Banco Master

As ligações de Gilmar Mendes com Daniel Vorcaro

Contrato com o então cunhado do ministro, audiência no STF e contatos em eventos expõem a aproximação do banqueiro com Gilmar

Meio milhão de reais líquidos por mês era a remuneração prevista para Chiquinho Feitosa, então cunhado de Gilmar Mendes, num contrato com a Super Empreendimentos, de Daniel Vorcaro. As mensagens publicadas pelo Estado de S. Paulo mostram que o ex-senador acompanhava interesses do banqueiro no Supremo Tribunal Federal (STF) e mantinha contatos com pessoas que atuavam nesses processos. Gilmar confirmou ter recebido Vorcaro e advogados do Banco Master em seu gabinete.

O acordo previa um adicional de R$800 mil líquidos na primeira parcela. Leonardo Palhares submeteu essas condições ao banqueiro em 12 de setembro de 2024 e obteve sua aprovação. A Super Empreendimentos, indicada como contratante, é apontada pela Polícia Filial como empresa usada para lavar dinheiro e ocultar patrimônio de Vorcaro.

Em 2 de outubro, Fabiano Zettel incluiu numa lista de pagamentos enviada ao banqueiro: “500k – F&A Super valor mensal (Chiquinho)”. A referência é à F&A, consultoria de Feitosa sediada em Fortaleza. O ex-senador já cobrava valores pendentes e discutia a emissão de notas com Vorcaro. Ao ser procurado pelo jornal, negou trabalhar para o banco, mas reconheceu ter prestado consultoria à Super por “um curto período”.

Chiquinho é irmão de Guiomar Feitosa, de quem Gilmar se divorciou em novembro de 2025. Portanto, embora hoje seja apresentado como ex-cunhado, o vínculo familiar existia durante as negociações de 2024.

Na tarde de 11 de abril daquele ano, Feitosa enviou a Vorcaro o contato da secretária de Gilmar e informações sobre uma audiência às 18 horas. O ministro confirmou a reunião nesse dia e horário. O roteiro discutido nas mensagens previa que o banqueiro entrasse sozinho e, meia hora depois, se juntassem a ele André Krutchevsky, diretor jurídico do Master, e Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União. Gilmar não confirmou essa divisão, apenas a presença de advogados do banco.

Segundo o ministro, a audiência tratou de créditos da Destilaria Alcídia contra a União. Fundos do Master haviam adquirido precatórios de usinas e tinham interesse nos julgamentos sobre o pagamento dessas dívidas. Uma semana depois do encontro, Chiquinho relatou a Vorcaro: “a conversa do Bianco ficou perfeita c o Gilmar”. O banqueiro respondeu: “Que otimo”.

Feitosa também acompanhava a disputa pelos créditos da Usina Tabu e as regras para abertura de cursos de medicina, assunto relatado por Gilmar no STF. O Master tinha interesse no setor de ensino por meio do fundo Calêndula, ligado à mantenedora da Universidade Luterana do Brasil. O assessor pago pelo banqueiro discutia, assim, negócios que dependiam de decisões do tribunal.

Gilmar negou conhecer as tratativas entre Chiquinho e Vorcaro e afirmou que o então cunhado não intermediou a audiência. Bianco declarou que representava clientes de seu escritório, atuava de maneira independente e agendava seus próprios compromissos. A reportagem também registra votos de Gilmar contrários ao Master. No processo da Destilaria Alcídia, julgado em junho de 2025, ele ficou vencido ao lado de André Mendonça.

Esses votos impedem que se apresente o material como prova de compra de decisões. Mas a contratação do cunhado, as mensagens sobre processos e a audiência admitida pelo ministro exigem uma explicação que não se esgota na afirmação de que o encontro ocorreu em “ambiente institucional”. Era justamente a autoridade de Gilmar dentro dessa instituição que interessava ao banqueiro.

Vorcaro podia contratar assessores com relações familiares no Supremo, pagar grandes escritórios e discutir seus investimentos com quem julgaria as causas. Trabalhadores, sindicalistas, sem terra e militantes de movimentos sociais dispõem dos mesmos meios para defender seus interesses? Podem manter um parente de ministro a seu serviço por meio milhão de reais mensais? A desigualdade não está apenas no dinheiro gasto com advogados, mas nas relações que esse dinheiro permite comprar.

Gilmar também possui interesses empresariais próprios. Um levantamento da Folha de S.Paulo, reproduzido por este Diário em Supremo Trambique Familiar: ministros usam seus cargos para enriquecer parentes, identificou sua participação direta ou indireta em seis empresas. A Roxel Participações, com capital social de R$9,8 milhões, integra sociedades ligadas ao IDP e a atividades agropecuárias.

O Instituto Brasiliense de Direito Público foi criado em 1998 por Gilmar, Paulo Gonet e Inocêncio Mártires Coelho. Em 2008, reportagem de Leandro Fortes na CartaCapital apontava cerca de R$1,6 milhão faturado em convênios com a União. A instituição vendia serviços a órgãos públicos enquanto um de seus proprietários ocupava um dos cargos mais poderosos do Estado. Gonet, por exemplo, hoje é Procurador-Geral da República e protegido por Gilmar Mendes no caso das investigações relacionadas a Vorcaro.

O financiamento privado também foi expressivo. Em junho de 2017, a Folha de S.Paulo informou que o IDP havia recebido R$2,1 milhões do grupo J&F, controlador da JBS, em aproximadamente dois anos. A instituição disse que o dinheiro sustentou eventos, bolsas, cursos e um grupo de estudos.

Depois da divulgação da delação dos executivos da J&F, o IDP anunciou a devolução de R$650 mil e o rompimento do contrato. Gilmar respondeu que não era administrador da instituição. Isso não altera sua condição de sócio, interessado nos resultados de um negócio que recebe recursos de empresas e órgãos públicos. Seu filho, Francisco Schertel, também participa do IDP e exerce a advocacia.

É por meio dessa instituição, hoje denominada Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, que se organiza o Fórum Jurídico de Lisboa, o “Gilmarpalooza”. Gilmar reúne ali colegas do Judiciário, dirigentes políticos, advogados e empresários. Em 2025, representantes de 64 empresas e entidades privadas participaram do encontro. Entre os setores presentes estavam bancos, seguradoras, mineradoras, planos de saúde e empresas de tecnologia.

Os debates eram acompanhados por jantares reservados e reuniões fora da programação oficial. Empresas com causas no Supremo podiam encontrar seus julgadores também nessas ocasiões. O ministro não se limita a aceitar convites de terceiros: participa da organização de um evento que oferece aos capitalistas contato com a cúpula do Estado.

Parte da conta fica com a população. As passagens de integrantes dos três Poderes para a edição de 2023 custaram ao menos R$1 milhão. Em 2024, o Congresso desembolsou pelo menos 600 mil reais para levar 30 parlamentares a Lisboa.

O “Gilmarpalooza” é um grande encontro de lóbi empresarial. Decisões tributárias, trabalhistas e financeiras podem custar bilhões aos grupos que frequentam o fórum. Para eles, patrocinar eventos e cultivar a proximidade de ministros tem uma utilidade que vai muito além de acompanhar palestras. Gilmar ajuda a organizar essa aproximação por meio de uma instituição da qual é sócio e que recebe patrocínios privados. Essa promiscuidade favorece a compra de influência e a corrupção dentro do aparelho de Estado.

O interesse do Master nos eventos aparece nas próprias conversas de Chiquinho. Em 21 de junho de 2024, o ex-senador discutiu com Vorcaro um convite para um coquetel paralelo a um seminário do IDP, com os nomes da Universidade Brasil, da Escola da Magistratura e do banco. Ao jornal, afirmou que sugeriu retirar a identificação do Master de maneira despretensiosa, em razão da natureza do encontro.

A mensagem enviada ao banqueiro dizia: “Para esse momento, recomendo suprimir o nome do banco. Ganhamos uma partida, mas ainda não ganhamos o campeonato. De modo que não é bom se expor!”.

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