Em editorial publicado em 8 de setembro, intitulado Contra a manobra golpista – é hora de mobilização total, o Esquerda Online procura definir a crise aberta no Supremo Tribunal Fedarl (STF) pelo caso Banco Master como uma operação de André Mendonça e da extrema direita para desestabilizar as eleições. O texto reconhece que há suspeitas contra Alexandre de Moraes e afirma que elas devem ser investigadas, mas sua preocupação principal é outra: afastar Lula do escândalo, atacar Mendonça e impedir que a desmoralização do Supremo se transforme em uma crise política mais profunda.
A formulação mais reveladora aparece sem rodeios: “Lula não tem nenhuma relação com o escândalo”. Mais adiante, o editorial repete: “embora Lula não tenha nada a ver com o escândalo do Master”. É uma tentativa de resolver politicamente o problema por decreto. Lula pode não aparecer, até agora, como participante das negociatas atribuídas a Vorcaro e aos personagens citados no caso. Mas seu governo tem, sim, relação política com o poder que Alexandre de Moraes acumulou e com a transformação do STF em sustentáculo da frente ampla.
O próprio Esquerda Online entrega essa relação quando escreve que Moraes teve “papel […] na condenação dos golpistas”. Foi justamente em nome do combate ao bolsonarismo que setores da esquerda passaram anos apresentando Moraes como uma espécie de guardião da “democracia” e aceitando poderes excepcionais nas mãos do Supremo. O governo Lula fez parte dessa política. Em novembro de 2023, Lula entregou pessoalmente a Moraes a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, a mais alta classe da condecoração diplomática brasileira. Agora que aparecem denúncias graves envolvendo justamente um dos principais símbolos dessa política, o governo tenta se separar do cadáver: investiguem todos, não temos nada com isso.
O Esquerda Online transforma essa retirada em virtude. Segundo o editorial, “o presidente Lula reagiu bem à ofensiva bolsonarista ao exigir investigações de todos os envolvidos no caso Master”. Não reagiu bem. Reagiu da maneira mais conveniente para quem não pretende rever a política que levou até aqui. Dizer genericamente que todos devem ser investigados permite evitar a pergunta concreta: o que fazer diante das revelações sobre Moraes e sobre o funcionamento do STF?
O próprio texto admite que “as suspeitas sobre Moraes exigem uma apuração rigorosa”. Se exigem apuração rigorosa, a esquerda deveria começar pelo conteúdo das denúncias: quais atos foram praticados, quais relações existiam, que poderes foram utilizados, quem se beneficiou e que mecanismos permitiram que um ministro concentrasse tamanha autoridade. Mas, imediatamente, o editorial muda o centro da discussão para André Mendonça: “Mendonça não tem mais condições de se manter como relator do caso Master. Seu afastamento do caso deve ser imediato”.
Que Mendonça seja um ministro de direita, ligado ao bolsonarismo e movido por interesses próprios, não é descoberta alguma. Foi ministro de Bolsonaro antes de ser indicado ao STF. Isso não responde a uma única denúncia contra Moraes. Se um inimigo político revela um crime verdadeiro, o crime não desaparece porque quem o revelou tem objetivos reacionários. A tarefa da esquerda é verificar os fatos e utilizá-los contra o regime político da burguesia, não pedir que as denúncias sejam neutralizadas porque chegaram pelas mãos erradas.
A investigação é aceita em abstrato e esvaziada politicamente na prática. Ou seja, o Esquerda Online não quer haja uma investigação de fato, pois teme as consequências para a candidatura de Lula.
A justificativa é ainda mais clara quando o texto reclama que o escândalo produz “mal-estar generalizado com as instituições” e “desmoralização institucional”. Desde quando cabe a uma organização que se reivindica socialista proteger o prestígio do STF? Se as relações entre magistrados, banqueiros, empresários, políticos e altos funcionários revelam podridão, a desmoralização dessas instituições é consequência de seus próprios atos. Tentar salvar sua autoridade significa ajudar a burguesia a recompor um aparelho de Estado que existe para defender seus interesses.
O editorial chega a propor “uma reforma e um código de ética no judiciário”. É uma resposta minúscula diante do problema que ele próprio descreve. Se ministros concentram poderes para investigar, censurar, ordenar prisões, conduzir inquéritos e interferir diretamente na vida política nacional, o problema não é a ausência de um manual de boas maneiras. A crise mostra o poder antidemocrático de uma casta de juízes que ninguém elegeu e que ninguém pode destituir.
A política alternativa deveria partir exatamente dessa brecha. É preciso exigir a divulgação integral dos fatos do caso Master e das relações de seus personagens com o STF, investigação pública de todos os envolvidos e fim do sigilo usado para proteger autoridades. Mas isso deve vir acompanhado de uma campanha contra os poderes excepcionais do Supremo: fim das decisões monocráticas que suspendem direitos políticos, fim dos inquéritos conduzidos pelo próprio tribunal contra seus adversários e eleição dos juízes pelo voto popular, com mandatos revogáveis.
Nada disso impede denunciar Flávio Bolsonaro, Vorcaro ou qualquer personagem da direita envolvido no escândalo. Ao contrário: investigar todos é precisamente o oposto da política seletiva que o Esquerda Online atribui a Mendonça. O que não se pode fazer é transformar o envolvimento da direita numa desculpa para blindar politicamente Moraes e o STF.
O editorial termina convocando “máxima unidade, mobilização e engajamento para garantir a reeleição de Lula”. Mas sua “mobilização total” começa impondo à esquerda uma retirada: não explorar a crise do Supremo, não atacar frontalmente o regime judicial, não romper com a política que apresentou Moraes como defensor da “democracia”.
Se Lula pretende mudar de rumo, deveria começar reconhecendo que a política de dependência em relação ao STF foi um erro, exigir que todas as denúncias contra Moraes venham a público e apoiar medidas que retirem da cúpula judicial os poderes acumulados nos últimos anos. O Esquerda Online prefere chamar de coragem aquilo que, diante da primeira grande crise do aliado judicial da frente ampla, consiste em dizer: Lula não tem nada a ver com isso.




