Em 2014, Dilma Rousseff foi reeleita. Em 2016, a direita a derrubou. Entre uma data e outra, o Partido da Causa Operária (PCO), que defendera o voto nulo no segundo turno, esteve na linha de frente da campanha contra o golpe. A direção do PT, apesar dos milhões de votos recebidos, foi incapaz de organizar uma resistência que impedisse a deposição de seu governo. A diferença entre essas duas condutas ajuda a responder à cobrança de que toda a esquerda teria a obrigação de votar em Lula agora.
Os defensores dessa obrigação apresentam a disputa com Flávio Bolsonaro como a última oportunidade de deter a direita. Se Lula perder, viria uma catástrofe diante da qual nada poderia ser feito. A ameaça serve para exigir apoio ao candidato petista, independentemente de seu programa, de seus aliados e das medidas tomadas pelo governo contra os trabalhadores.
Esse raciocínio atribui à eleição um poder que ela não tem. Uma derrota eleitoral não elimina um adversário político, suas organizações ou os interesses sociais que representa. Da mesma maneira, perder uma eleição não impede os trabalhadores de lutar. A capacidade de resistir depende, antes de tudo, de sua organização e de sua participação na luta política cotidiana.
Dilma recebeu 54,5 milhões de votos no segundo turno de 2014, vencendo Aécio Neves com 51,64% dos votos válidos. A votação não deteve a campanha golpista. Os capitalistas conservaram o controle das instituições, que não é possível mudar de mãos com uma eleição presidencial. E eles já estavam decididos há muito tempo a derrubar o PT. A derrota eleitoral não os impediu de utilizar esses recursos contra o governo reeleito.
A aliança que deveria assegurar a sustentação parlamentar de Dilma também não a protegeu. Michel Temer, eleito vice-presidente na chapa petista, participou da articulação que a derrubou e assumiu a Presidência. O PMDB, tratado como aliado indispensável para governar, forneceu o substituto da presidente. A direita chegou ao governo sem precisar vencer uma nova eleição presidencial.
O apoio eleitoral a Dilma, portanto, não resolveu o problema que seus eleitores procuravam evitar. Era necessário enfrentar a burguesia que preparava o golpe. Isso exigia convocar os trabalhadores, mobilizar os sindicatos e abandonar a confiança nos acordos com os partidos capitalistas. A direção petista seguiu o caminho contrário: procurou preservar essas relações até quando seus aliados já trabalhavam para depô-la.
O PCO não apoiava o governo Dilma, mas combatia sua derrubada pela direita. Não existia contradição entre essas posições. O Partido se opunha à política de colaboração com os patrões e, pelo mesmo motivo, enfrentava uma operação da burguesia contra os direitos e as organizações dos trabalhadores. Sua atuação não dependia de cargos no governo nem de compromissos com a chapa petista.
Desde 2012, o PCO denunciava a preparação do golpe. Como sempre, os alertas provocaram críticas e zombarias em setores da esquerda pequeno-burguesa, incapazes de realizar uma análise marxista da situação política e econômica. A maioria de suas direções não acreditava que a burguesia partiria para uma ruptura. Essa confiança deixou os trabalhadores sem a preparação política necessária para enfrentar o ataque.
Em 2015, quando a direita convocou uma manifestação para 15 de março, o PCO propôs à direção da Central Única dos Trabalhadores (CUT) a realização de um ato contra o golpe. A proposta foi discutida numa reunião ampliada da direção da central, da qual o Partido participava como convidado. A CUT marcou a manifestação para o dia 13, levando às ruas uma resposta à mobilização direitista.
A CUT foi a organização que mais acompanhou o PCO nessa luta. Com sua base nos sindicatos, podia convocar categorias inteiras e levar a campanha aos locais de trabalho. Tratava-se de uma força muito superior à dos gabinetes parlamentares. Para empregá-la contra os golpistas, porém, era preciso vencer a resistência dos dirigentes que continuavam esperando uma solução negociada.
O Partido chamou a esquerda à unidade contra o golpe e dedicou sua militância à campanha. Organizou manifestações, imprimiu panfletos, cartazes, adesivos e jornais, promoveu debates e denunciou os preparativos da direita. A propaganda procurava explicar aos trabalhadores o que estava em jogo e convocá-los à ação, enfrentando a campanha diária da imprensa capitalista.
A paralisia do PT não significava que nenhum petista participasse dos protestos. Significava que sua direção não orientava uma luta consequente contra os responsáveis pelo golpe. Os trabalhadores dispostos a defender o governo eram mantidos à espera de decisões do Congresso, de negociações com aliados e de saídas institucionais. A burguesia avançava enquanto o partido ameaçado de deposição tentava chegar a um entendimento com ela.
Depois da derrubada de Dilma, o PCO prosseguiu com a campanha. Impulsionou os Comitês de Luta contra o Golpe, que reuniram militantes para realizar panfletagens, colagens de cartazes, reuniões e caravanas. A resistência ao governo Temer e à perseguição de Lula exigia essa organização permanente. Esperar a eleição seguinte deixaria os trabalhadores desmobilizados diante dos ataques em curso.
Nos dias 21 e 22 de julho de 2018, o Partido e os comitês realizaram, em São Paulo, a Conferência Nacional Aberta de Luta contra o Golpe. Àquela altura, mais de 150 comitês já existiam no País. Com Lula preso e sua candidatura ameaçada, a conferência foi convocada para discutir um plano de luta e reunir os que queriam enfrentar os golpistas.
Em dezembro de 2019, sob o governo Bolsonaro, a segunda conferência reuniu representantes de mais de 300 comitês. O trabalho continuava depois da fraude eleitoral de 2018, que permitiu a continuação do golpe. Os comitês e as conferências serviam para organizar a oposição nas ruas, em vez de reduzir a atividade dos militantes à preparação de outra campanha eleitoral.
O PCO organizou, praticamente sozinho, contando com o apoio ativo apenas dos Comitês de Luta contra o Golpe, quatro grandes manifestações em Curitiba, onde Lula estava preso pelos golpistas. O próprio Lula reconheceu a disposição de luta do PCO quando lembrou que os agentes da Polícia Filial que o vigiavam na cela ficaram preocupados com os chamados feitos pelos militantes do PCO para que as massas, em protesto, protegessem Lula da polícia do imperialismo.
Quem acusa o PCO de favorecer a direita por não votar no PT precisa responder a essa experiência. O Partido votou nulo em 2014 e combateu o golpe. A direção petista venceu a eleição e não conseguiu defender seu próprio governo. A disposição de enfrentar a burguesia se verifica na luta, e não na adesão a uma candidatura.
O PCO estará nas ruas contra um eventual governo de Flávio Bolsonaro, como esteve contra o golpe e contra o governo de seu pai. Já atua para organizar os trabalhadores e continuará combatendo os ataques aos salários, aos empregos e aos direitos democráticos. O voto nulo preserva sua independência para enfrentar toda a burguesia, inclusive os setores que participam do governo Lula.





