Polêmica

Foi o trabalhador quem pediu para colocar Alckmin no governo?

Em crônica contra o chamado “pobre de direita”, jornalista transforma o trabalhador em motivo de chacota e revela o desprezo de classe de setores da esquerda petista

Poucas coisas revelam tão claramente a degeneração política de setores da esquerda pequeno-burguesa quanto o desprezo que demonstram pelos trabalhadores quando estes não votam conforme suas determinações. Uma crônica publicada nesta terça-feira (13) no portal Brasil 247, intitulada O pobre de direita, é uma demonstração particularmente grotesca dessa mentalidade.

Assinado pelo jornalista Ediel Ribeiro, o texto apresenta uma situação fictícia na qual um trabalhador, após votar em Flávio Bolsonaro, descobre que perdeu todos os seus direitos trabalhistas. O patrão anuncia o fim da CLT, das férias, do décimo terceiro, do FGTS e até do descanso semanal. Diante da situação, o empregado se desespera, enquanto o patrão debocha de sua ingenuidade.

A intenção é ridicularizar o trabalhador que votou na direita, apresentando-o como um imbecil incapaz de perceber os próprios interesses. O resultado é uma peça de propaganda que diz muito mais sobre a mentalidade de determinados setores da esquerda do que sobre a população que pretende atacar.

O autor começa sua crônica com uma frase reveladora: “Sempre achei que pobre e rico reconheciam seus lugares”. Embora inserida numa sátira, a formulação ajuda a expor o problema central do texto: o trabalhador tem um lugar predeterminado na política e, caso não se comporte como seus pretensos representantes esperam, merece ser castigado.

O personagem não é apresentado como um trabalhador explorado, que enfrenta jornadas exaustivas, salários insuficientes e o poder dos patrões. É apresentado como um tolo. Quando descobre que suas esperanças eleitorais foram frustradas, o autor faz questão de registrar que ele “choramingou”.

O trabalhador não protesta, não se revolta, não organiza os companheiros contra o patrão. Apenas lamenta sua decisão eleitoral. O sofrimento da classe operária transforma-se numa piada cujo objetivo é provocar risadas às custas de quem supostamente deveria ser defendido pela esquerda.

O mais revelador é que, na história, o patrão permanece como uma figura poderosa, que dita todas as condições de trabalho. Entretanto, a lição política dirigida ao leitor não é a necessidade de enfrentar esse patrão, mas a estupidez do empregado que teria votado errado.

É uma concepção profundamente reacionária, disfarçada de humor progressista.

Afinal, quem foi responsável pela destruição dos direitos trabalhistas no Brasil? A reforma trabalhista de 2017, por exemplo, foi aprovada durante o governo de Michel Temer, muito antes de Flávio Bolsonaro disputar a Presidência. A ofensiva contra os trabalhadores não nasceu com o voto de um operário no bolsonarismo. Ela é uma política da burguesia brasileira, aplicada por seus representantes em diferentes governos.

E o que fez o governo Lula para reverter essa situação? A reforma de Temer permaneceu em vigor. O governo petista preservou o Banco Central independente, adotou o arcabouço fiscal e fez da conciliação com o grande capital a orientação central de sua administração.

O trabalhador que enfrenta salários baixos, dívidas, dificuldades para pagar o aluguel, transporte caro e condições cada vez piores de trabalho deve considerar tudo isso um detalhe? Deve agradecer ao governo porque seus dirigentes se apresentam como adversários da extrema direita?

Para os Ediel Ribeiro, aparentemente sim. Se o trabalhador está insatisfeito e procura outra alternativa política, o problema estaria nele próprio, na sua ignorância, na sua incapacidade de compreender aquilo que os dirigentes iluminados da esquerda consideram evidente.

Em vez de explicar por que o PT, depois de quatro anos no governo, perdeu o apoio de milhões de brasileiros, essa esquerda prefere acusar os eleitores de não saberem votar. Em vez de examinar a política econômica, as alianças com a direita tradicional e o abandono das mobilizações populares, inventa uma suposta deficiência intelectual do povo.

O mesmo trabalhador que votava no PT e era exaltado como exemplo da consciência “democrática” brasileira transforma-se, quando vota em Bolsonaro, num sujeito ignorante, conservador e incapaz de compreender os próprios interesses.

Mas quem mudou de posição política? Foram apenas os trabalhadores ou também a esquerda que abandonou suas antigas reivindicações para governar ao lado de Geraldo Alckmin, dos banqueiros e dos representantes tradicionais da burguesia?

O trabalhador que vota em Flávio Bolsonaro continua sendo trabalhador. Não se transforma em patrão, banqueiro ou inimigo de classe por apertar um botão na urna eletrônica. Continua tendo interesses materiais opostos aos da burguesia. Continua precisando de aumento salarial, redução da jornada, emprego, moradia e melhores condições de vida.

Em uma greve contra o arrocho salarial, os trabalhadores que votaram em Lula e aqueles que votaram em Bolsonaro estão diante do mesmo patrão. Seus interesses são comuns, independentemente das diferenças políticas existentes entre eles.

A tarefa de uma organização de esquerda seria desenvolver essa consciência, mostrar que o inimigo é o capitalista e organizar os trabalhadores para lutar. Não dividir a classe operária entre os eleitores considerados inteligentes e os pobres supostamente incapazes de pensar.

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