Em Nova conjuntura mais adversa, publicado nesta sexta-feira (4) no Esquerda Online, Valerio Arcary, dirigente do PSOL, anuncia uma “descoberta” bastante tardia: “a esquerda não tem por que se alinhar, incondicionalmente, com Alexandre de Moraes”. Lembra que o ministro é um integrante da direita, foi indicado por Michel Temer e diz que os indícios envolvendo Daniel Vorcaro devem ser investigados.
Moraes não foi indicado por Temer na semana passada, nem se tornou homem da direita depois que apareceram suas relações com Vorcaro. Arcary sabia perfeitamente quem era o ministro quando exaltava sua atuação contra Bolsonaro.
Em dezembro de 2025, Arcary escreveu que “nada foi mais importante” do que a condenação de Bolsonaro e dos generais pelo STF e fez questão de registrar que o “mérito” de Moraes não deveria ser diminuído. Também destacou entre os fatores positivos do ano a “firmeza dos juízes do STF”.
Lula foi ainda mais explícito. Em agosto de 2025, pediu publicamente ao senador Sérgio Petecão (PSD-AC) que não assinasse o impeachment de Moraes porque, segundo ele, o ministro “está garantindo a democracia”.
Agora que o barco do Xandão começou a afundar, os dois se deram conta de que estavam tratando com um vigarista. Se Lula e Arcary realmente defendiam um princípio quando apresentavam a atuação do ministro como defesa da democracia, deveriam continuar defendendo esse princípio mesmo diante de suas relações com Vorcaro. Poderiam dizer: Moraes pode ter cometido irregularidades, deve ser investigado e punido, mas a política que adotou contra Bolsonaro estava correta; outro ministro deve continuar fazendo a mesma coisa, etc. Mas são incapazes de dizer isso.
Também não vão assumir que estavam errados ao apoiar censura, perseguição judicial, interferência eleitoral e concentração de poderes nas mãos do STF. Em vez disso, optaram por uma posição calculadamente ambígua.
Arcary escreve que “a esquerda não tem por que se alinhar, incondicionalmente, com Alexandre de Moraes, que sempre foi uma liderança da direita liberal, nomeado, lembremos, por Temer no auge da Lava-Jato”.
“Lembremos” agora? Onde estava essa lembrança quando o próprio Arcary atribuía mérito a Moraes pela repressão ao bolsonarismo? O Esquerda Online chegou a qualificar como “fundamentais” medidas impostas por Moraes a Bolsonaro e a defender que elas eram necessárias contra a extrema direita.
Moraes só voltou a ser “direita liberal” quando sua defesa passou a criar dificuldades eleitorais. A ideologia se adapta à pesquisa de intenção de voto.
Arcary elogia Lula porque o presidente agora sustenta que ninguém está acima da lei e que todas as denúncias devem ser investigadas. A campanha petista passou justamente a calibrar seu discurso diante da crise de Moraes, enquanto reconhecia que o escândalo poderia afetar as eleições.
Compare-se isso à posição anterior de Lula: “não assine pedido de impeachment do Alexandre de Moraes porque ele está garantindo a democracia”. O que mudou? Não foi a origem política de Moraes, sua atuação repressiva ou seu método. Mudou sua utilidade eleitoral.
Enquanto aparecia como instrumento eficiente contra Bolsonaro, era necessário defendê-lo. Quando o caso Master tornou essa associação perigosa, Lula passou a defender genericamente que todos sejam investigados. Moraes começa a ser descartado sem que a política de Moraes seja descartada.
O próprio artigo elimina qualquer dúvida. Arcary escreve que “o que está em disputa é a eleição presidencial”. Depois afirma que “o centro da luta política é garantir que Lula derrote o bolsonarismo para ganhar tempo”.
Mais ainda: reconhece que as revelações mostram “a relação desprezível e promíscua entre a riqueza e o poder com alguns magistrados”, mas adverte que seria um erro a esquerda abraçar agora a ideia de que “está tudo podre”. Por quê? Porque faltam poucas semanas para a eleição. Aí está toda a política. A verdade sobre o STF deve ser administrada conforme sua utilidade para Lula.
Se denunciar a podridão do regime favorece Flávio Bolsonaro, não se deve fazê-lo com muita força. Se defender Moraes começa a prejudicar Lula, idem. Os princípios precisam esperar pelo resultado das urnas.
Arcary diz que é preciso reeleger Lula para “ganhar tempo”. Tempo para quê? O tempo ganho numa eleição para essa gente serve apenas para preparar a próxima eleição, quando aparecerá oportunamente uma direita ameaçadora e será exigida outra aliança com a burguesia.
A classe operária deve esperar eternamente. Ontem, esperar significava apoiar Moraes contra Bolsonaro. Hoje significa evitar uma denúncia demasiadamente forte da ditadura do STF porque ela pode favorecer Flávio. Amanhã será preciso embarcar em outra operação política da burguesia para derrotar algum novo “mal maior”.
Se vale tudo para ganhar, para que ganhar? Essa é a pergunta que Arcary não consegue responder. Se é preciso abandonar qualquer princípio para ganhar a eleição, qual é o conteúdo dessa vitória?
Moraes era apresentado como defensor da democracia quando sua atuação servia à frente ampla. Agora pode ser investigado porque se tornou um peso. Mas a política de repressão judicial que ele personificou continua sem crítica.
Lula e Arcary não estavam defendendo um princípio quando abraçaram Xandão. Defendiam uma conveniência. Quando o barco começou a fazer água, trataram de se afastar, sem admitir o que fizeram e sem romper com a política que sustentaram.
Ficam apenas esperando para descobrir qual será o próximo navio da burguesia em que precisarão embarcar para “ganhar tempo”. E os trabalhadores, como sempre nessa política, ficam para depois.





