Polêmica

Professor arrogante não esconde que despreza o trabalhador

Professor chama milhões de eleitores de “burros”, “perversos” e até “irrecuperáveis”, mas trata como simples “erros” a estratégia derrotada nas urnas

Ilustração Vintage de Disciplina Escolar

Luis Felipe Miguel encontrou uma explicação bastante oportuna para o resultado de domingo: o problema são os brasileiros. No artigo Como explicar a vitória de Flávio Bolsonaro?, publicado nesta terça-feira (6) em A Terra é Redonda, o professor da UnB transforma uma derrota eleitoral em sermão moral contra dezenas de milhões de pessoas.

Miguel esbraveja. Fala em burrice, perversidade, decadência moral e chega a dizer que parte dos eleitores seria irrecuperável, cabendo discutir como “contê-la”. Um professor universitário olha para 56 milhões de votos e conclui que o defeito principal está na cabeça e no caráter de quem votou errado segundo sua régua.

Para o eleitor, há um vocabulário de condenação: burro, perverso, egoísta, ignorante, irrecuperável. Para a política seguida pela esquerda, aparecem apenas “erros”. O douto professor distribui reprovações para milhões, mas reserva para si e para seu campo a prova de recuperação.

Ele sentencia: “Sim, burrice: vamos chamar as coisas pelo nome”. Mais adiante, afirma que metade do eleitorado seria, “se não perverso, seduzível pela perversidade”. Por fim, fala em pessoas “irrecuperáveis” que seria necessário “conter”.

O autor não procura explicar por que milhões votaram como votaram; passa a julgá-los. O trabalhador deixa de ser alguém submetido a pressões econômicas, experiências políticas e frustrações concretas. Vira paciente de sua clínica ideológica imaginária.

Quem conferiu ao professor essa autoridade? Ninguém sabe.

O trabalhador que paga aluguel, enfrenta transporte lotado, compra comida cara e muitas vezes precisa completar a renda com outro serviço não vive dentro de um seminário de Ciência Política. Reduzir seu voto a “burrice” não passa de arrogância.

Miguel chega ao ponto de descrever o eleitor da direita como alguém dominado pela velha lei de Gerson. Se pudesse, diz ele, venderia um pedaço do País, cobraria rachadinha, receberia dinheiro de Daniel Vorcaro, frequentaria orgias e contrataria pistoleiros.

Quem mora de aluguel está levando vantagem e passa horas numa condução lotada está levando vantagem? Quem vive de salário e faz bico para fechar o mês é um aspirante a banqueiro ou pistoleiro? O retrato revela muito sobre uma intelectualidade que, no fundo, despreza o povo.

O artigo é contraditório pois o autor conhecia o problema político que agora rebaixa a segundo plano. Em 2020, ele próprio publicou Um defunto sem vela, texto contrário à “frente ampla” pela democracia, no qual criticava a ideia de colocar a esquerda a reboque da direita dita civilizada. Portanto, o problema lhe era conhecido.

Onde ficou essa advertência quando a frente ampla virou eixo da política nacional? Onde estava a crítica quando Geraldo Alckmin, antigo adversário do PT, tornou-se vice de Lula? Onde estava o professor quando setores da esquerda passaram a tratar o STF e Alexandre de Moraes como instrumentos privilegiados de combate à extrema direita?

Quem pretende agora posar de padre e distribuir pecados entre a população tinha obrigação, como cientista político, de perceber o perigo da política que estava sendo seguida. Não precisava de bola de cristal.

A esquerda brasileira conhece de primeira mão o efeito político da perseguição judicial. Quando Lula estava preso e condenado, milhões continuaram apoiando-o porque interpretavam a atuação de Sérgio Moro, da Lava Jato e de setores do Judiciário como perseguição política. Por que se imaginar que com o bolsonarismo seria diferente?

Prender Bolsonaro, torná-lo inelegível e transformar investigações, tribunais e decisões judiciais no centro da luta política não significava eliminar sua influência. Havia um risco evidente de que sua base interpretasse essas medidas como perseguição e se agrupasse ainda mais em torno do bolsonarismo.

O básico seria explicar por que essas pessoas votaram assim. E usar a palavra “burrice” impede justamente de se fazer a investigação que leva a uma conclusão inconveninte: talvez o povo não seja o burro dessa história.

Miguel afirma que esses eleitores seriam incapazes de relacionar suas escolhas às próprias condições de vida. Pois então olhemos para elas.

Os juros permaneceram em patamar altíssimo durante o governo Lula. No campo, o próprio João Pedro Stédile afirmou que o governo ficou aquém do necessário na reforma agrária e criticou a apresentação de resultados que não correspondiam a uma política efetiva de distribuição de terras, perdendo até para o golpista Michel Temer.

O raciocínio do professor é cômodo. Se um trabalhador vota na direita apesar de ter dificuldades materiais, não é preciso perguntar se o governo correspondeu às expectativas dele. Não é preciso discutir frente ampla, Alckmin, bancos, juros ou a confiança depositada no STF. Basta decretar que o sujeito não compreendeu seus verdadeiros interesses. E quem sabe quais são esses interesses? O sábio professor, que substitui a política pelo catecismo.

A arrogância chega ao cúmulo quando Miguel recorre a Jack, o Estripador e Adolf Hitler para sustentar que dificuldades sociais não retirariam a responsabilidade individual. Parte de uma eleição e chega a assassinos e ao nazismo para justificar a necessidade de responsabilizar moralmente o eleitor. É uma excrescência.

Quando os ‘geniais’ formuladores e defensores da política seguida pela esquerda assumirão seus próprios fracassos?

Quando será feita a conta da frente ampla? Quando será discutida a reabilitação de figuras e instituições que haviam participado das ofensivas contra o próprio PT? E quanto a transformação do STF em bastião da democracia? Quem vai examinar a opção de substituir a mobilização popular por processos, cassações e prisões como principal instrumento de enfrentamento da direita?

Miguel reconhece que “nosso campo tem fracassado”. Mas em vez de se reconhecer como um fracassado, rapidamente desloca o problema para uma suposta derrota na disputa dos valores da sociedade. O fracasso deixa de ter decisões, alianças, responsáveis e estratégia e se dissolve-se numa deficiência moral do povo.

É uma operação muito útil. Pois se o povo é ignorante, o intelectual permanece sábio. Se o povo é perverso, o intelectual permanece virtuoso. Se o povo vota errado, a política do intelectual nunca precisa ser examinada até o fim. E ainda sobra espaço para decidir quais eleitores podem ser recuperados e quais precisam ser contidos.

No final, Miguel chega a perguntar se “a humanidade merece ter futuro”. Depois de declarar milhões de brasileiros burros, perversos e em parte irrecuperáveis, o professor amplia seu tribunal: já não basta julgar o eleitorado, é preciso examinar o merecimento da humanidade.

Talvez seja poder demais até para um professor titular.

Uma pergunta bem mais modesta serviria melhor: se a política seguida pela esquerda terminou com 56 milhões de votos em Flávio Bolsonaro, por que o primeiro impulso é insultar os 56 milhões, em vez de submeter essa política a um exame impiedoso?

O povo não é uma turma diante da carteira de Luis Felipe Miguel. Eleição não é prova universitária na qual o professor possui previamente o gabarito. Quando tanta gente responde diferente do esperado, reprovar os alunos é uma maneira muito conveniente de evitar a pergunta que o professor não quer responder: e se o problema estiver na aula?

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