O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, cancelou a sessão extraordinária de quinta-feira (17) e adiou, sem marcar nova data, o julgamento sobre a atuação de André Mendonça no caso em Alexandre de Moraes foi pego na cama com Daniel Vorcaro.
A decisão ocorreu depois de uma nova troca de tiros entre os personagens. A crise no tribunal já parece uma série de baixo orçamento: cada episódio traz um insulto novo, uma mensagem vazada e uma decisão para empurrar o problema para depois.
O julgamento sobre Mendonça estava marcado para a próxima quarta-feira (23). Fachin justificou o adiamento pela relação entre o processo e o pedido de vista feito por Flávio Dino no caso que trata da investigação de Moraes.
Parte 1: o “pixuleco eleitoral”
A briga começou depois que Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Filial com mensagens do procurador-geral da República, Paulo Gonet, encaminhadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Gilmar Mendes saiu em defesa de Gonet e acusou Mendonça de usar o processo para obter dividendos eleitorais. Chamou o colega de “boneco de campanha” e “pixuleco eleitoral”, em referência ao boneco inflável levado por apoiadores de Mendonça a um ato na Avenida Paulista.
Gilmar afirmou que o relator expôs Gonet, seu amigo de longa data, mesmo depois de reconhecer que não havia acusação contra o procurador-geral. Também criticou um vídeo publicado por Mendonça nas redes sociais, no qual o ministro agradecia o apoio recebido.
Mendonça respondeu que apenas levantou o sigilo de um procedimento específico, em decisão fundamentada. Lembrou ainda que a legislação impede magistrados de comentar processos pendentes ou fazer ataques depreciativos contra decisões judiciais.
“É no mínimo curioso que a crítica venha de quem sempre pleiteou publicidade irrestrita, da integralidade de toda a investigação”, escreveu Mendonça.
O ministro também afirmou que a preocupação de Gilmar com a exposição de terceiros aparece de maneira seletiva, depois da divulgação de mensagens que atingem bandidos com posições diferentes das suas. Mendonça defendeu a criação de um código de conduta para o cabaré e pediu “serenidade, respeito às instituições e apego às normas da República”.
A recomendação de decoro chega depois de uma sessão em que os ministros discutiram aos gritos. É como se tivessem descoberto a necessidade de regras de comportamento somente depois de começar a quebrá-las. Afinal, até um cabaré cheio de dançarinas de cancã tem seus limites.
Parte 2: briga no WhatsApp
As agressões já vinham ocorrendo antes do bate-boca no plenário. Mensagens obtidas pelo Estadão mostram Gilmar, o bandoleiro-mor, pressionando Luiz Fux e Kassio Nunes Marques antes da sessão de terça-feira (15).
Gilmar escreveu a Fux que ele deveria comunicar qualquer movimento e lembrou que era presidente da Segunda Turma, “não assessor do André”. Fux respondeu que ninguém diria a ele como agir. Em seguida, mandou Gilmar “não encher meu saco”.
Com Nunes Marques, o tom foi ainda mais agressivo. O pistoleiro Gilmar disse que o colega e Fux pareciam “servis” e “submissos”, pediu que não julgassem processos ligados ao Banco Master e escreveu: “Não julguem porra”.
Nunes Marques respondeu: “Me respeite Gilmar. Isso não é postura”. Gilmar também exigiu que ele deixasse a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Depois da discussão, Nunes Marques bloqueou o colega no celular.
As mensagens parecem um roteiro pronto para a comédia: um ministro acusa os outros de serem reféns, outro manda que parem de incomodá-lo e um terceiro resolve o conflito com a ferramenta mais democrática disponível no aplicativo — o bloqueio.
Parte 3: mais dinheiro na crise
Enquanto os ministros trocam desaforos, a Polícia Filial encontrou documentos de uma auditoria interna encomendada pelo Banco Regional de Brasília (BRB) para avaliar a operação com o Banco Master.
A auditoria registrou R$215 milhões em despesas com escritórios de advocacia em 2024, contra R$76 milhões no ano anterior. O documento aponta pagamentos de R$40 milhões ao escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, e de R$33 milhões ao escritório da advogada Dalide Corrêa.
Diretores do Banco Master mencionaram Dalide como um “canal direto com o STF”. A advogada negou ter atuado para o banco no Supremo e disse que trabalhou somente em processos de primeira e segunda instâncias.
Dalide foi diretora do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento, Ensino e Pesquisa (IDP), fundado por Gilmar Mendes. Os dois se afastaram depois de desentendimentos na gestão da instituição.
A reportagem informou que a Polícia Filial ainda não avaliou a legalidade do contrato. Até agora, o que chamou a atenção dos investigadores foi o valor dos pagamentos e o modo como a advogada era descrita nas conversas internas do banco.
O escritório de Viviane Barci de Moraes não comentou os novos dados.
Nenhum mocinho
O STF virou um faroeste de papelão. Gilmar acusa Mendonça de transformar o tribunal em palanque; Mendonça responde que o colega tenta constranger os ministros; Fux manda Gilmar não incomodá-lo; Nunes Marques bloqueia o macaco velho; Fachin cancela as sessões; e, no meio da confusão, aparecem pagamentos milionários feitos pelo Banco Master a escritórios ligados ao entorno da Corte.
Não há mocinhos nessa história. Os bandidos brigam para controlar o condado, enquanto os interesses dos bancos circulam por escritórios, mensagens privadas e relações de amizade.
O público assiste ao espetáculo sem saber quando haverá julgamento, mas já sabe quem paga a conta: a população, que tem seus direitos cada vez mais limitados pela ditadura de toga que precisa deixar de existir.
Os próximos episódios prometem ser tão ou mais divertidos. O bando dos quatro encabeçado brilhantemente por Moraes conseguirá sabotar a outra facção? Por que Gilmar protege tanto Gonet? Fux e Nunes Marques seguirão seu conselho e não julgarão nenhuma “porra”? Talvez seja difícil, pois isso é o que não falta em um cabaré tão imundo como o que os público está vendo nesse filme.




