Um perfil que se apresenta nas redes sociais como ligado à Unidade Popular (UP) publicou o protocolo de uma denúncia contra o professor Vitor Lara no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). O formulário identifica Lara como professor do IFRJ de São Gonçalo e o acusa de “transfobia” e de supostos crimes de ódio, entre eles “antissemitismo, racismo e homofobia”.
O perfil usa o nome “John Marston Irl”, o endereço @_bolchevictor, a sigla da UP e uma ligação para o jornal A Verdade, mantido por organizações vinculadas ao partido. Em outra publicação, escreveu: “a denúncia já foi aberta junto ao Ministério Público do RJ” e disse que um advogado abriria um inquérito.
Os documentos divulgados mostram apenas o registro de uma manifestação classificada como “denúncia”, com prazo de atendimento até 20 de outubro de 2026. Não comprovam, no entanto, que o MPRJ tenha aberto inquérito. O nome civil do denunciante e o número do protocolo foram ocultados.
Também não foram apresentadas as publicações de Lara apontadas como ilícitas. Nas capturas de tela disponíveis, não há ameaça contra judeus nem prova da prática de crime. Há uma acusação enviada a um órgão do Estado e divulgada nas redes como instrumento de pressão contra o professor.
Divergência política levada ao Ministério Público
Em transcrição enviada à reportagem, Vitor Lara afirma que a discussão começou com contas que, segundo ele, seriam perfis falsos usados pela UP. O professor diz que ironizou declarações de Samara Martins, dirigente do partido, e o emprego do pronome neutro. Foi acusado de transfobia. Depois disso, um dos envolvidos teria localizado seu Instagram, recolhido fotografias pessoais e de familiares e publicado o protocolo da denúncia.
“Mas aí pegou fotos minhas, da minha família, […] fotos ali do meu Insta […]. Aí o cara postou um print me acusando de homofobia, […] transfobia e antissemitismo”, relatou Lara.
As mensagens originais da discussão não foram fornecidas na íntegra. As capturas de tela mostram, porém, que o perfil ligado à UP procurou o Ministério Público e pediu que outras pessoas continuassem comentando para que ele reunisse mais capturas de tela.
Um partido que se apresenta como comunista deveria combater posições políticas por meio da discussão e da organização. Denunciar um professor ao Ministério Público por causa de uma polêmica nas redes é recorrer ao aparelho repressivo do Estado burguês para intimidar um adversário.
A acusação de “antissemitismo” é especialmente reveladora. No trecho divulgado da denúncia, não aparece nenhuma declaração contra judeus. Tampouco se explica por que as críticas de Lara ao Estado de “Israel” seriam uma forma de ódio religioso ou racial. A equiparação entre antissionismo e antissemitismo é usada pelos defensores de “Israel” para perseguir a militância em defesa da Palestina.
MPRJ perseguiu o PCO por sua campanha palestina
O MPRJ é um dos ministérios públicos mais lavajatistas do País e sofre forte pressão das organizações sionistas. Em março de 2024, o órgão encaminhou à polícia uma denúncia contra o Partido da Causa Operária por supostas ofensas a judeus. O caso nasceu de uma queixa de Flávio Valle, então subprefeito da Zona Sul do Rio, contra materiais do Partido em defesa da Palestina, conforme noticiou a direitista Revista Oeste.
Marcelo Bretas foi o principal rosto da Lava Jato no Rio. Juiz federal da 7ª Vara Federal Criminal, atuou nos processos da operação ao lado do Ministério Público Federal. Em 2025, recebeu do Conselho Nacional de Justiça a pena de aposentadoria compulsória por má conduta, segundo a OAB do Rio de Janeiro.
Bretas promoveu prisões espetaculares e comandou processos marcados pela colaboração entre juiz e procuradores. Embora MPRJ, Ministério Público Federal e Justiça Federal sejam instituições diferentes, seus integrantes atuaram juntos na transformação de processos judiciais em armas políticas. Foi a esse aparelho que o perfil supostamente revolucionário resolveu entregar um professor.
A Unidade Policial
Não é a primeira vez que a esquerda pequeno-burguesa chama a polícia contra militantes. No ato de 8 de março de 2024, na Avenida Paulista, as organizações responsáveis pelo carro de som, entre elas UP, PCB e PSTU, impediram as militantes do Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo de falar. Quando integrantes do PCO protestaram, os organizadores chamaram a Polícia Militar.
O relato publicado pelo Diário Causa Operária registrou que militantes foram empurradas. Enquanto a PM reprimia o protesto, uma organizadora no carro de som apoiava a ação policial e debochava do Partido. A UP mostrou ali por que passou a ser chamada de Unidade Policial.
Essa política também se manifesta no apoio à censura e às arbitrariedades dos ministros direitistas do Supremo Tribunal Federal, sempre justificadas como medidas contra o bolsonarismo.




