Há alguns dias, ouvi uma versão surpreendente de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Não era a gravação histórica, mas a interpretação de Tom Jobim incluída em Stone Flower, disco gravado nos Estados Unidos em 1970. Ali, uma expressão tantas vezes ouvida me soou estranha: “meu mulato inzoneiro”, com que Ary Barroso descreveu o Brasil em 1939. Hoje, porém, a palavra que ocupa o centro de uma das mais conhecidas representações musicais do país aparece entre aquelas que um glossário da Polícia Federal indica que não devem ser usadas. O mesmo documento recomenda evitar também “moreno” e aponta “negro” e “preto” como os termos corretos.
Ouvir a voz de Tom Jobim entoando “meu mulato inzoneiro” me levou a querer analisar a famosa canção de modo, espero, o mais materialista possível. Escolhi três momentos históricos: 1939, quando a canção foi composta, em meio à ditadura do Estado Novo; 1970, durante a ditadura militar; e 2026, nosso momento, marcado pela total decadência da chamada democracia liberal e pelo surgimento de novos autoritarismos e de novas censuras.
1939: a mestiçagem como brasilidade
Aquarela do Brasil é um exemplo do que ficou conhecido como samba-exaltação e uma das canções pelas quais o Brasil passou a ser reconhecido internacionalmente. Ary Barroso construiu uma espécie de monumento musical à nacionalidade e colocou a mestiçagem no centro dessa representação.
Durante décadas, parte importante das elites e da intelectualidade brasileiras havia enxergado a mestiçagem como um problema. As teorias raciais do século XIX e do início do XX associavam o futuro das nações à sua composição racial, e o Brasil carregava, para quem acreditava nelas, a marca de uma suposta degeneração, representada pela mistura entre indígenas, europeus e africanos, base da formação do país.
Essa percepção, no entanto, foi se transformando. O que antes era visto como sinal de atraso passou a ser incorporado à própria representação da nacionalidade. O Modernismo teve papel nessa mudança: Mário de Andrade e Oswald de Andrade voltaram-se para a cultura popular e para a mistura como matéria da arte brasileira, sem esconder suas contradições. Nos anos 1930, Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, contribuiu para inverter o sinal antes atribuído à mestiçagem, deslocando-a para o centro da formação histórica e cultural do país. Ary Barroso entra nesse contexto.
A dimensão dessa mudança fica mais nítida quando comparada ao que acontecia em outros países no mesmo momento. Em 1935, apenas quatro anos antes de Aquarela do Brasil, a Alemanha nazista promulgou as Leis de Nuremberg, convertendo a pureza racial em política de Estado. Casamentos entre judeus e pessoas classificadas como de “sangue alemão” foram proibidos e, posteriormente, as restrições à miscigenação se estenderam também à população negra.
A Alemanha não era a única a transformar preconceitos raciais em lei. Os Estados Unidos viviam sob um regime de segregação desde o final da Guerra Civil, que só seria extinto nos anos 1960. É possível perceber seu funcionamento no filme Seven Chances (1925), de Buster Keaton, cujo enredo gira em torno de um jovem que precisa se casar em poucas horas para receber uma herança. Em sua procura desesperada por uma noiva, ele se aproxima de uma mulher que vê de costas; quando ela se vira e ele percebe que é negra, recua imediatamente. Para o espectador contemporâneo, a cena pode parecer racista. Há, porém, um dado histórico indispensável para compreendê-la: naquele momento, a Califórnia, onde a ação acontece, tinha promulgado leis contra a miscigenação, proibindo casamentos entre brancos e negros. A reação do protagonista tem a ver, assim, menos com racismo do que com medo da polícia, o que faz da cena uma espécie de denúncia dessas leis.
Contra esse pano de fundo, não deixa de ser notável o contraponto brasileiro daqueles anos. A realização, no entanto, não está desprovida de contradições: a grandiosidade e o nacionalismo expressos em Aquarela do Brasil correspondiam à imagem de país que a ditadura do Estado Novo procurava construir. Essa imagem veio acompanhada, além disso, de conquistas concretas para os trabalhadores, hoje solapadas e destruídas: a Companhia Siderúrgica Nacional foi criada em 1941, a Vale do Rio Doce em 1942 e, mais importante, a Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, é de 1943.
O samba-exaltação de Ary Barroso ofereceu uma representação da sociedade brasileira na qual conflitos e desigualdades deram lugar a uma imagem de unidade nacional. Mesmo essa imagem conciliadora, contudo, não escapou à censura: o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) implicou com a expressão “terra de samba e pandeiro”, considerada pouco digna para representar o país, e Ary Barroso precisou defender sua letra. A contradição é reveladora: o Estado promovia a exaltação nacional, mas determinava os termos que podiam ser usados.
1970: deixa cantar de novo o trovador
Trinta anos depois, Aquarela do Brasil reaparece na interpretação de Tom Jobim, que buscou o estranhamento: a canção permanece reconhecível, mas parece ter perdido o centro. A grande sonoridade cede lugar a outra matéria musical. A melodia conhecida se mantém, acompanhada por percussão e timbres elétricos, mas já não é sustentada pela imponência orquestral que marcou tantas interpretações da obra. Jobim preserva a música ao mesmo tempo que desmonta sua monumentalidade.
No canto, ele não começa pelo famoso “meu Brasil brasileiro”, mas por outro ponto da letra: “Deixa cantar de novo o trovador”. Aqui está a denúncia da ditadura militar. Em 1970, dois anos depois do AI-5, quando músicos, escritores, jornalistas, cineastas e dramaturgos conviviam com censura, perseguição, prisão e exílio, começar Aquarela do Brasil pedindo que se deixasse novamente cantar o trovador produzia uma ressonância política ainda maior.
Mas Jobim não canta a letra como proclamação: sua voz rouca parece não se acomodar inteiramente à melodia, e os versos aparecem fragmentados e deslocados, às vezes atravessando o acompanhamento, naquele modo de cantar ao redor do tempo musical que a bossa nova havia desenvolvido. Há ainda o piano elétrico escolhido por ele, que cria uma artificialidade de hotel de Las Vegas dos anos 1970.
Esse desmonte ocorre no momento em que a ditadura militar produzia sua própria representação triunfante do país, apoiada nas imagens de crescimento econômico, grandes obras, progresso e unidade nacional. O regime precisava de um Brasil sem fissuras; Jobim, ao contrário, recupera a mais famosa canção e devolve uma música na qual as fissuras se tornaram audíveis.
2026: quando a mestiçagem se torna suspeita
Hoje, Aquarela do Brasil, o monumento à nação, sofre um novo ataque. Depois do percurso que fizemos, é a vez de o identitarismo tocar fogo na canção. Por identitarismo entendo aqui a política que toma a identidade, e em especial a raça, como eixo principal da luta e da explicação social, deslocando para segundo plano as relações materiais de classe. Não vivemos numa ditadura declarada (apesar da censura, da perseguição e da violência explícitas), nem num momento de conquistas dos trabalhadores (a CLT foi destruída), nem há projetos de desenvolvimento (só privatizações). O que sobrou, de todos os lados, é um moralismo dogmático, sem motivação além de estabelecer a si mesmo como regra, que funciona como apagamento da luta de classes e como contenção da emancipação da classe trabalhadora. Até a palavra “futuro” parece coisa do passado. Se bobear, logo também será censurada.
Para entender o que está em jogo nesse ataque, é preciso começar por aquilo que o identitarismo deixa de lado: a base material da escravidão e a relação entre raça e classe.
Escravidão, servidão e capitalismo
A escravidão no Brasil e em todo o continente americano foi um processo de expansão e desenvolvimento do capitalismo europeu: serviu às novas formas de produção de mercadorias, ao comércio internacional, às finanças e à formação do mercado mundial, em meio à decadência do feudalismo europeu. Eric Williams formulou essa tese em Capitalism and Slavery, relacionando escravidão colonial, acumulação primitiva e desenvolvimento do capitalismo britânico.
Essa interpretação, em vez de explicar a escravidão como um problema exclusivamente racial, nos obriga a perguntar que organização da produção precisava dessa força de trabalho coercitiva e violenta, algo que o discurso identitário ignora por completo. Igualmente esquecido, de modo obtuso, é o fato de que, ao longo do século XIX, essa e outras modalidades de trabalho compulsório, como a servidão, foram sendo substituídas, coincidindo com o momento em que o capitalismo industrial ampliou suas necessidades de circulação de mercadorias e de capitais. Foi a era em que a burguesia e o operariado dos países mais avançados se consolidaram por completo, forçando os países periféricos a seguir seu exemplo.
Um caso instrutivo é o da emancipação dos servos no Império Russo. Em 1861, o czar Alexandre II emancipou cerca de 23 milhões de servos, em sua maioria camponeses europeus brancos submetidos a uma estrutura de trabalho e dependência própria do feudalismo. A derrota russa na Guerra da Crimeia, além dos conflitos sociais que se expalhavam no país, havia exposto a distância econômica e tecnológica que separava o Império das potências industrializadas; por isso, a emancipação fez parte de um conjunto de reformas voltado à modernização, isto é, à entrada definitiva da Rússia no capitalismo, com o qual as formas de produção feudais eram incompatíveis.
Servidão e escravidão, evidentemente, não são juridicamente equivalentes. Nas economias coloniais modernas, o escravizado era submetido a uma relação de propriedade: podia ser comprado, vendido e transferido, e sua força de trabalho era apropriada coercitivamente pelo proprietário. Contudo, o servo também não era livre. Numa sociedade dividida em castas, ele estava preso à terra, que pertencia, por direito divino, a um nobre, a quem devia trabalho, rendas e obrigações por toda a vida. Note-se que a reforma de 1861 não aboliu totalmente a coerção, nem ofereceu aos antigos servos as condições econômicas necessárias para uma emancipação efetiva.
Vinte e sete anos depois dos russos, o Império Brasileiro aboliu definitivamente a escravidão. A Lei Áurea, de 1888, extinguiu oficialmente a instituição, movida pelas mesmas necessidades de “modernização” e de muita luta anterior. Da mesma forma, a liberdade escrita na lei não ofereceu aos escravizados as condições materiais necessárias para uma emancipação efetiva. Entrar no capitalismo como classe trabalhadora significou submeter-se às leis de mercado, especialmente às de oferta e demanda de força de trabalho, e às condições desumanas de exploração que leis como a CLT, fruto de lutas sociais, tentaram apaziguar.
Cabe ressaltar que, no capitalismo, a exploração anterior apenas mudou de forma. O trabalhador atual não pertence pessoalmente a um senhor ou proprietário e pode vender sua força de trabalho no mercado. Mas sua liberdade termina aí. Não se submeter às regras facilmente manipuláveis do mercado de trabalho é colocar-se na linha de frente da pobreza extrema. Para bilhões de seres humanos, nos últimos dois séculos, essa tem sido a única fonte de sobrevivência, muitas vezes em condições desumanas. Não enxergar isso em nome de outras bandeiras chega a ser escárnio.
Se milhões de camponeses europeus brancos e de escravizados africanos negros foram submetidos a formas extremas e violentas de exploração, como explicar essas situações apenas pela questão racial? Podemos reconhecer que a escravidão produziu uma poderosa estrutura de dominação racial, mas, nos dois casos, é preciso chegar à organização material e econômica da sociedade e a questões jurídicas importantes, como a legitimação da propriedade da terra e dos meios de produção.
É nesse sentido que classe e raça não são, numa interpretação materialista, categorias equivalentes. As questões raciais precisam estar subordinadas às relações materiais que as produzem; caso contrário, como acontece atualmente, podem servir para disfarçar as causas da desigualdade e da exploração. A emancipação dos servos e a abolição fazem parte de uma transformação histórica comum. Nos dois países, antigas ordens imperiais ruíram, embora em condições e por processos políticos diferentes. No Brasil, apenas um ano depois da Lei Áurea, a monarquia foi derrubada pelo movimento militar e substituída pela República.
Na Rússia, o intervalo foi muito maior. A emancipação de 1861 não significou o fim imediato do Império, mas integrou um longo processo de lutas e de transformação social que produziu novas contradições e culminou na revolução proletária de Outubro de 1917, um acontecimento único na história recente da humanidade.
Pode-se dizer, com bastante precisão, que foi o impacto da Revolução Russa que levou o Estado Novo a criar a CLT.
O identitarismo e a negação da história
No caso do Brasil, vale resgatar ainda uma particularidade do processo abolicionista. Aqui não foi construído um regime geral de segregação racial equivalente às leis de Jim Crow norte-americanas ou às Leis de Nuremberg. Isso não significa que o Estado brasileiro tenha sido racialmente neutro, nem que a população negra não tenha sofrido discriminação, repressão e desigualdades materiais. Significa que o país não estruturou, depois de 1888, uma ordem jurídica geral destinada a separar legalmente brancos e negros e a impedir sua mistura.
Nesse contexto, uma parcela importante da política identitária contemporânea desloca sua intervenção para o terreno simbólico, da representação e da linguagem, e acaba por excluir, de modo contraditório, qualquer emancipação material. Não por acaso, discursos de pureza racial e contrários à miscigenação voltam a ocupar o debate no país, desta vez vindos de parte dos movimentos negros, no geral ONGs que recebem financiamento estrangeiro, em especial da Fundação Ford, cujo papel na orientação do debate racial brasileiro é documentado por estudos sobre sua atuação no país, a exemplo da tese de Wanderson Chaves, na USP.
O glossário da Polícia Federal
O glossário a que me referi no início deste texto, o Glossário de Direitos Humanos publicado no site da Polícia Federal desde 2025, indica que “mulata/mulato” não devem ser usados, recomenda evitar “morena/moreno” e aponta “negro/negra” e “preto/preta” como os termos corretos. A própria PF apresenta o documento como instrumento destinado a orientar seus servidores sobre a linguagem considerada apropriada, especialmente em documentos oficiais, e a estabelecer novos padrões de linguagem.
Esse caráter institucional torna o fenômeno digno de nota. Uma determinada interpretação sobre a formação racial brasileira, desenvolvida inicialmente em debates intelectuais e políticos, alcança o vocabulário recomendado por um órgão de repressão do Estado. A questão deixa de ser apenas semântica e passa a dizer respeito aos limites morais impostos às palavras com que uma sociedade pode representar sua própria história.
No caso de Aquarela do Brasil, não se trata de uma ocorrência acidental. O Brasil de Ary Barroso é “mulato inzoneiro”, “morena sestrosa”, “lindo e trigueiro”; a mestiçagem não aparece como detalhe, mas organiza a própria concepção de país construída pela canção. Devemos condenar a canção? A pergunta, como mostra um episódio recente, já não é apenas retórica.
Em setembro de 2026, Mary Del Priore e Gian Melo lançaram, pela Editora Unesp, a coletânea História das mestiçagens no Brasil, que reúne pesquisadores dedicados a investigar diferentes formas de mestiçagem biológica e cultural na formação brasileira. Depois de ameaças dirigidas à historiadora, a editora reforçou a segurança da sessão de autógrafos, e a Academia Paulista de Letras manifestou posteriormente solidariedade aos organizadores e denunciou episódios de hostilidade, intimidação e tentativas de silenciamento.
É legítimo sustentar que determinados discursos sobre a mestiçagem serviram para ocultar desigualdades; é igualmente legítimo investigá-la como processo decisivo da formação social brasileira. O problema começa quando uma interpretação deixa de disputar intelectualmente com a outra e procura estabelecer de antemão quais perguntas, conceitos ou palavras podem ser admitidos.
Três momentos, uma mesma questão
Aquarela do Brasil percorreu três momentos distintos de uma mesma questão. Em 1939, a censura do Estado Novo determinou se o Brasil poderia ser chamado de “terra de samba e pandeiro”; em 1970, sob outra ditadura e outra experiência de censura, Jobim recuperou a canção para pedir liberdade de expressão; em 2026, sua letra enfrenta uma censura velada, que chega a ser adotada por órgãos estatais, como a Polícia Federal. O que esses momentos têm em comum não é a forma nem a intensidade da censura, mas uma operação moral e política pela qual alguma autoridade reivindica o direito de estabelecer limites ao representável e ao dizível.
Talvez o que esteja em disputa, quando ouvimos hoje o “mulato inzoneiro” de Ary Barroso, seja a possibilidade de reconhecer que o país também foi constituído pela mistura de povos, línguas, ritmos, religiões, comidas, modos de vida e formas de trabalho. Transformar a mestiçagem numa história sem conflitos sociais seria mistificação; apagá-la porque não cabe nas categorias do presente seria apenas outra maneira de recusar a história e de reduzir as lutas dos que vieram antes de nós.





