No último domingo, 4 de outubro de 2026, o palco eleitoral foi aceso no Brasil. A população teve a chance de votar nos candidatos à Presidência da República e também ao Senado e à Câmara dos Deputados.
O diferencial desse pleito foi o número de abstenções, que girou em torno de 33 milhões. Os dados oficiais dimensionam a realidade desse fato: 33.469.244 eleitores não compareceram às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto a votar, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em números absolutos, esse contingente supera o registrado no primeiro turno de 2022, quando 32.770.982 eleitores deixaram de comparecer às urnas.
Mas o que estaria por trás desse crescimento?
Esse crescimento representa uma consciência maior, por parte de pessoas que deliberadamente decidiram não participar porque não encontraram nas opções eleitorais aquilo que buscavam? Ou revela justamente o contrário: um cansaço tão profundo com a política que acaba produzindo afastamento, desinteresse e até alienação?
Há ainda uma questão que merece ser colocada: estaríamos diante de uma população que, ao longo dos anos, vem se tornando mais escolarizada e, portanto, potencialmente mais capaz de analisar criticamente a realidade que a cerca?
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o nível de escolarização da população brasileira vem aumentando. Entre as pessoas de 25 anos ou mais, a proporção que havia concluído ao menos a educação básica obrigatória passou de 46,2% em 2016 para 56,0% em 2024.
Em 2024, 20,4% das pessoas de 25 anos ou mais tinham concluído o ensino superior. Esses números indicam uma população que, em termos educacionais, apresenta níveis de escolarização superiores aos de períodos anteriores. Mas escolarização não é sinônimo automático de consciência política, sabedoria ou participação.
É justamente aí que a questão se torna mais complexa.
Se somos uma população progressivamente mais escolarizada, como explicar que, justamente agora, mais de 33 milhões de eleitores tenham deixado de comparecer às urnas?
Estaríamos diante de uma população mais esclarecida, capaz de fazer escolhas conscientes — inclusive a escolha de não comparecer? Ou estaríamos diante de uma sociedade submetida a um cansaço tão profundo que a própria escolarização não consegue impedir o afastamento da vida política?
Talvez essas pessoas, ou parte delas, não imaginassem que o resultado das urnas no primeiro turno — agora definitivamente confirmado como tal, uma vez que teremos um segundo turno — produziria uma mudança tão expressiva no cenário político-partidário apresentado.
Afinal, o resultado mostrou uma disputa particularmente acirrada entre os dois candidatos que avançaram à segunda etapa: Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 45,16%, uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual.
O que significa essa diferença diante de um universo de mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas?
É importante, entretanto, fazer uma ressalva: não é possível afirmar em quem os eleitores que se abstiveram teriam votado caso tivessem comparecido às urnas. A abstenção informa que não houve comparecimento ao local de votação naquele turno; ela não revela qual seria a escolha eleitoral dessas pessoas.
Mas há uma possibilidade que não pode ser ignorada: essas pessoas podem mudar de decisão no segundo turno e comparecer às urnas, caso alguma razão as movimente ou as mobilize. O que não sabemos é em que direção cada uma delas faria sua escolha.
E é justamente aí que os 33 milhões de ausentes no primeiro turno deixam de ser apenas um número estatístico e passam a constituir uma questão para reflexão: o que poderá acontecer se uma parcela desse enorme contingente, por alguma razão, decidir participar do segundo turno?
O direito de se abster é assegurado aos cidadãos. E esse direito pode apresentar prós e contras, a depender do tipo de regime instituído no país e das demandas sociais existentes nessa nação.
A abstenção, portanto, não precisa ser compreendida de uma única maneira. Pode expressar desinteresse, cansaço, descrença, impossibilidade de comparecer às urnas ou, para alguns, uma decisão consciente de não escolher entre as alternativas apresentadas. O significado político desse gesto depende também do contexto em que ele ocorre.
O timoneiro de um barco, que o conduz entre tempestades e remansos, precisa estar preparado para cada mudança. E, quando esse timoneiro não corresponde às expectativas dos navegantes, pode haver um motim ou uma grande união.
As embarcações possuem cartas náuticas e seguem um conjunto de regras que fundamentam sua segurança e, portanto, sua própria existência durante as viagens. O Brasil está navegando em mares moderados e não pode entrar em um mar tenebroso. Há a possibilidade de parte da tripulação estar dormindo, desavisada de que ondas gigantescas podem assolar o barco. É necessário que todos se unam para evitar o caos, usando a razão e a sensibilidade.





