No artigo Crise política na Alemanha: a AfD tem votação massiva nas eleições da Saxônia-Anhalt, publicado nesta terça-feira (8) pelo Esquerda Diário, o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) procura apresentar uma explicação para o crescimento da extrema direita. O texto, contudo, falha completamente em explicar por que a esquerda não é considerada uma alternativa crível por milhões de trabalhadores.
A AfD, partido de extrema direita, procura canalizar pela direita uma rejeição real a políticas identificadas com o regime alemão e com grande parte da própria esquerda: o identitarismo, a política de guerra contra a Rússia, o financiamento da Ucrânia e as sanções impostas à Rússia
A política identitária tornou-se uma das marcas da esquerda liberal europeia. Em vez de organizar os trabalhadores a partir dos interesses que possuem em comum enquanto classe, divide-os permanentemente, transformando essas diferenças em princípio político.
Para uma parcela crescente da população, essa política aparece como uma ideologia estranha aos problemas concretos da vida cotidiana. A direita se aproveita dessa rejeição e a utiliza para se fortalecer.
A tarefa da esquerda deveria ser retirar esse terreno das mãos da extrema direita. Em vez disso, setores como o MRT incorporam elementos do identitarismo e acabam ajudando a produzir o fenômeno que depois denunciam: uma esquerda enfraquecida deixa o descontentamento popular sem expressão própria, permitindo que a extrema direita se apresente como única adversária das políticas liberais.
O artigo afirma que é preciso combinar reivindicações sociais e “antirracistas”. Mas sequer considera a possibilidade de que a própria orientação política da esquerda tenha contribuído para aliená-la de uma parcela dos trabalhadores.
A questão da Rússia expõe problema semelhante. A AfD se coloca contra as sanções a Moscou e contra a continuidade do apoio alemão à Ucrânia. Na antiga Alemanha Oriental, onde está a Saxônia-Anhalt, essa questão tem peso ainda maior.
O MRT é contra o rearmamento alemão e reivindica investimentos sociais em seu lugar. Mas sua política diante da guerra mantém uma ambiguidade fundamental: denuncia a OTAN e, ao mesmo tempo, coloca a Rússia no banco dos réus como responsável por uma agressão e por pretensões expansionistas. Essa ambiguidade nada mais é que uma concessão à política imperialista.
A Rússia é um país submetido há décadas à pressão militar e econômica das grandes potências ocidentais. A OTAN avançou sistematicamente para o leste depois do fim da União Soviética, incorporou antigos integrantes do Pacto de Varsóvia e declarou sua intenção de levar também a Ucrânia para a Aliança. Depois de 2014, a integração militar com os países da OTAN avançou ainda mais.
A Rússia não estava diante de uma situação na qual pudesse simplesmente permanecer parada indefinidamente, esperando que uma aliança militar comandada pelos Estados Unidos consolidasse sua presença na Ucrânia.
A esquerda tem que apoiar qualquer país atrasado que esteja lutando contra o imperialismo. Em vez disso, a esquerda pequeno-burguesa critica o Irã, a Rússia, a China, o Afeganistão, etc., por questões laterais, o que, finalmente, acaba sendo um apoio ao imperialismo.
A consequência aparece eleitoralmente. Enquanto a esquerda apresenta uma posição capituladora, a AfD consegue dirigir-se de maneira muito mais direta a setores da população: fim das sanções, fim do financiamento da guerra e retomada das relações com a Rússia.





