Os dirigentes da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte deram nesta segunda-feira (14) um passo importante contra o controle exercido pela Inglaterra sobre o futuro político dessas nações.
John Swinney, Rhun ap Iorwerth e Michelle O’Neill reuniram-se em Cardife e assinaram uma declaração conjunta em defesa do direito à autodeterminação. Mary Lou McDonald, dirigente do Sinn Féin, também participou do encontro.
“Nossas nações têm direito à autodeterminação. Nenhum governo de Westminster tem o direito de criar obstáculos à democracia”, afirma o documento.
A declaração atinge diretamente um dos fundamentos do Reino Unido: Londres pretende conservar para si a decisão sobre quando escoceses, galeses e irlandeses podem ou não votar sobre sua própria independência.
Na Escócia, o governo nacionalista pretende realizar um novo referendo nos próximos anos. O Sinn Féin defende uma consulta sobre a reunificação da Irlanda até 2030. Em Gales, o governo ainda não marcou uma votação, mas sustenta abertamente o direito de separação.
As três questões possuem histórias diferentes, mas têm um ponto comum: o domínio político exercido pela Inglaterra sobre outras nações das ilhas britânicas.
Gales foi conquistado pela Coroa inglesa ainda na Idade Média e incorporado posteriormente ao Estado inglês. A língua e a cultura galesas sobreviveram apesar de séculos de pressão política e cultural.
Na Irlanda, a dominação assumiu uma forma ainda mais violenta. A conquista inglesa foi acompanhada de confiscos de terras, colonização e repressão. No Ulster, a instalação de colonos protestantes vindos principalmente da Inglaterra e da Escócia criou uma base social importante para o unionismo.
A divisão religiosa no norte da Irlanda não pode ser separada dessa história. O domínio inglês utilizou diferenças religiosas e sociais para consolidar uma parcela da população ligada à manutenção da união com Londres.
A Escócia seguiu um caminho diferente na aparência, mas igual de fato. O país não foi simplesmente anexado por conquista nos moldes de Gales. Inglaterra e Escócia permaneceram Estados separados durante séculos e passaram a compartilhar a mesma monarquia em 1603. A União de 1707 extinguiu o Parlamento escocês independente e transferiu o centro das decisões para Westminster.
Esse acordo, no entanto, foi firmado sob forte pressão econômica e política inglesa e enfrentou grande oposição dentro da própria Escócia.
A existência do Reino Unido não apagou nenhuma dessas nacionalidades.
Em 2014, 45% dos escoceses votaram pela independência. Foi um referendo manipulado, com forte chantagem imperialista contra a independência. Desde então, Londres bloqueia a realização de outra consulta. Em Gales, o independentismo cresceu nas últimas décadas. Na Irlanda, a luta pela libertação nacional atravessou séculos e chegou à guerra aberta contra a ocupação britânica.
Entre 1919 e 1921, o Exército Republicano Irlandês combateu as forças britânicas na Guerra de Independência. O resultado foi a retirada inglesa de grande parte da ilha, mas também sua divisão. Vinte e seis condados seguiram o caminho da independência, enquanto seis permaneceram sob domínio britânico.
A partilha manteve aberta a questão nacional.
Durante décadas, o IRA voltou a travar luta armada contra a presença britânica na Irlanda do Norte e pela reunificação do país. O acordo da Sexta-Feira Santa, firmado em 1998, reconheceu inclusive a possibilidade de mudança da situação constitucional caso a maioria da população norte-irlandesa escolha integrar-se à República da Irlanda.
É esse direito que Londres procura adiar sempre que a possibilidade de uma nova consulta ganha força.
Para os marxistas, não há dúvida sobre a posição a tomar.
Lênin insistiu repetidamente que os trabalhadores das grandes potências deveriam defender o direito das nações oprimidas à separação. Autodeterminação não significava uma concessão abstrata ou simples autonomia administrativa, mas o direito efetivo de formar um Estado independente.
A Irlanda ocupou lugar especial nesse debate.
Marx já havia defendido a separação irlandesa da Grã-Bretanha e compreendido que o próprio proletariado inglês era politicamente corrompido pelo chauvinismo imperialista enquanto aceitasse a opressão de outra nação.
Lênin retomou essa posição e defendeu a Revolta da Páscoa de 1916 contra setores da esquerda europeia que desprezavam a insurreição irlandesa. Para os bolcheviques, uma pequena nação que se levantava contra uma potência imperialista participava objetivamente da luta contra o imperialismo.
A mesma política vale hoje para Escócia, Gales e Irlanda.
Os trabalhadores ingleses não têm nada a ganhar mantendo essas nações presas às correntes do imperialismo britânico. A preservação do Reino Unido interessa à burguesia britânica, à City de Londres, à monarquia e ao aparato político e militar formado durante séculos de expansão colonial.
A declaração assinada em Cardife possui, contudo, um limite importante. Seus dirigentes apresentam a União Europeia como destino natural das futuras nações independentes.
Essa perspectiva troca uma dependência por outra.
A atual UE não é uma associação livre e igualitária dos povos europeus. É uma organização capitalista dominada pelas principais potências do continente, sobretudo Alemanha e França, e fortemente ligada à política do imperialismo norte-americano.
Suas instituições atendem aos bancos, aos monopólios e aos grandes capitalistas. Uma Escócia independente ou um Gales independente submetidos às decisões econômicas de Bruxelas continuariam sujeitos à dominação dos grandes grupos financeiros europeus, assim como ocorre com a Hungria, Bulgária, Croácia, Chipre, Romênia e à própria Irlanda.
Lênin já havia tratado do problema ao discutir a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa. Uma união das potências europeias mantida sobre bases capitalistas não eliminaria o imperialismo. Serviria para organizar os interesses das grandes burguesias contra os trabalhadores e contra os povos mais fracos.
A libertação nacional dessas nações precisa, portanto, ir além da simples troca de Londres por Bruxelas.
A independência da Escócia e de Gales e a reunificação da Irlanda representariam golpes importantes contra os restos do Império Britânico. A verdadeira liberdade desses povos, porém, depende também da luta contra a burguesia e contra o sistema imperialista europeu.
Uma união voluntária dos povos da Europa só será possível quando os interesses dos trabalhadores estiverem acima dos bancos, dos monopólios e das grandes potências.
Abaixo o Império Britânico! Pela independência da Escócia e de Gales, pela reunificação da Irlanda e pelos Estados Unidos Socialistas da Europa!





