Há uma diferença elementar entre defender a liberdade de expressão e defender uma mentira porque ela serve aos seus interesses eleitorais. Eduardo Guimarães conseguiu apagar essa diferença em seu artigo Elite brasileira achou seu fascista ‘moderado’, publicado no Brasil 247 neste domingo (27).
O assunto é a história de que Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação é falsa. O mais curioso é que o próprio Guimarães sabe disso.
Ele explica que o projeto utilizado como origem do boato é o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado Victório Galli. Reconhece que a proposta foi rejeitada e arquivada em agosto de 2008. E chega a escrever:
“Vale dizer, em benefício da honestidade intelectual, que o arquivamento de 2008 não pode ser revertido. Qualquer iniciativa semelhante exigiria a apresentação de um projeto novo. Ponto.”
De fato. É exatamente isso que mostram os registros oficiais da Câmara: o projeto era de Victório Galli, foi apresentado em dezembro de 2007 e está arquivado desde 2008. Flávio Bolsonaro não é autor, coautor ou participante daquela proposição.
Normalmente, depois de admitir esses fatos, a discussão terminaria.
Mas Guimarães precisa desesperadamente evitar essa conclusão porque a mentira prejudica o candidato contra quem ele escreve. Então vem a pirueta:
“Contudo, a ligação política existe porque Galli integrou o governo de Jair Bolsonaro como assessor especial da Presidência em 2019 e, nas eleições de 2026, apoia a candidatura presidencial de Flávio.”
Isso não prova absolutamente nada sobre a acusação que estava sendo feita.
Um aliado de Flávio Bolsonaro apresentou, 19 anos atrás, um projeto que foi arquivado 18 anos atrás. Daí não se pode concluir que Flávio pretende reapresentá-lo em 2027. Se esse método valesse, seria possível atribuir a qualquer candidato todos os projetos já apresentados por qualquer pessoa que hoje o apoie.
O próprio Galli declarou agora que Flávio não tem relação com o projeto. A ligação política entre os dois existe atualmente, mas isso é algo muito diferente de provar que o candidato pretende retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
Como o vínculo não basta, Guimarães tenta construir outro.
Flávio realmente fez uma declaração profundamente questionável durante a campanha. Disse que, se eleito, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A declaração existiu e pode ser criticada por afrontar a concepção de Estado laico.
Isso, porém, também não prova que ele queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
Guimarães transforma então uma possibilidade imaginada por ele numa espécie de salvo-conduto para o boato:
“É lícito inferir que coisas como aquele projeto possam voltar à baila.”
Não. É lícito dizer que Flávio fez aquela declaração sobre Jesus Cristo. É lícito criticá-la. É lícito dizer que Victório Galli é aliado de Flávio. É lícito recordar o projeto de Galli. É lícito até especular politicamente sobre o que um governo bolsonarista poderá fazer.
O que não é intelectualmente sério é substituir uma afirmação falsa por uma “inferência” depois que a afirmação foi desmentida.
A notícia falsa que circulou não dizia: “um aliado de Flávio apresentou um projeto parecido 19 anos atrás e, por isso, receio que algum dia alguém volte a apresentá-lo”.
Dizia que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Não pretendeu, não anunciou isso e não apresentou projeto algum.
A própria GloboNews corrigiu a informação após o episódio e reconheceu que o antigo projeto não tinha relação com Flávio.
O caso seria apenas mais uma mentira eleitoral se não revelasse uma hipocrisia política muito maior.
Durante anos, o PT e seus aliados transformaram as “fake news” numa das justificativas centrais para ampliar a intervenção do Estado sobre a discussão política.
Lula não deixou muita margem para dúvida. Em maio deste ano, declarou sobre quem espalha conscientemente uma falsidade: “O cara que conta uma mentira sabendo que é mentira tem que ser punido”. O presidente também defendeu novas restrições ao uso de inteligência artificial nas eleições e afirmou que o eleitor não poderia ser levado a “votar em uma mentira”.
Em 2025, dirigentes petistas já defendiam investigação e responsabilização de adversários por informações falsas. Durante o governo, a Polícia Federal chegou a ser acionada para investigar autores de supostas “fake news” relacionadas às enchentes do Rio Grande do Sul.
O PCO sempre se colocou contra essa política.
Não porque mentira seja boa. Não porque exista qualquer mérito em enganar a população. Mas porque dar ao STF, ao TSE, à Polícia Federal ou a qualquer outro aparelho estatal o poder de determinar a “verdade oficial” é colocar nas mãos do Estado um gigantesco instrumento de censura.
São problemas diferentes.
Defender liberdade de expressão significa defender que Eduardo Guimarães possa publicar seu artigo, que um bolsonarista possa publicar uma estupidez e que o Estado não deva criar uma polícia do pensamento para vigiar toda opinião pronunciada na Internet.
Defender a mentira é outra coisa.
Politicamente, uma organização de esquerda deveria combater uma mentira expondo-a como mentira. Não deveria pedir ao Estado que prenda o mentiroso, mas muito menos deveria pegar uma falsidade conveniente, admitir que ela não corresponde aos fatos e depois inventar uma justificativa para continuar utilizando-a.
Guimarães praticamente formula o seguinte princípio: se Flávio Bolsonaro mentiu contra Lula, então uma mentira contra Flávio Bolsonaro deixa de ser tão grave.
Ele escreve:
“Flávio Bolsonaro tem espalhado tantas fake news sobre Lula sem que haja escandalização midiática sequer parecida.”
E daí?
Se Flávio mentiu sobre Lula, a obrigação de quem denuncia a mentira é mostrar que Flávio mentiu. Uma mentira do adversário não transforma uma mentira própria em verdade.
Esse raciocínio é especialmente destrutivo para a esquerda.
A classe trabalhadora não possui os grandes bancos, os conglomerados de comunicação, o comando das Forças Armadas nem o aparelho do Estado. Sua força política depende, antes de tudo, de compreender a realidade e organizar-se a partir dela.
A verdade, nesse sentido, não é um adorno moral. É uma necessidade material.
Uma organização operária que começa a falsificar os fatos porque a mentira parece eleitoralmente conveniente perde justamente aquilo de que mais necessita para lutar: a capacidade de explicar à população o que está efetivamente acontecendo.
Guimarães chega ao ponto de atacar a imprensa porque jornais informaram que a acusação contra Flávio era falsa.
Na lógica apresentada no artigo, desmentir uma falsidade contra o candidato do PL seria “normalizá-lo”.
É uma inversão completa.
A imprensa pode e deve ser criticada por suas relações com o grande capital, pelo apoio a golpes e por sua manipulação cotidiana. Mas dizer que um projeto não é de Flávio Bolsonaro quando ele efetivamente não é de Flávio Bolsonaro não constitui “normalização”. Chama-se informar corretamente.
A coisa fica ainda mais grotesca quando se observa a reação judicial.
André Mendonça determinou inicialmente a remoção em massa de publicações que ligavam Flávio ao caso, chegando a ordenar a retirada de mais de mil endereços.
Essa decisão também deve ser criticada.
É perfeitamente possível sustentar simultaneamente duas coisas: a acusação contra Flávio é falsa e o TSE não deveria utilizar essa falsidade para estabelecer uma gigantesca operação de censura na Internet.
Flávio Dino posteriormente derrubou parte da decisão, argumentando que determinadas publicações não apresentavam grau suficiente de ilicitude para justificar consequências tão severas contra a liberdade de expressão.
É aí que aparece a diferença que Guimarães resolveu abandonar.
A mentira deve ser combatida politicamente. A censura deve ser combatida democraticamente.
O que não se pode fazer é defender a censura durante quatro anos porque ela atinge o bolsonarismo e, quando uma mentira favorável ao PT é descoberta, começar a procurar argumentos para explicar por que aquela mentira não seria exatamente uma mentira.
Esse é o ponto a que conduz o eleitoralismo da frente ampla: vale praticamente qualquer método desde que possa ser apresentado como necessário para derrotar Bolsonaro.
Hoje é a tentativa de justificar uma notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida. Ontem foi a defesa da censura do STF. Amanhã poderá ser qualquer outra medida apresentada como indispensável para impedir a volta da direita.
A esquerda não precisa inventar nada para combater Flávio Bolsonaro. Há posições políticas reais, declarações reais e um programa real para serem discutidos.
Quando alguém abandona esses fatos para agarrar uma mentira porque ela parece render votos, não está combatendo a direita. Está adotando exatamente o método que diz condenar.





