Alemanha

Como a esquerda agiu nas eleições que impulsionaram o nazismo?

Para ‘combater o fascismo’, social democracia ficou a reboque do homem que colocou Hitler no poder; stalinismo se recusou a travar a luta cotidiana

A decisão do Partido da Causa Operária (PCO) pelo voto nulo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro fez a esquerda pequeno-burguesa, sobretudo a petista, ressuscitar a fórmula “democracia contra fascismo”. Para chantagear pelo voto em Lula, militantes petistas procuram comparar a posição do PCO com a dos stalinistas alemães, que teriam facilitado a ascensão de Hitler por não apoiar o candidato da social democracia. 

O Partido Comunista da Alemanha (KPD) cometeu um erro desastroso. Seu erro, porém, foi recusar uma frente única de luta com os operários social-democratas contra as organizações nazistas, não o apoio eleitoral à frente ampla daquela época.

O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) sequer lançou candidato próprio à presidência em 1932. Apoiou o marechal Paul von Hindenburgo, representante da direita conservadora, pensando que isso impediria o crescimento e a tomada do poder pelos nazistas. O KPD lançou Ernst Thälmann. No segundo turno, em 10 de abril, Hindenburgo venceu com 53% dos votos; Hitler recebeu quase 37% e Thälmann, cerca de 10%. 

Em 30 de janeiro de 1933, Hindenburgo, o amigo do peito do SPD, nomeou Hitler chanceler, dando início à ditadura nazista.

O candidato apresentado aos trabalhadores como barreira ao nazismo venceu a eleição e pôs Hitler no governo nove meses depois. A vitória eleitoral do “mal menor” aconteceu, os petistas alemães acreditaram que o nazismo havia sido derrotado e, em seguida, o “mal menor” entregou o poder aos nazistas.

O apoio a Hindenburgo completava uma política anterior. O SPD sustentara parlamentarmente o governo de Heinrich Brüning, representante da burguesia liberal, que aplicava cortes e medidas de austeridade enquanto a crise lançava milhões no desemprego. Sua direção dizia aos trabalhadores que era preciso tolerar Brüning para evitar um governo pior. Assim, assumia perante sua base a responsabilidade por medidas que aprofundavam a miséria. Aos olhos dos operários que ainda seguiam o SPD, a direção social-democrata passava a defender os mesmos governantes responsáveis por seus sacrifícios.

Depois de reeleito, Hindenburgo dispensou Brüning em maio e nomeou Franz von Papen para comandar um governo conservador. Em julho, afastou por decreto o governo social-democrata da Prússia, o maior estado alemão. A direção do SPD e os sindicatos não organizaram uma resistência à altura. O presidente em quem haviam pedido aos trabalhadores que votassem golpeava uma das posições mais importantes da social-democracia.

Era a direita “democrática”, “civilizada” e “moderada” da época, exatamente como hoje PSDB, MDB, PSD, Simone Tebet, Geraldo Alckmin e toda a corja golpista de 2016 são apresentados pelo PT.

Em julho de 1932, os nazistas tornaram-se a maior força do Reichstag, com 37,3% dos votos, sem maioria absoluta. Hitler não precisava conquistar a presidência para governar. O presidente podia nomear o chanceler e governar por decretos de emergência. A direita conservadora conservava o comando do Estado e negociava com os nazistas enquanto o SPD apostava na proteção de Hindenburgo.

Do outro lado, o KPD seguia a política do chamado Terceiro Período, imposta pela Internacional Comunista de Stálin. Ela apresentava a social democracia como “social-fascismo”, uma espécie de ala esquerda do fascismo. Sob essa fórmula, a direção stalinista do KPD recusava acordos de luta para defender sindicatos, jornais, sedes partidárias e reuniões operárias. Milhões de trabalhadores organizados pelo SPD eram tratados como se a posição de seus dirigentes reformistas os tornasse inimigos idênticos aos nazistas.

Leon Trótski denunciou a política stalinista antes da vitória nazista. Em dezembro de 1931, mostrou que o KPD exigia derrotar primeiro a social democracia para só então derrotar o fascismo. O SPD, entretanto, ainda reunia uma parcela decisiva da classe operária. Esperar que seus militantes abandonassem o partido para depois enfrentar Hitler significava deixar os operários divididos enquanto as milícias nazistas atacavam.

Trótski escreveu: “A maioria dos trabalhadores social-democratas lutará contra os fascistas somente junto com suas organizações”. Por isso, os comunistas deveriam propor publicamente às direções do SPD e dos sindicatos a defesa conjunta dos trabalhadores. Não se tratava de aprovar o programa reformista. A disposição de seus chefes para enfrentar os nazistas seria verificada pelos próprios operários na ação.

Em Por uma frente única operária contra o fascismo, Trótski separou com precisão as duas questões. Compromissos eleitorais com o SPD, observou, em regra beneficiavam a política reformista e capituladora do SPD; mas os acordos práticos para a ação de massas fortaleciam a luta operária. Sua fórmula era: “Marchar separadamente, mas golpear juntos!” Cada partido conservaria seu programa, sua imprensa e o direito de criticar o outro. O acordo definiria como agir diante dos bandos fascistas.

Trótski enumerou medidas: proteger os jornais e as sedes operárias, coordenar comunistas e social-democratas nas fábricas, preparar a defesa de reuniões atacadas por nazistas. Queria transformar os conselhos de fábrica em centros de resistência. Essa era a frente única que o KPD deveria ter proposto.

Em O único caminho, de 1932, definiu a tarefa da frente única: “separar os que querem lutar dos que não querem; impulsionar os vacilantes; desacreditar os dirigentes capituladores aos olhos dos trabalhadores”. Se o SPD aceitasse combater os nazistas, os operários ganhariam força. Se recusasse, sua própria base veria quem impedia a resistência.

Fica muito claro que Tróstski rejeitava o apoio eleitoral como método de luta dentro da frente única. As eleições não representavam luta alguma. O que realmente combateria e derrotaria o nazismo era a unidade nas ruas, nos sindicatos e nos movimentos populares.

O KPD fez o contrário. Em 1931, participou de um plebiscito para derrubar o governo social-democrata da Prússia, campanha impulsionada também pelos nazistas. Trótski condenou a participação. Era correto não confiar no SPD; ajudar uma ofensiva que favorecia Hitler não defendia os trabalhadores.

Nas eleições parlamentares de julho de 1932, o KPD celebrou seus 5,3 milhões de votos enquanto o nazismo se tornava o maior partido. Trótski apontou o pequeno avanço comunista diante da rapidez da crise. A direção do KPD poderia ter mostrado aos operários social-democratas o fracasso da confiança em Hindenburgo e organizado a resistência com eles. Preferiu comemorar o resultado das urnas. Novamente aqui, as eleições não representavam nenhuma contenção do nazismo.

Após a nomeação de Hitler, Trótski acusou em A tragédia do proletariado alemão a direção stalinista de ter “identificado a social democracia com o fascismo e rejeitado a frente única com as organizações operárias de massas”. Responsabilizou também os reformistas do SPD que escolheram Hindenburgo. A política stalinista foi capituladora e contrarrevolucionária: sob o pretexto de combater o SPD, deixou os operários divididos diante da ofensiva nazista.

Os críticos do voto nulo no segundo turno das atuais eleições presidenciais no Brasil apagam justamente essa diferença. O PCO não reivindica a política de Stálin nem exige que os petistas deixem o PT antes de lutar contra a direita. A 39ª Conferência Nacional do Partido deliberou em 11 de outubro pelo voto nulo na disputa presidencial; sua posição resulta do balanço do governo de frente ampla de Lula e Geraldo Alckmin. Ao mesmo tempo, o Partido chama as organizações operárias e populares, inclusive as que apoiam Lula, a unir forças na luta contra os ataques aos trabalhadores e às liberdades democráticas.

O PT pede o voto para derrotar o fascismo depois de quatro anos de colaboração com a direita, política econômica favorável aos banqueiros e apoio cego à ditadura do Supremo Tribunal Federal. Lula encabeça a frente ampla e lhe dá uma fachada popular. Na prática, a direita tradicional e os capitalistas determinam o que o governo pode fazer. Exigir que os trabalhadores abandonem a crítica a essa política em nome da “democracia” é chamá-los a acompanhar os responsáveis por seu próprio afastamento do PT.

Na Alemanha, Hitler ampliou sua votação entre os dois turnos da eleição presidencial. A vitória de Hindenburgo não deteve esse crescimento, e foi ele quem nomeou o nazista chanceler. A confiança do SPD no candidato da burguesia desmoralizou sua direção perante os trabalhadores; a recusa do KPD em formar uma frente operária de luta para além das eleições deixou-os divididos. Nenhuma dessas políticas serve de exemplo para combater a direita hoje e ambas são rechaçadas pelo PCO, embora a maior parte da esquerda insista em repetir o erro do SPD e ninguém, exceto o PCO, lute efetivamente para formar uma frente única que organize os trabalhadores no dia a dia para enfrentar a direita.

Os que hoje atacam o PCO podem fazer campanha por Lula. O Partido chama o restante da esquerda a organizar, junto com ele, os sindicatos, os movimentos populares e suas militâncias contra os ataques aos salários, aos empregos e ao direito de manifestação. 

Será preciso enfrentar um governo da direita nas ruas, nas fábricas e nos locais de estudo. Esse acordo não exige uma chapa eleitoral nem silêncio sobre o governo petista. Cada organização conserva sua política; os trabalhadores reúnem suas forças para lutar.

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