher, proibições de manifestações e o envio de mais policiais às ruas. Em vez de intimidar a população, a repressão vem alimentando uma revolta que já ultrapassou as escolas.

Segundo a CGT e as organizações responsáveis pela mobilização, cerca de 800 mil pessoas participaram dos atos do último sábado. O Ministério do Interior reconheceu 550 mil manifestantes, distribuídos por 110 passeatas, dos quais 110 mil em Paris. Operários, funcionários públicos, estudantes, aposentados e trabalhadores dos bairros populares se encontraram nas ruas contra o encarecimento da vida, os cortes nos serviços públicos e os ataques aos direitos sociais. As reivindicações educacionais, que deram origem ao movimento, passaram a se combinar com a insatisfação de parcelas muito maiores da população francesa.

A revolta começou no final de setembro, com piquetes em centenas de liceus, equivalentes às escolas de ensino médio. Em 29 de setembro, o próprio Ministério da Educação reconheceu que mais de 330 estabelecimentos haviam registrado bloqueios ou tentativas de bloqueio. Os estudantes exigem professores, instalações adequadas e a supressão do Parcoursup, mecanismo que seleciona os candidatos ao ensino superior. O governo ofereceu o envio de professores substitutos, mas não solucionou os problemas que deram origem aos protestos. A mobilização chegou às universidades, às escolas artísticas e aos estabelecimentos culturais, apesar das operações policiais montadas para desarticulá-la.

A repressão foi um dos fatores da radicalização. Em Saint-Ouen-l’Aumône, um adolescente teve a mandíbula destroçada por um disparo policial; em Lens, outro perdeu uma mão; em Argenteuil, um estudante ficou sem um olho. No sábado, em Saint-Étienne, uma granada policial arrancou a mão de um jovem manifestante, o que levou à abertura de uma investigação. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, já havia defendido publicamente o uso do armamento disponível às forças de segurança. A juventude passou a lutar não apenas contra o desmonte do ensino, mas também contra a violência empregada para impedir suas manifestações.

Nesta segunda-feira, secundaristas de Paris e dos subúrbios reuniram-se na Bolsa do Trabalho para preparar ações em 22 e 24 de outubro e nos dias 3 e 5 de novembro. Na Sciences Po, policiais e gendarmes intervieram para dispersar os estudantes. Mesmo durante as férias, a juventude procura manter suas assembleias e aproximar-se dos trabalhadores.

Os coletes amarelos ampliaram a base social do protesto. O movimento surgiu em 2018, contra os aumentos dos combustíveis e o empobrecimento de trabalhadores que já não conseguiam sustentar suas famílias. Durante meses, enfrentou Macron e sofreu uma repressão que deixou manifestantes mutilados. Sua coordenação participou da convocação do último sábado e anunciou agora um novo “Ato II”, marcado para 24 de outubro. A presença dos coletes amarelos aproxima a atual rebelião da experiência de um movimento popular que abalou o governo francês muito antes de começar a revolta estudantil.

A CGT prepara uma jornada nacional de greves e manifestações para 5 de novembro. Em comunicado de 19 de outubro, convocou os trabalhadores a discutir a paralisação nos próprios locais de trabalho. A central exige aumento de salários e aposentadorias, reajuste das bolsas estudantis, congelamento de preços e investimentos em hospitais, escolas e transportes. Denuncia ainda as demissões promovidas por empresas que recebem recursos públicos. Thomas Vacheron, dirigente confederal da CGT, afirmou a L’Humanité que “a vitória está ao nosso alcance” se o movimento continuar crescendo. Uma greve de grande alcance levaria a revolta estudantil para o interior das empresas.

Diante das novas manifestações, a resposta principal do governo foi policial. Depois de mobilizar aproximadamente 60 mil agentes no sábado, anunciou mais efetivos e medidas excepcionais de controle da população. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu determinou a adoção de toques de recolher localizados. Em Paris, foram proibidas manifestações em determinadas áreas a partir das 20 horas de segunda-feira, com restrições de circulação na Praça da República e na região de Les Halles entre 23 horas e 6 horas. Medidas semelhantes atingiram setores de Lille, Lyon e Nice. Lecornu admitiu a possibilidade de decretar estado de emergência se considerar necessário. Macron recorre a métodos de ditadura contra uma população que contesta seu governo.

O balanço das operações policiais também cresceu. Na noite de segunda-feira, o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, anunciou 2.513 pessoas submetidas à custódia policial desde o fim de semana e 67 encarceradas. O ministro informou ainda que buscava utilizar enquadramentos de criminalidade organizada, que permitem prolongar a custódia em determinadas circunstâncias. Antes dos atos de sábado, quase oito mil passagens pela custódia já haviam sido registradas desde o início da revolta estudantil, a maioria envolvendo menores. Os dois balanços abrangem períodos que se sobrepõem, mas dão uma ideia da extensão do aparato mobilizado para reprimir os protestos.

A extrema direita de Jordan Bardella acompanhou a campanha repressiva. O dirigente do Reagrupamento Nacional convocou uma entrevista coletiva sob a palavra de ordem “Diante do caos, a França em ordem”. Empregou a expressão “exército do crime”, identificada pelo jornal L’Humanité com a propaganda nazista do chamado Cartaz Vermelho, que apresentava combatentes comunistas da Resistência como criminosos. Bardella também atribuiu os distúrbios à imigração. O governo fala em defender a ordem republicana, enquanto a extrema direita utiliza a mesma situação para atacar imigrantes. O resultado é uma aliança para endurecer a repressão contra a população.

Emmanuel Macron está no poder desde 2017. Ex-banqueiro do Rothschild e ex-ministro da Economia, chegou à Presidência prometendo superar a divisão entre esquerda e direita, modernizar o país e representar uma alternativa civilizada aos partidos tradicionais. Utilizou também pautas identitárias para conquistar setores da classe média e apresentar-se como progressista. Em quase uma década, realizou uma política dos sonhos do grande capital e profundamente impopular. Atacou direitos trabalhistas, beneficiou os mais ricos e, em 2023, impôs a reforma da Previdência que elevou de 62 para 64 anos a idade mínima de aposentadoria. Para fazê-la passar diante da resistência popular, deu um golpe ao recorreu ao artigo 49.3 da Constituição, evitando uma votação parlamentar ordinária. Os mesmos trabalhadores que agora protestam já haviam enfrentado a polícia em greves gigantescas contra aquela reforma.

No exterior, Macron atua como representante por excelência do imperialismo francês e mundial. Integra o bloco ocidental que arma a Ucrânia e pressiona a Rússia. Procura conservar a influência política, econômica e militar da França sobre antigas colônias africanas, mesmo depois das retiradas de tropas do Sael. No Oriente Médio, ordenou, em 2018, bombardeios contra a Síria ao lado dos Estados Unidos e do Reino Unido, e está na linha de apoio à agressão de Trump contra o Irã. O discurso sobre democracia e direitos humanos é apenas uma fachada para enganar a pequena burguesia, enquanto aplica uma intensa agressão militar e econômica sobre os povos que resistem às potências imperialistas.

Essa direita tradicional também participa do governo brasileiro. Lula elogia Macron e mantém relações íntimas com o presidente francês. Ao mesmo tempo, o PT trouxe para dentro de seu governo representantes brasileiros dessa direita. Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB e ex-governador de São Paulo, ocupa a Vice-Presidência. Foi sob seus governos que professores e estudantes paulistas conheceram a repressão policial, inclusive nas ocupações de escolas de 2015. Simone Tebet, integrante do MDB que votou a favor de Dilma Rousseff em 2016 e é uma pistoleira do latifúndio no Mato Grosso do Sul, passou a dirigir o Ministério do Planejamento. O empresariado, os banqueiros e os partidos mais tradicionais da burguesia possuem representantes e aliados na frente ampla petista, que ganhou mais poder a cada dia.

Aqui, a esquerda encontra-se afogada na eleição presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro. A disputa é apresentada como uma questão de vida ou morte, capaz de justificar o abandono de qualquer atividade que não contribua imediatamente para a campanha petista. O bolsonarismo é uma força de direita, mas está longe de ser a única ou mesmo a mais ameaçadora. A burguesia também governa por meio dos políticos tradicionais, dos bancos, das grandes empresas e de um regime que permanece intocado quando seus representantes trocam de ministério ou de partido. Reduzir o combate à direita ao voto em Lula significa fortalecer a direita criminosa que domina a frente ampla.

A 39ª Conferência Nacional do Partido da Causa Operária, realizada em 11 de outubro, decidiu pelo voto nulo no segundo turno presidencial e nas disputas estaduais. O Partido esclareceu que não apoiaria Flávio Bolsonaro, mas tampouco poderia sustentar a política burguesa da frente ampla. O apoio a Lula em 2022 respondeu a uma situação diferente, marcada pela luta contra o golpe de 2016. Agora, o PCO considera necessário organizar uma política independente dos trabalhadores e não fará uma campanha de agitação pelo voto nulo. A luta por salários, direitos democráticos e organização popular não pode ser subordinada aos interesses eleitorais dos aliados de Alckmin e Tebet.

O que ocorre na França não depende de uma vitória eleitoral sobre Bardella, nem de acordos com a direita dita moderada. Os trabalhadores e estudantes organizaram greves, assembleias, piquetes e ocupações contra o governo existente. No Brasil, a luta contra a direita exige a organização independente da classe operária, não a submissão aos políticos da frente ampla.

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