Erika Hilton admitiu que poderá abandonar o PSOL em 2027. Reeleita com cerca de 1,6 milhão de votos, ela disse à Folha de S.Paulo, em entrevista publicada na segunda-feira (12), que já conversou com o PT. A declaração veio após a federação PSOL-Rede ficar fora da cláusula de barreira e perder o acesso ao Fundo Partidário e à propaganda partidária gratuita na próxima legislatura.
Hilton acusa a direção de rejeitar uma federação com o PT e distribuir mal o dinheiro eleitoral. Disse que o PSOL financiou candidaturas de “baixo potencial eleitoral” e deixou outras sem recursos. Sua própria campanha recebeu aproximadamente R$ 2,38 milhões, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Desse montante, R$ 2,24 milhões vieram do Fundo Eleitoral. Em junho, Hilton cobrou uma parcela maior da verba, com o apoio de Guilherme Boulos. A presidente do PSOL, Paula Coradi, respondeu que ela já receberia o maior investimento entre os candidatos proporcionais, mas que era preciso financiar campanhas pelo País. Hilton conseguiu o dinheiro, renovou o mandato e passou a culpar os gastos com os demais.
A federação PSOL-Rede obteve 4,9% dos votos válidos para deputado federal, acima dos 2,5% exigidos nacionalmente. Mas só atingiu o mínimo de 1,5% em oito unidades da Federação; a lei exige antidemocrática nove. Seus 15 deputados eleitos se distribuem por apenas seis unidades. A cláusula de barreira sufoca partidos menores. O PSOL privilegiou figuras de grande projeção e fracassou onde precisava organizar candidaturas em mais estados.
Em São Paulo, Hilton e Sâmia Bomfim ficaram com mais de dois terços dos votos do partido para a Câmara. Outros nomes não alcançaram o mínimo individual para conquistar cadeiras. No Espírito Santo, faltaram menos de 200 votos para cumprir o critério territorial. O PSOL garantiu primeiro a reeleição de suas estrelas. Na prática, Hilton cobra que a direção concentre ainda mais recursos nos nomes já consagrados.
Foi a burguesia quem promoveu Hilton e a transformou numa superstar da esquerda pequeno-burguesa. Hilton tem uma exposição que líderes populares jamais alcançam, embora ela nunca tenha participado de uma greve operária ou de uma luta estudantil, nem mesmo de qualquer movimento popular. Sua política é dominada pelo identitarismo: pede ao Estado burguês censura nas redes sociais e punições judiciais para opiniões consideradas inaceitáveis.
Uma emenda parlamentar de Hilton destinou R$ 300 mil à organização envolvida na criação da Plataforma do Respeito. O mecanismo monitora publicações nas redes e encaminha ao Ministério Público mensagens classificadas por ela como ofensivas a pessoas LGBT. A associação de mulheres MATRIA denunciou à Justiça o uso da plataforma para vigiar e intimidar adversários, sobretudo as mulheres. Hilton utiliza seu mandato para realizar perseguição política contra as mulheres e todos aqueles que não rezam o terço identitário.
Quando assumiu indevidamente a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, Hilton chamou opositores de “imbeCIS” e “esgoto da sociedade” numa publicação. Foi um ataque sobretudo às mulheres, por não aceitarem que homens entrem em banheiros femininos ou disputem competições esportivas no lugar de mulheres. A deputada preside uma comissão encarregada de defender os direitos das mulheres, mas responde com insultos às mulheres.
Impulsionada por George Soros, que financia a ANTRA, organização que promove Hilton, assim como financiou um documentário sobre a deputada, ela conseguiu uma boquinha no Estado burguês e nela quer se agarrar até o fim de sua vida, como todo carreirista. Isso não tem nada a ver com defesa dos oprimidos.
David Deccache, ex-assessor econômico do PSOL e eleitor de Hilton, afirmou que ela, quando liderava a bancada, não dava a mínima para discussões sobre a reforma tributária e o abono salarial. Sobre as mudanças que atingiram trabalhadores de baixa renda, declarou: “Ela não fez absolutamente nada para reverter isso”. A campanha contra a escala 6×1 foi apenas uma forma de garantir o eleitorado necessário para manter seu cargo como deputada.
Hilton e Boulos tornaram-se caciques de um partido cada vez mais dependente de mandatos, gabinetes e dinheiro eleitoral. Defenderam a federação com o PT para preservar espaço no regime político. Agora que o PSOL perdeu acesso ao Fundo Partidário, Hilton diz que “mudaria de partido se necessário fosse”. Não apresentou divergência de programa: reclama da aliança recusada e da divisão dos recursos.
O PSOL pode deixar de servir à carreira de Hilton; o mandato, não. Salário elevado, gabinete, privilégios e exposição continuam assegurados. Depois de receber milhões para se reeleger, ela procura a sigla que lhe ofereça melhores condições na próxima campanha. Isso é mamar no Estado.




