Polêmica

Comparar Lula a Pelé é um insulto ao povo brasileiro

A tão celebrada genialidade de Lula consiste, na realidade, na adaptação política do PT

Há comparações que revelam mais sobre quem as faz do que sobre os personagens comparados. O jornalista Shobhan Saxena publicou no Brasil 247, em 1º de novembro, um artigo intitulado Lula da Silva: o Pelé da política brasileira. Apoiado numa tese do acadêmico John D. French, transforma a reeleição de Lula em prova de genialidade comparável à do maior jogador da história. É difícil imaginar um elogio mais ofensivo à memória de Pelé.

Pelé não foi apenas um homem que se destacou em sua profissão. Foi um negro pobre, filho de trabalhadores, nascido num país oprimido, que se impôs ao mundo inteiro quando os negros ainda tinham de enfrentar barreiras brutais até para entrar em campo. Não recebeu dos ricos um lugar entre os grandes. Conquistou-o com um futebol inigualável. O menino de Três Corações se tornou Rei sem precisar que banqueiros, ministros de tribunais ou donos de emissoras o coroassem.

O futebol brasileiro nasceu de uma luta popular. Negros e trabalhadores romperam o monopólio de uma elite e transformaram o jogo importado da Europa em uma arte que os europeus nunca conseguiram reproduzir. Pelé foi a expressão máxima dessa vitória. Com ele, um país subordinado às potências imperialistas passou a ser reconhecido mundialmente como superior justamente na modalidade esportiva de maior alcance popular.

Em 1958, aos 17 anos, encantou o mundo na Suécia. Em 1962 e 1970, o Brasil confirmou uma supremacia que já não podia ser atribuída ao acaso. Com o Santos, Pelé percorreu continentes e mobilizou multidões de trabalhadores e jovens pobres. Na África, na América Latina e na Ásia, representava algo maior que o futebol: um dos nossos podia vencer os poderosos. O Brasil podia andar de cabeça erguida. Pelé simbolizava a vitória, não a arte de se adaptar.

O artigo do Brasil 247 rebaixa essa epopeia a uma banalidade. Segundo a comparação reproduzida por Saxena, Lula seria um Pelé porque sabe interpretar situações, antecipar adversários e encontrar saídas difíceis. Por esse critério, qualquer político que sobreviva às intrigas palacianas seria um Pelé. É uma falsificação. Pelé fez do Brasil uma potência do futebol. Que potência Lula fez do Brasil? A dos juros bancários? A do Supremo Tribunal Federal governando por decisões judiciais?

Ninguém precisa negar a origem operária de Lula nem sua participação nas grandes greves do ABC para perceber a fraude. O metalúrgico que enfrentou a ditadura nos anos 1970 não pode servir de salvo-conduto eterno para o dirigente que passou décadas se acomodando às instituições da burguesia.

O Lula de 2026 não foi carregado à Presidência por uma insurreição dos trabalhadores. Sua vitória foi obtida por meio de uma frente ampla com políticos da direita, representantes do grande capital e os aparelhos mais poderosos do regime. Artistas da Rede Globo e políticos da direita fizeram campanha pelo petista. Setores da burguesia viram no PT um administrador mais confiável para preservar seus acordos e seu controle sobre o Estado.

Os números não autorizam a fantasia de que o bolsonarismo foi esmagado por uma onda popular. Lula recebeu 51,79% dos votos válidos; Flávio, 48,21%. Quase 60 milhões de pessoas votaram no candidato derrotado. O PT transformou a eleição num plebiscito em defesa das instituições que usam a polícia e o Judiciário contra seus adversários. É disso que o articulista chama triunfo da “democracia”.

Basta observar o que aconteceu tão logo a eleição terminou. Sete minutos depois da confirmação do resultado, a Polícia Federal pediu medidas contra Flávio Bolsonaro. Alexandre de Moraes determinou o cancelamento de seus passaportes e o proibiu de sair do País, no âmbito de uma investigação que o senador contesta.

O episódio dos desenhos bíblicos da Record expõe outra face dessa política. Três dias após a eleição, o Ministério da Justiça elevou de livre para 12 anos a classificação do programa infantil Record Kids – Desenhos Bíblicos. O objetivo, claramente, é favorecer a Rede Globo.

A tão celebrada genialidade de Lula consiste, na realidade, na adaptação política do PT. Lula aceitou governar com a direita, conservar os mecanismos de exploração dos trabalhadores, tranquilizar os bancos e tratar o STF como guardião da “democracia”. A cada crise, em vez de recorrer à mobilização popular para enfrentar os capitalistas, prefere o acordo de cúpula.

Pelé venceu os maiores adversários do mundo diante de estádios lotados. Seu talento não foi avalizado por um tribunal, nem sua grandeza dependeu da proteção da imprensa. Até seus adversários tinham de reconhecer sua superioridade dentro de campo. Lula, pelo contrário, é celebrado agora justamente porque se tornou aceitável para os poderosos. Não é o exemplo de um homem que obrigou o mundo a respeitar os oprimidos; é o exemplo do burocrata que aprendeu a respeitar os limites impostos pelos dominadores.

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