Polêmica

O mito do ‘Lula do bem’ e ‘Bolsonaro do mau’

Para a esquerda da frente ampla, petista dispensaria até programa: bastaria existir para salvar o País

Em artigo publicado pelo Brasil 247 em 11 de setembro, intitulado O Brasil não sobrevive a um segundo governo de extrema direita, Moisés Mendes usa o aparecimento da variante BA.3.2 da Covid-19 para perguntar como Flávio Bolsonaro reagiria diante de uma nova pandemia. O jornalista recorda declarações “negacionistas” do senador e conclui que o Brasil não sobreviveria a outro governo bolsonarista.

Logo no início, Mendes escreve:

“Se Lula vencer, a nova Covid não passa a fronteira. Se acontecer o contrário, a BA.3.2 virá testar o filho de Bolsonaro”.

Em seguida, esclarece:

“Parece, mas não é humor fora de hora”.

De fato, não é humor. É pior: é uma teoria política. Nela, um vírus aparentemente consulta o resultado eleitoral antes de decidir se cruza a fronteira brasileira. Com Lula no Palácio do Planalto, fica do lado de fora. Com Flávio Bolsonaro, entra no País e começa a matar.

A pandemia, assim, deixa de ser um problema de saúde pública, organização econômica e luta de classes e vira uma fábula eleitoral: Bolsonaro representa a morte; Lula, a vida. De um lado, o vilão. Do outro, o homem bom.

Bolsonaro teve uma atuação criminosa durante a pandemia. Transformá-lo, porém, no responsável exclusivo pela catástrofe serve para esconder a política dos governadores e prefeitos que a esquerda pequeno-burguesa apresentava como representantes da “ciência”.

Durante a pandemia, governadores anunciavam “lockdown” diante das câmeras, enquanto os operários continuavam entrando nas fábricas e trabalhadores se espremiam em ônibus, trens e metrôs. Flávio Dino, então governador do Maranhão pelo PSB, reabriu as indústrias antes que a doença estivesse controlada. Rui Costa, do PT, decretou toque de recolher na Bahia sem acabar com a superlotação dos transportes coletivos. O trabalhador podia ser multado se estivesse na rua em determinado horário, mas era perfeitamente aceitável que passasse uma hora colado a dezenas de pessoas dentro de um ônibus para chegar ao serviço.

Para permitir que milhões de trabalhadores realmente reduzissem a circulação, seria necessário garantir salário integral durante o afastamento, proibir demissões, assegurar renda para trabalhadores informais, colocar empresas sob controle dos trabalhadores quando os patrões tentassem fechar postos de trabalho e reorganizar a produção segundo as necessidades sociais.

Também era necessário mobilizar os recursos do Estado para produzir e distribuir testes gratuitamente em grande escala. Enquanto isso, no Brasil, o exame continuava caro no setor privado e insuficiente no sistema público.

Essas medidas tinham um pequeno inconveniente para toda a frente ampla: exigiam enfrentar capitalistas, bancos, grandes empresas e monopólios farmacêuticos. Não bastava apresentar um governador como “científico”, mandar o pequeno comerciante fechar as portas e manter intactos os interesses dos grandes grupos econômicos.

A questão nunca foi escolher entre a insanidade de Jair Bolsonaro e a política policial dos governadores. A saída exigia mobilizar os trabalhadores para impor medidas que permitissem proteger a saúde sem fazer com que a população pobre pagasse a conta.

Jair Bolsonaro não fez isso. Evidentemente. Mas tampouco fizeram os governadores e prefeitos transformados em heróis pela esquerda pequeno-burguesa. É exatamente esse balanço que desaparece do artigo de Mendes.

O autor pergunta sobre Flávio Bolsonaro: “o que faria diante de uma nova pandemia?”. Já no caso de Lula, a presença do presidente no Planalto já funcionaria como uma espécie de barreira à entrada do vírus.

Mas a pergunta séria é outra: o que o governo Lula faz hoje que permita acreditar que, diante de uma crise econômica, sanitária ou política de grandes proporções, enfrentaria os inimigos dos trabalhadores?

Quase quatro anos depois de voltar ao Planalto, Lula ainda fala em “sonhar” com a reestatização da Eletrobras, privatizada durante o governo de Jair Bolsonaro. Nos Correios, em vez de reconstruir a empresa pública destruída durante décadas de ataques privatistas, o plano de reestruturação inclui alienação de imóveis e um programa de demissão voluntária com potencial de atingir até 15 mil empregados entre 2026 e 2027.

A diferença entre direita e esquerda, nessas condições, corre o risco de ser transformada em uma questão moral. Jair Bolsonaro privatiza dizendo que privatizar é ótimo. O governo Lula preserva a privatização explicando que gostaria muito que as coisas fossem diferentes.

O Brasil continua com milhões de trabalhadores submetidos a baixos salários e empregos instáveis. O salário mínimo permanece muito abaixo do necessário para sustentar uma família. Milhões vivem sob ameaça de desemprego enquanto jornadas extensas consomem boa parte da vida dos trabalhadores.

O País continua submetido aos bancos. Uma parte gigantesca dos recursos públicos é drenada para o pagamento da dívida e para alimentar o sistema financeiro, enquanto faltam hospitais, escolas, moradias e infraestrutura.

Um governo dos trabalhadores deveria suspender o pagamento da dívida aos grandes especuladores, abrir suas contas e usar esses recursos para um grande plano nacional de obras públicas, construção de moradias, hospitais, escolas, ferrovias e saneamento. Isso permitiria criar milhões de empregos e atacar diretamente alguns dos problemas mais elementares da população.

Outro drama é a moradia. Milhões de brasileiros pagam aluguéis que consomem uma parcela enorme do salário enquanto existem imóveis vazios e terrenos mantidos apenas para especulação. É necessário desapropriar os grandes imóveis ociosos, investir maciçamente em habitação popular e reconhecer o direito das famílias que ocupam terrenos abandonados.

Essa é a diferença entre um programa de classe e a ladainha sobre “democracia contra fascismo”. A mitologia do “Bolsonaro mau, Lula bom” serve precisamente para evitar que essas reivindicações sejam colocadas sobre a mesa.

Se Jair e Flávio Bolsonaro concentram todo o mal existente, qualquer política realizada pelo governo Lula torna-se aceitável pela simples comparação. Privatização? Flávio Bolsonaro faria pior. Arrocho? Bolsonaro faria pior. Acordo com a direita? É necessário para impedir Bolsonaro. Concessões aos bancos? Não se pode desestabilizar o governo. Poderes excepcionais ao STF? São necessários para defender a “democracia”.

Com essa fórmula, pode-se justificar qualquer coisa. A cada eleição, a população é informada de que precisa votar na frente ampla para evitar o apocalipse. Passada a eleição, explica-se que o governo não pode realizar medidas profundas porque precisa negociar com a direita, acalmar o Congresso, tranquilizar os banqueiros e preservar as instituições.

Depois de quatro anos, chega outra eleição. E o eleitor é novamente avisado de que não é hora de cobrar nada porque o apocalipse está outra vez na urna. É uma máquina política feita para impedir que os trabalhadores tenham um programa próprio.

Por isso o medo ocupa lugar tão importante na política dessa esquerda. Cada vez mais afastada da organização da classe operária e absorvida pelas preocupações políticas e culturais das camadas médias, ela olha para Bolsonaro fundamentalmente como uma aberração moral. O problema de Bolsonaro, no entanto, não é possuir uma alma especialmente maligna. Ele representa uma política da burguesia.

E Lula não se transforma em representante dos interesses históricos dos trabalhadores por ser pessoalmente mais civilizado, mais simpático ou menos grotesco que Bolsonaro. A questão decisiva é outra: que interesses cada política enfrenta e que interesses preserva?

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