O artigo O caminho da democracia é longo e penoso, de Ricardo Rezer, publicado nesta sexta-feira (02) em A Terra é Redonda, pretende explicar por que o bolsonarismo conserva força eleitoral. Para isso, cita Oswald de Andrade, Eliane Brum, Hannah Arendt, conservadorismo, fundamentalismo, neofascismo, “ateísmo político” e uma série de conceitos que ocupam quase todo o texto. O trabalhador, quando aparece, é para ser tratado como alguém que precisaria abandonar uma espécie de desvio da razão.
Esse é o problema central do artigo. Rezer não começa perguntando por que milhões de pessoas continuam insatisfeitas após tantos anos de governos petistas. Prefere perguntar por que elas não enxergam o mundo como ele considera razoável. Chama o bolsonarismo de “seita política”, fala em “fanatismo”, “catequização”, “fundamentalismo” e em pessoas “convertidas” que não seriam alcançadas pela argumentação.
O raciocínio, como é esperado, inverte a questão. Se o trabalhador não concorda, procura atribuir ao trabalhador falta razão, sobra fé, falta discernimento, sobra fanatismo. Rezser foge da pergunta incômoda: o que a esquerda e o governo fizeram para conquistar politicamente esse trabalhador?
Esse método já foi criticado diversas vezes por este Diário. Tratar o eleitor bolsonarista como “adoecido cognitivo”, “gado”, “fanático” ou simplesmente irracional não explica coisa alguma. Quem parte da ideia de que milhões de pessoas são incapazes de compreender a realidade abandona a tarefa de disputar politicamente esses trabalhadores e entrega de mão beijada esse terreno à direita.
Rezer pergunta “como chegamos a esse ponto?”, mas sua própria resposta fecha a porta para a resposta. O bolsonarismo aparece como produto de fundamentalismo, conservadorismo, religião, desinformação e autoritarismo. As condições materiais da vida da população quase não entram na equação.
Em setembro, 19,29 milhões de famílias receberam o Bolsa Família, com benefício médio de R$ 678,18. São famílias, não indivíduos. O dado é importante para se saber quantos brasileiros dependem diretamente de uma transferência de renda muito baixa para fechar o mês. São 46,5 milhões de pessoas.
Até setembro, o piso permanecia em R$ 600, valor que não era corrigido desde março de 2023. Pressionado pelas eleições, o governo anunciou que o piso passaria a R$ 691, uma recomposição de 15,04% correspondente à inflação acumulada. Foi a primeira atualização inflacionária em mais de três anos. O reajuste chegou apenas na reta final da campanha, depois de anos de perda de poder de compra.
Também é preciso cuidado com a propaganda em torno do “pleno emprego”. A taxa oficial de desocupação caiu. O IBGE registrou 5,4% no segundo trimestre de 2026. Mas o mesmo levantamento apontou 2,3 milhões de desalentados e taxa de subutilização de 12,9%. O desalentado quer trabalhar, mas deixou de procurar e, por isso, não aparece como desempregado na taxa oficial. No trimestre encerrado em abril, havia ainda 38,1 milhões de trabalhadores informais.
Uma pessoa que desistiu de procurar serviço desaparece da estatística do desemprego, e sua vida seguramente piorou. Um trabalhador informal pode ser contado como ocupado e, ao mesmo tempo, não saber quanto terá de renda na semana seguinte.
Em agosto, a Serasa registrou 83,98 milhões de brasileiros com dívidas em atraso, o maior número da série histórica depois de 20 meses consecutivos de crescimento. Em julho, o total de dívidas em aberto somava R$ 586,4 bilhões.
A consciência política de milhões de pessoas se forma influenciada pelo salário, aluguel, prestação, supermercado, transporte, dívida e incerteza. Pouco vale para elas a divulgação de índices de que a renda média real cresceu, pois ao abrir o aplicativo do banco vai encontrar o salário comprometido antes do fim do mês. Pode ouvir que o desemprego caiu, mas conhecem quem desistiu de procurar emprego ou vive de bicos.
Rezer percebe que existe uma crise, mas procura sua origem principalmente na cabeça do eleitor. Ao tratar da família, por exemplo, concentra a discussão no patriarcalismo, na pluralidade das formas familiares e no conservadorismo. O dado material praticamente fica de fora. A defesa da família ganha força numa sociedade em que manter uma casa, criar filhos e garantir alimentação é um problema econômico permanente para milhões de brasileiros.
A parte sobre “neofascismo” é ainda pior. O termo passa a reunir no mesmo balaio conservadorismo, religião, autoritarismo, negacionismo científico, misoginia, racismo e homofobia. O fascismo acaba transformado em uma categoria que termina funcionando como um recipiente para quaisquer comportamentos e ideias consideradas regressivas.
Quanto mais setores da esquerda descrevem o eleitor da direita como fanático, ignorante ou convertido a uma seita, mais abrem espaço para que a própria direita se apresente como representante de pessoas desprezadas pelo sistema político.
Rezer afirma que quem pretende governar deveria falar de economia, trabalho, renda, saúde, educação, transporte e segurança pública. É exatamente o que seu próprio texto quase não faz. Depois de dezenas de parágrafos sobre razão, fé, conservadorismo, neofascismo e democracia, os problemas materiais que ele mesmo enumera entram como apêndice.
O autor tenta convencer a quem já vive na penúria que o caminho da democracia é “longo e penoso”. Só pode pedir paciência ao povo quem já está com a vida ganha. Isso é para quem não depende de um Bolsa Família (que permaneceu mais de três anos sem correção), inadimplência, etc.
É justamente sobre essa insatisfação que a direita procura atuar. A extrema direita pode ser demagógica e contraditórias, mas atua sobre a base material da insatisfação popular. Classificar o eleitor como fanático, portanto, de nada adianta.
Em vez de partir das condições materiais para explicar a realidade, o autor parte de uma consciência que ele considera defeituosa para explicar esse realidade. No fim, deixa praticamente de fora salário, emprego, moradia, comida, dívida e perspectiva de futuro, e transforma questões sociais em um enfadonho sermão sobre a razão. E disso o trabalhador já está farto.



