Renato Janine Ribeiro encontrou uma explicação bastante confortável para a crise política brasileira. Em artigo publicado no Brasil 247, o professor afirma que o grande problema do País seria o surgimento do “eleitor desencantado”, resultado de anos de denúncias, Lava Jato, escândalos e criminalização da atividade política.
“Penso que o grande problema da política brasileira é que estamos há tanto tempo vivendo um ambiente de denúncias ininterruptas que boa parte da população perdeu toda e qualquer esperança nela”, escreve.
A explicação é conveniente porque transfere o problema da política para a cabeça do eleitor.
O cidadão não estaria revoltado porque recebe pouco, porque paga juros absurdos, porque trabalha demais, porque o serviço público não corresponde às suas necessidades ou porque observa sucessivos governos prometendo mudanças e administrando essencialmente a mesma estrutura econômica. Estaria apenas “desencantado” porque ouviu falar demais em corrupção.
É trocar a causa pelo sintoma.
Janine chega a dizer que, quando todos os políticos passam a ser vistos como corruptos, “o voto é desprezado”. Há evidentemente um elemento verdadeiro: a Lava Jato desempenhou papel importante na desmoralização da política e apresentou qualquer negociação parlamentar como manifestação criminosa.
Mas daí a transformar o “denuncismo” na explicação central da descrença popular vai uma distância enorme.
As pessoas também estão olhando para o próprio bolso.
O salário mínimo de 2026 é de R$ 1.621. O DIEESE calculou que, em agosto, seriam necessários R$ 7.565,86 para que uma família de quatro pessoas cobrisse as necessidades previstas constitucionalmente. Em junho, essa estimativa ultrapassou R$ 8.100.
É preciso mesmo recorrer à Lava Jato para explicar por que um trabalhador nessa situação pode não acreditar no discurso de que a política institucional está transformando sua vida?
A própria economia apresenta sinais claros de desaceleração. O governo reduziu em setembro sua previsão de crescimento para 2026 de 2,3% para 2%. A equipe econômica atribui parte da perda de velocidade aos efeitos dos juros elevados sobre o consumo e o investimento. A Selic permanece em 13,75% ao ano depois da reunião de setembro do Banco Central.
Aí Janine oferece sua solução.
“Defender o voto em Lula não é só defender o voto num candidato progressista; é defender o voto em alguém que ainda propõe a política como via de solução para a sociedade brasileira.”
E eis que toda a sofisticada reflexão sobre o “desencanto” termina no velho sermão eleitoral.
O eleitor está decepcionado? Então é preciso explicar melhor Lula.
O eleitor não acredita? É preciso mostrar a ele que Lula é bom.
O eleitor está irritado? Falta compreender “a consistência dessa política”.
É uma posição profundamente conservadora diante da própria população. Em nenhum momento ocorre ao autor considerar seriamente a possibilidade de que o trabalhador tenha entendido perfeitamente a política do governo e esteja insatisfeito justamente com ela.
O problema não é uma deficiência de comunicação.
É uma questão política.
Lula chegou ao governo cercado por expectativas de ruptura com a política aplicada sob Bolsonaro. Quatro anos depois, o arcabouço fiscal continua subordinando o gasto público a metas e limites determinados em grande medida pelo objetivo de produzir resultados fiscais favoráveis ao mercado.
O Projeto de Orçamento de 2027 elaborado pelo governo prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões. A Instituição Fiscal Independente do Senado considera as projeções oficiais otimistas e estima que poderão ser necessários pelo menos R$ 35,7 bilhões em bloqueios de despesas para que a meta seja formalmente cumprida.
O próprio governo apresenta como demonstração de responsabilidade o fato de manter saúde e educação dentro dos pisos legais. A Saúde receberia R$ 272,2 bilhões, exatamente o piso previsto, enquanto a Educação teria R$ 141,2 bilhões, pouco acima do mínimo de R$ 138,8 bilhões.
Janine escreve:
“Some-se uma saúde pública que continue reduzindo a mortalidade infantil” e “uma educação básica que adquira qualidade”.
Tudo muito bonito.
A questão é: com que política econômica?
Esse é precisamente o assunto que seu artigo evita.
Não basta dizer que saúde e educação são importantes. Quase qualquer candidato presidencial dirá isso. O problema começa quando se decide quem receberá os recursos, quais despesas serão comprimidas, que papel terá a dívida pública e qual será a relação do governo com o sistema financeiro.
Janine fala em uma “política de valorização do PIB”, ciência, inovação e desenvolvimento. Mas o atual governo termina o mandato com juros básicos de 13,75%, previsão de crescimento reduzida e uma política fiscal organizada para garantir superávit.
E, em plena campanha, Lula intensificou encontros com banqueiros e grandes empresários.
No fim de agosto, recebeu no Palácio da Alvorada representantes do Bradesco, Itaú, BTG, J&F, Cosan e outros grandes grupos. Segundo relatos do encontro, responsabilidade fiscal e juros estiveram entre os principais assuntos. No dia 25 de setembro, outro jantar com empresários e banqueiros foi colocado na agenda da campanha.
Isso não significa que conversar com empresários seja, por si só, um crime ou uma demonstração de submissão. Significa, porém, que não se pode explicar a situação política fingindo que existe de um lado um candidato da “política” e de outro apenas forças antidemocráticas.
Há interesses econômicos concretos organizando a política.
E é isso que o eleitor percebe.
Janine escreve que Lula representa “a defesa da soberania”. Mas soberania não é uma palavra mágica. Um país não se torna soberano porque seu presidente faz bons discursos internacionais. A questão envolve bancos, dívida, indústria, energia, tecnologia, empresas públicas e capacidade de decidir sua própria política econômica.
O problema do governo Lula é que ele cada vez mais aparece como administrador de uma estrutura que deveria combater.
Foi esse precisamente o diagnóstico apresentado por Rui Costa Pimenta na Análise Política da Semana. Segundo o presidente do PCO, o fracasso petista decorre de ter procurado administrar a política neoliberal e conciliar com o grande capital, em vez de mobilizar a população contra ela.
A sequência de medidas tomadas às vésperas da eleição mostra a dimensão do problema.
O governo reajustou programas sociais, lançou uma nova etapa do Desenrola e adotou medidas de enorme repercussão justamente na reta final da campanha. Para o PCO, essas iniciativas mostram que o governo percebeu tarde demais que sua política não produziu o apoio popular esperado.
O ponto fundamental não é condenar o aumento de benefícios. Muito pelo contrário. É perguntar por que uma mudança significativa na orientação social precisou esperar a aproximação das urnas.
Janine responde à crise política pedindo mais confiança.
O que deveria pedir é outra política.
Não adianta pronunciar discursos sobre a importância do SUS enquanto o Estado continua submetido a um regime fiscal que permanentemente coloca despesas sociais sob pressão.
Não adianta fazer elogios à educação enquanto o salário mínimo continua equivalendo a pouco mais de um quinto daquilo que o DIEESE calcula como necessário para uma família.
Não adianta falar em desenvolvimento enquanto juros dessa magnitude encarecem investimentos e o próprio governo revisa para baixo sua previsão de crescimento.
E não adianta explicar ao eleitor, como quem ministra uma aula a um aluno desinformado, que Lula é na realidade muito bom e que ele apenas precisa compreender isso.
Essa política tende a fracassar cada vez mais justamente porque não enfrenta o problema que está diante de todos.
O eleitor que Janine chama de “desencantado” pode estar, em muitos casos, simplesmente revoltado.
Revoltado porque troca o governo e permanece endividado. Porque o salário aumenta pouco diante do custo da vida. Porque ouve falar em responsabilidade fiscal sempre que aparece uma reivindicação social. Porque bancos continuam no centro da economia independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.
O bolsonarismo procura explorar essa revolta pela direita. E a responsabilidade da esquerda não é repreender a população por estar descrente.
Muito menos transformar Lula numa espécie de sinônimo da própria política, como faz Janine.
Se a esquerda quer disputar os trabalhadores que a direita procura conquistar, precisa apresentar medidas que atinjam a base material da insatisfação: salário, emprego, dívida pública, privatizações, juros, organização sindical, indústria e soberania econômica.
O problema não é convencer o eleitor de que o neoliberalismo administrado por Lula é mais simpático.
É romper com o neoliberalismo.





