O presidente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou no Análise da 3ª desta terça-feira (13) que o Partido votará nulo no segundo turno porque o apoio a Lula significaria pedir aos trabalhadores que sustentassem o governo da frente ampla. A posição foi aprovada no domingo (11), pela 39ª Conferência Nacional do PCO, para as disputas presidencial e estaduais.
A primeira questão enfrentada por Pimenta foi a diferença entre a decisão atual e o apoio dado a Lula em 2022. Após o golpe de 2016, explicou, a candidatura do petista reunia trabalhadores que se opunham à sua prisão e à ofensiva da burguesia. O PCO apoiou Lula em 2018, até que ele fosse impedido de concorrer, e voltou a apoiá-lo quatro anos depois. Eleito, Lula retomou a política de seus governos anteriores e incorporou à sua base setores da direita que haviam participado do golpe.
“O Lula é o mesmo Lula. Não se trata de ser outra pessoa. O que mudou foi o caráter do movimento político que ele comanda, do próprio PT. O PT fez quatro governos, ou três governos e meio, numa política de colaboração com a burguesia. Nós nunca apoiamos essa política. […] O golpe de Estado colocou o PT em oposição frontal ao regime político burguês. Por isso a gente apoiou a candidatura do Lula em 2018 e depois em 2022, porque nós entendíamos que era um voto contra o regime político burguês. Só que agora o governo do PT voltou, voltou a ser um partido do regime.”
Pimenta rejeitou a ideia de que o PCO teria “apostado” em Lula e perdido. Em 2022, disse, havia uma luta concreta contra o regime saído do golpe; o apoio eleitoral correspondia àquela situação. A avaliação do governo iniciado em 2023 é outra. Seu acordo com os bancos, a presença de Geraldo Alckmin na Vice-Presidência e a reunião de antigos quadros do PSDB em torno da campanha petista mostram o sentido da frente formada pelo PT.
O dirigente afirmou que o partido também se afastou dos trabalhadores ao dar espaço crescente ao identitarismo. Questionou a apresentação dos atos de campanha de Lula como prova de uma grande mobilização operária: enquanto atrai uma parcela da juventude identificada com essa política, o PT perde apoio entre os trabalhadores. Se continuar assim, advertiu, o bolsonarismo poderá conquistar uma parte ainda maior dessa base.
“O nosso problema aqui não é saber se o governo A seria um pouco melhor do que o governo B. Isso tudo é muito discutível, depende muito da situação. O problema para nós é outro problema. Nós só apoiamos e impulsionamos uma política que favoreça a luta revolucionária. E apoiar o PT nesse momento não favorece a luta revolucionária, na nossa avaliação.”
Perguntado se uma votação maior do PCO alteraria a resolução da Conferência, Pimenta respondeu que não. Um eleitor pode escolher Lula por preferi-lo a Flávio Bolsonaro. Um partido operário, porém, deve orientar sua ação pelo desenvolvimento da luta dos trabalhadores, e não pela comparação entre duas administrações. O PCO já havia votado nulo em eleições anteriores nas quais o PT enfrentou candidatos da direita.
O voto não derrotou o golpe
Pimenta criticou a propaganda que apresenta o segundo turno como uma batalha final contra o fascismo. Para ele, apertar o número de um candidato na urna não organiza os trabalhadores nem impede a burguesia de recorrer a outros meios para impor sua política. Dilma Rousseff venceu a eleição de 2014 e foi derrubada dois anos depois. O PCO não havia apoiado sua candidatura, mas combateu o golpe quando a direita partiu para derrubá-la.
“Lutar contra o imperialismo não é ir na urna e apertar um número. Isso não é luta. Eleição não é luta. A luta é a greve, é a ocupação. Isso é luta. É a ação das massas trabalhadoras. Votar não é luta. Nós já demos um exemplo aqui: o pessoal votou na Dilma, e a Dilma caiu porque ninguém foi à rua. Se a eleição fosse a luta, a Dilma não caía.”
O mesmo critério valeria diante de uma nova ofensiva golpista contra o PT. Questionado diretamente, Pimenta disse que o PCO se colocaria contra uma operação da burguesia como a de 2016. Não ter votado no candidato atingido não impede o Partido de enfrentar os golpistas. Em 2014, afirmou, a tarefa era mobilizar os trabalhadores contra o golpe que se preparava; a vitória eleitoral de Dilma não substituiu essa mobilização.
Ao discutir o uso da história do nazismo na campanha atual, Pimenta lembrou que os fascistas organizaram milícias, dominaram ruas e receberam apoio de setores do Estado. Na Itália, citou os Arditi del Popolo, organização de trabalhadores que enfrentou os grupos armados de Mussolini. O dirigente criticou os partidos que deixaram de impulsionar essa resistência e afirmou que seria ainda mais perigoso, caso houvesse hoje uma ameaça fascista iminente no Brasil, apresentar Lula, Alckmin e Simone Tebet como seus combatentes.
A campanha contra o voto nulo
O programa recebeu relatos de pessoas chamadas de fascistas pela esquerda pequeno-burguesa depois de anunciarem que votariam nulo. Pimenta condenou a pressão. Comparou-a ao velho anticomunismo da direita brasileira: antes, exigia-se o voto em seus candidatos para impedir a suposta tomada do País pelos comunistas; agora, a recusa em votar no PT é tratada como apoio ao fascismo.
O presidente do PCO também respondeu à acusação de que sua organização favoreceria Flávio Bolsonaro. A posição do Partido, afirmou, não foi adotada para ajudar qualquer um dos candidatos. Tampouco pode ser determinada pelo uso que adversários façam de uma declaração sua: bolsonaristas podem divulgar uma crítica a Lula, assim como petistas podem aproveitar uma crítica ao bolsonarismo. Isso não obriga o PCO a esconder o que pensa.
Pimenta voltou-se ainda contra o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), que apoia Lula no segundo turno. Lembrou que o PSTU apoiou o golpe de 2016 e criticou sua atual apresentação da candidatura petista como instrumento de luta contra o fascismo. Na avaliação de Pimenta, essa política leva os trabalhadores a depositar sua confiança justamente numa frente comprometida com a burguesia.
Perguntado se a decisão do PCO resultaria de episódios particulares do governo Lula, citou a política brasileira para a Palestina e a prisão do militante Lucas Passos pela Polícia Federal. Disse que o Partido criticou esses acontecimentos, mas recusou reduzi-los à razão do voto nulo:
“Nós não estamos deixando de votar no Lula por causa de uma coisa ruim ou outra coisa ruim que o governo fez. Não é isso. Porque, se fosse isso, a gente não teria apoiado o Lula em 2018 ou 2022. Os governos do Lula já tinham feito muita coisa ruim, que nós tínhamos criticado e criticado muito. O problema é a caracterização política.”
O PCO não pretende, acrescentou, perseguir eleitores para impedi-los de votar em Lula. A discussão pública da resolução serve para explicar sua política aos trabalhadores e responder às cobranças feitas à militância. A eleição terminará; a necessidade de organizar uma alternativa operária permanecerá.
“Nós estamos marcando posição, sem dúvida. […] Nós estamos indicando que o caminho da luta não passa pelo apoio ao PT. Essa é a posição que nós estamos procurando marcar. Para nós, o que interessa é a orientação política.”
Ao fim do programa, Pimenta convidou os ouvintes para os cursos municipais da Escola Marxista. Apresentou as atividades como uma oportunidade para que pessoas aproximadas do PCO durante a campanha passem a participar do trabalho diário do Partido.





