Eleições 2026

O Brasil não é um “nós”, mas uma um país dividido em classes

Artigo culpa IA, redes e falta de “maturidade” democrática, mas passa ao largo da frente ampla e do conflito entre capital e trabalho

inimigos de classe

A velha choradeira reaparece na véspera da eleição. No artigo O Brasil diante do espelho: o que esta eleição revela sobre nós, publicado no Brasil 247, Luis Pellegrini procura explicar a situação política falando em inteligência artificial, redes sociais, envelhecimento, solidão, polarização e falta de “maturidade” democrática. Em meio a tantas ‘explicações’, desaparece justamente aquilo que organiza uma sociedade capitalista: a divisão em classes.

O texto inteiro se apoia na palavra “nós”. E no fim, Pellegrini afirma que o Brasil será aquilo que “nós, brasileiros”, formos capazes de fazer dele. Mas quem é esse “nós”? Banqueiro e trabalhador? Latifundiário e camponês? Patrão e empregado? O Brasil não é uma pessoa diante do espelho. É um país capitalista oposto por interesses materiais.

Quando todos são dissolvidos na categoria abstrata de “brasileiros”, desaparece o fato de que uma ínfima minoria controla bancos, grandes empresas, terras e enorme quantidade de riqueza, enquanto a maioria depende do trabalho para viver e vive na pobreza.

Pellegrini fala em “vínculo social” rompido, que as redes teriam fragmentado o espaço público e que a democracia precisaria reconstruir uma base comum para a convivência. Conviver com os abismos sociais?

Capitalistas e trabalhadores entraram em conflito muito antes de qualquer algoritmo. O empresário procura ampliar seus lucros e reduzir custos; o trabalhador procura aumentar o salário, reduzir a jornada e melhorar suas condições de trabalho. A sociedade não chegou a essa divisão porque seus integrantes desaprenderam a conversar.

A ‘conversa’ sobre uma pretensa “democracia madura” não passa de ilusão. Uma democracia burguesa não elimina a propriedade privada dos grandes meios de produção ou o antagonismo entre capital e trabalho. Ou seja, serve apenas manter a exploração capitalista com o mínimo de conflito.

Marx e Engels escreveram no Manifesto do Partido Comunista que a sociedade burguesa moderna não aboliu os antagonismos de classe. Lênin, em O Estado e a Revolução, retomou Engels para definir o Estado como produto de antagonismos de classe que não podem ser conciliados.

Por isso, quando Pellegrini propõe transformar “uma sociedade dividida em uma sociedade capaz de discordar sem deixar de compartilhar um destino comum”, ele apenas retira da divisão seu conteúdo social.

Que “destino comum” existe entre quem vive de salário e quem vive da exploração do trabalho alheio? A fórmula da conciliação converte uma contradição social em problema de comportamento, uma pregação moral que reza que todos deveriam ser mais tolerantes, responsáveis e maduros.

Pellegrini não a discute a política concreta dos últimos anos, por isso sua análise leva a lugar nenhum.

Lula chega à eleição de 2026 novamente tendo Geraldo Alckmin como candidato a vice. Não é lembrança de 2022, mas a manutenção da aliança entre o PT e um político que construiu sua trajetória nacional no PSDB, inimigo da classe trabalhadora, e acumulou no governo a Vice-Presidência com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

A coalizão também incorporou a latifundiária e golpista Simone Tebet, que comandou o Ministério do Planejamento e Orçamento até março, e Marina Silva, golpista de primeira hora e sabotadora dos interesses nacionais, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Por que uma esquerda que pretende representar os trabalhadores passou a depender de uma aliança permanente com figuras oriundas da direita tradicional e ligada ao grande capital estrangeiro como George Soros?

A inteligência artificial não escolheu Alckmin para vice de Lula e não foi um algoritmo que montou a frente ampla. A tecnologia não explica as decisões das direções políticas.

Se os interesses fundamentais entre burguesia e classe trabalhadora são antagônicos, a conciliação não pode fazer com que ambos abandonem seus interesses. Quando os trabalhadores abandonam uma política independente em nome de uma aliança com representantes da burguesia, seus interesses passam a ser submetidos aos limites dessa aliança, e naturalmente sairão perdendo.

Propor a conciliação de interesses irreconciliáveis, e forças econômicas profundamente desiguais, significa subordinar a política independente dos trabalhadores aos limites da ordem burguesa.

O artigo de Pellegrini abstrai “sociedade”, “cidadãos”, “instituições”, “maturidade”, “destino comum”. E ao escrever que “instituições são mais importantes que indivíduos”, o autor apresenta as instituições como se pairassem acima dos interesses existentes na sociedade em vez de trabalharem em função dos interesses da burguesia contra os trabalhadores.

Reverenciar as instituições do Estado burguês é um péssimo sinal, além de ir na contramão dos interessas da classe trabalhadora, que identifica corretamente que aí estão representados seus inimigos. Quem apoia as instituições, apoia o sistema.

O ideal apresentado no artigo é o de uma sociedade em que adversários aceitam as instituições e aprendem a discordar dentro das regras. Nessa catequese, a luta política reduzida a uma espécie de etiqueta de boa convivência. O problema é que a luta de classes não desaparece porque todos aprenderam boas maneiras.

Ao transformar o problema numa falta de maturidade coletiva, chega-se novamente à velha responsabilização do próprio povo. Se a direita cresce, faltou julgamento ao cidadão; a polarização aumenta pois a sociedade perdeu uma realidade comum. Se a mentira circula, foi o eleitor não soube reconhecer a verdade. E se a democracia funciona mal, “nós” precisamos amadurecer.

Quanto à política da esquerda de frente ampla, os quatro anos de governo ao lado de Alckmin e de outros representantes de setores burgueses, tudo isso fica fora do espelho.

Uma “democracia madura”, entendida como administração pacífica dos antagonismos sociais, para o bem da burguesia, pode oferecer estabilidade ao regime. O que ela nunca poderá fazer é transformar exploração em interesse comum. Patrão e empregado, mesmo que votem na mesma urna, continuam ocupando posições diferentes na produção.

Quando a organização independente dos trabalhadores é substituída pela defesa abstrata do funcionamento normal do regime, a direita ganha espaço para apresentar-se demagogicamente como “antissistema”. Depois, em vez de discutir a política que abriu esse espaço, começa a procura por culpados: redes sociais, IA e falta de educação democrática.

Pellegrini olha para seu espelho imaginário e encontra tecnologia, envelhecimento, solidão e imaturidade. O que não aparece refletido ali é a decisão política de uma esquerda que passou anos de braços dados com setores da velha direita em nome da defesa da democracia.

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