O artigo Desde quando pobre vota na direita, gente?, de Denise Assis, publicado nesta quinta-feira (1º) no Brasil 247, procura explicar por que uma parcela dos trabalhadores continua disposta a votar na direita apesar das denúncias contra Flávio Bolsonaro. A resposta aparece em expressões como “comprou de barato o discurso do antipetismo”, “arrastado para o discurso fascista” e “vírus do fascismo”.
O problema é que essa explicação joga sobre o eleitor a responsabilidade por uma crise política que é obra da própria esquerda.
O eleitor não “comprou de barato” uma mercadoria ideológica pronta. Nos últimos anos, a maioria da esquerda aproximaram sua política da defesa das instituições do Estado, apresentando o STF como barreira contra a extrema direita, apoiando operações da Polícia Federal contra adversários e aceitando uma intervenção crescente sobre as redes sociais. Ao mesmo tempo, o PT ampliou alianças com setores golpistas.
Essas alianças foram decisões das direções políticas, não consultas feitas ao eleitorado que havia votado em Lula e Dilma. Por isso, quando parte desse mesmo eleitorado se afasta, apelar para manipulação, antipetismo ou por uma suposta “contaminação fascista” deixa de fora o problema concreto.
É completamente absurdo se falar em “segmento fascista” para designar pessoas comuns que continuam dispostas a votar em Flávio Bolsonaro apesar das denúncias contra ele. O comportamento eleitoral de milhões de pessoas tratadas como “gado” pela esquerda é transformado pela jornalista, por meio de uma expressão, numa identidade política fechada.
Trótski, ao falar de fascismo, comparava o regime de Mussolini com a ditadura espanhola de Primo de Rivera, rejeitando expressamente a ideia de chamar toda forma reacionária de governo de fascista. O fascismo italiano, para ele, era um movimento de grandes massas, de origem principalmente pequeno-burguesa, dirigido e financiado por grandes interesses capitalistas.
Ao analisar a Alemanha, foi ainda mais preciso. O fascismo aparecia quando os mecanismos ordinários de dominação burguesa já não bastavam e o capital mobilizava a pequena burguesia como força de choque contra as organizações da classe operária. Sua função histórica era destruir sindicatos, partidos e demais organizações independentes do proletariado.
Isso é muito diferente de encontrar um motorista de aplicativo, uma balconista ou um trabalhador no supermercado que pretende votar na direita e incluí-lo num “segmento fascista”.
Um eleitor pode ser conservador, antipetista, autoritário ou apoiar posições reacionárias. Isso não basta para transformá-lo, automaticamente, numa base fascista no sentido marxista do termo. Quando “fascismo” passa a significar praticamente qualquer eleitor da direita, a palavra deixa de explicar aquilo que deveria definir.
Há ainda uma consequência política. Se o trabalhador já foi declarado “fascista”, não é mais necessário explicar por que ele se afastou da esquerda nem tentar compreender as causas desse deslocamento. A crise deixa de estar na política das organizações e passa a estar na cabeça do eleitor.
É aí que a pergunta “desde quando pobre vota na direita?” se volta contra o próprio artigo. Ser pobre ou trabalhador não produz automaticamente uma consciência política determinada. Se produzisse, partidos, sindicatos e organizações políticas seriam desnecessários. A consciência de classe é formada pela experiência, pelas lutas e pela disputa entre diferentes forças políticas.
A questão é por que uma parcela dos trabalhadores pode enxergar na direita uma força de oposição ao regime, enquanto associa a esquerda institucional a figuras e instituições do próprio sistema político.
Ao mesmo tempo, a aproximação da esquerda com o STF, a Polícia Federal e antigos adversários do PT ajuda a compreender como essa imagem pode ganhar força. O eleitor não precisou “comprar de barato” uma invenção completa, apenas observou a esquerda se enterrando dia após dia em alianças com a direita.
Também por isso a contraposição permanente entre “fascismo” e “democracia” precisa ser utilizada com cuidado. Trótski diferenciava radicalmente democracia parlamentar e fascismo, sobretudo pelas consequências para a organização da classe trabalhadora, mas apontava que ambos permaneciam formas de dominação burguesa. Num regime democrático, a burguesia pode apoiar-se nas instituições parlamentares e em direções reformistas; no fascismo, lança mão da mobilização reacionária para destruir as organizações do proletariado.
Quando antigos adversários passam a integrar alianças em nome da defesa democrática, existe a consequência política dessa escolha. Reduzir a reação de trabalhadores a essas alianças a “antipetismo” ou “fascismo” evita esse balanço e falsifica a realidade.
O mesmo vale para o balanço do governo. Se, depois de quase quatro anos, uma parcela expressiva do eleitorado popular continua aberta à direita, a discussão precisa passar pelas condições materiais desse eleitorado: salários, jornada, custo de vida, emprego, moradia, endividamento e serviços públicos. Atribuir seu comportamento principalmente à propaganda adversária é tentar se eximir da responsabilidade.
A pergunta “desde quando pobre vota na direita?” parte da premissa de que o voto popular pertenceria naturalmente à esquerda e só poderia migrar por engano, ignorância ou manipulação. No entanto, esse automatismo simplesmente não existe.
A influência política precisa ser conquistada e reconquistada. Quando trabalhadores mudam de posição, o fenômeno não pode ser explicado apenas pelos “defeitos” deles. A crise, seguramente, está na esquerda.
É justamente por isso que a expressão “pouco importa para esse segmento fascista” é tão ruim. Ela encerra a discussão no momento em que deveria começá-la. Em vez de compreender por que o trabalhador se afastou, sentencia que ele se tornou parte do problema, o que é muito conveniente.




