O Movimento Esquerda Socialista (MES), corrente do PSOL que reivindica o trotskismo, publicou um artigo que mostra a distância entre o nome adotado pelo grupo e a política que efetivamente pratica.
No editorial Em Sinal amarelo – retomar a iniciativa contra a manobra no STF, publicado no sítio Esquerda Online nesta quarta-feira (9), Israel Dutra transforma a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e na Polícia Federal (PF) numa disputa entre dois campos. De um lado estariam Donald Trump, Flávio Bolsonaro e André Mendonça. Do outro, Lula, a direção da PF e os setores do Supremo que se opõem a Mendonça.
A frase mais reveladora aparece já no subtítulo onde se lê que “o golpismo e Trump vão jogar pesado para evitar a vitória de Lula. O lado de cá, das trabalhadoras e trabalhadores, precisa responder à altura”.
Dutra classifica como “verdadeiro golpe” a decisão de André Mendonça de afastar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Depois, exige que o PSOL organize “uma mobilização ao redor da campanha Lula”. Assim, a direção da Polícia Federal, uma ala do STF e a candidatura de Lula são colocadas no mesmo campo político dos trabalhadores.
De trotskismo sobra apenas um rótulo para essa corrente do PSOL. O critério de classe é substituído pelo critério eleitoral. A questão deixa de ser quais interesses políticos e sociais estão representados em cada setor do regime. Tudo passa a depender de uma pergunta: determinada ação ajuda Lula ou Flávio Bolsonaro? Se prejudica Lula, é “golpe”. Se favorece Lula, pertence ao “lado de cá”.
O MES construiu uma acusação em função de seus interesses eleitorais. O mesmo método aparece diante do escândalo envolvendo Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. No qual Dutra reconhece expressamente que “os indícios da relação dele e de Dias Toffoli com Vorcaro também são contundentes”.
Se os indícios são contundentes, qual deve ser a conclusão política? Afinal, trata-se das relações de ministros do Supremo, que institui uma ditadura no País, com um banqueiro envolvido num gigantesco escândalo financeiro.
O artigo critica uma “ação consciente de girar ao redor de uma pauta com a crise de Moraes no STF”. Ou seja: os indícios são “contundentes”, mas colocar a crise no centro da discussão política seria inconveniente porque poderia favorecer eleitoralmente a direita. É puro oportunismo.
Isso também explica a maneira como aparece a luta da escala 6×1. Dutra reclama que a crise do Supremo colocou o tema “em segundo plano”. Essa reivindicação, supostamente, seria uma “agenda” capaz de fazer Lula recuperar a iniciativa. Mas mesmo a aprovação dessa proposta não conta com a participação da classe trabalhadora, fica restrita a acertos dentro do Congresso.
Uma política socialista partiria do problema oposto: mobilizar os trabalhadores pelo fim da escala independentemente dos interesses eleitorais de Lula, Flávio ou qualquer outro candidato. No MES, uma reivindicação popular é transformada em instrumento da estratégia eleitoral da frente ampla.
Donald Trump cumpre função semelhante no artigo. A intervenção do imperialismo norte-americano sobre o Brasil é permanente e não depende do presidente que ocupa a Casa Branca. O País está submetido economicamente e politicamente aos Estados Unidos há décadas.
No texto do MES, porém, Trump é utilizado para explicar tudo. Haveria um esforço burguês “sob a orientação de Trump” e até “as mãos de Trump por detrás dessa manobra”.
A consequência política dessa operação é evidente. Se Trump está de um lado, todos os setores que momentaneamente se chocam com ele aparecem como integrantes do campo da soberania nacional. Instituições das mais reacionárias do regime brasileiro são então promovidas ao “lado dos trabalhadores”.
A contradição fica ainda mais clara quando Dutra defende uma reforma que “acabe com os privilégios dos ministros e reponha a possibilidade de escolha pelo voto popular da corte suprema”. A atual crise deveria ser utilizada para denunciar a concentração de poderes extraordinários nas mãos de ministros não eleitos. O MES faz o contrário. Escreve sobre “voto popular” num parágrafo e, no restante do artigo, organiza sua política para defender uma ala do aparelho judicial contra a outra.
Sua proposta prática não deixa dúvidas: “banquinhas”, “Vira Voto”, reforço das candidaturas do PSOL e “uma mobilização ao redor da campanha Lula”. Dutra chega a defender que “Lula deve convocar em cadeia nacional a mobilização”.
O trabalhador esquecido na hora de Lula escolher seu vice, e que em nenhum momento foi consultado para nada, de repente, volta a ser força política, mas como auxiliar da campanha governista.
O que o MES propõe é que a classe trabalhadora entre de cabeça na frente popular, que Trótski justamente combateu porque a aliança com setores apresentados como “democráticos” da burguesia subordinava os trabalhadores aos seus supostos aliados.
No MES, essa subordinação aparece de maneira quase explícita. A direção da PF deve ser protegida, uma ala do STF precisa vencer a disputa, Lula deve convocar a mobilização e o PSOL deve colocar sua militância a serviço dessa operação.
A tudo isso Israel Dutra chama de “o lado de cá, do Brasil real, das trabalhadoras e trabalhadores”. O proletariado desaparece como força política independente e reaparece como eleitor e cabo eleitoral da frente ampla.
O MES pode continuar chamando essa política de trotskismo. Seu nome verdadeiro é colaboração de classes.





