No artigo O operador interno do golpe: Mendonça produz a crise que Washington precisava, publicado pelo Brasil 247, Reynaldo José Aragon Gonçalves apresenta André Mendonça como a peça doméstica de uma ofensiva norte-americana contra o Brasil. Não seria propriamente um agente dos Estados Unidos, ressalva o autor, mas um “operador”: alguém cujos atos fornecem material que o governo norte-americano poderia utilizar para ampliar sua pressão sobre o País.
A ingerência norte-americana existe, como este Diário já denunciou inúmeras vezes. O problema de Aragon é começar a enxergá-la apenas quando vem à tona o escândalo de corrupção do ministro Alexandre de Moraes.
O articulista escreve que “durante mais de um ano, Alexandre de Moraes foi construído nos Estados Unidos como o rosto de um suposto regime de censura”. Mas não se trata apenas de uma “construção” norte-americana. O inquérito das fake news foi instaurado de ofício pelo STF em 2019, Alexandre de Moraes foi diretamente designado relator e, sete anos depois, a investigação continuava aberta. Em plena crise atual, Moraes tentou utilizá-la para pedir investigação contra André Mendonça, até Edson Fachin retirar o pedido dali e encaminhá-lo separadamente.
No título, o autor afirma que “Mendonça produz a crise”. Mendonça pode ter aprofundado o conflito, mas não produziu o contrato de R$131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes. Não escreveu as mensagens encontradas no aparelho de Daniel Vorcaro, nem criou os contatos entre o banqueiro e o ministro.
A possibilidade de Trump utilizar o escândalo não torna o escândalo menos real. Esse raciocínio revela um problema mais amplo na política da esquerda pequeno-burguesa diante do imperialismo. A ingerência dos Estados Unidos parece tornar-se intolerável quando começa a atingir autoridades incorporadas, nos últimos anos, ao campo apresentado como defensor da “democracia”.
Só que os Estados Unidos não começaram a interferir na política brasileira com Trump. Durante a Lava Jato, a cooperação entre autoridades brasileiras e norte-americanas foi extensa e pública. Em 2017, Kenneth Blanco, então dirigente da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos EUA, chegou a celebrar os “resultados extraordinários” do trabalho conjunto com a força-tarefa brasileira, mencionando casos como Odebrecht, Braskem, Embraer e Rolls-Royce.
A ofensiva da Lava Jato foi um dos elementos centrais da crise que levou ao golpe de 2016 e, posteriormente, à prisão de Lula e sua exclusão das eleições de 2018. Alexandre de Moraes assumiu o Ministério da Justiça no governo Michel Temer e foi indicado pelo próprio Temer ao STF. Já no Supremo, votou contra o habeas corpus de Lula em 2018. Onde está o herói da “democracia”?
Em 2022, Luís Roberto Barroso reconheceu publicamente que, quando presidia o TSE, procurou autoridades dos Estados Unidos e pediu em três oportunidades manifestações norte-americanas em apoio às instituições brasileiras. Uma das conversas ocorreu no Departamento de Estado. Barroso afirmou inclusive acreditar que esse apoio exerceu influência sobre os militares brasileiros devido às relações de treinamento e fornecimento de equipamentos com os EUA.
A denúncia da ingerência norte-americana de Aragon começa quando Trump entra em conflito com Moraes. A influência dos Estados Unidos sob governos democratas, sua cooperação com a Lava Jato e sua participação aberta na crise eleitoral de 2022 praticamente desaparecem.
A passagem em que Aragon tenta comprometer Mendonça pelos “circuitos pelos quais circulou” também acaba levantando um problema muito maior do que o autor pretende: “para compreender por que Mendonça ocupa posição tão sensível nesse processo, é preciso olhar menos para sua biografia formal e mais para os circuitos pelos quais circulou”. Se essas relações são importantes para compreender a atuação de um ministro, por que parar em André Mendonça?
O problema não é simplesmente que existe um ministro ligado a organizações conservadoras norte-americanas. O Judiciário brasileiro possui uma longa história de relações com oas instituições políticas, jurídicas e policiais do imperialismo. O STF participou das grandes crises que atravessaram o País, legitimou medidas da Lava Jato, manteve Lula preso antes das eleições de 2018 e hoje aparece mergulhado novamente em uma guerra entre ministros, banqueiros, Polícia Federal e PGR. O próprio levantamento feito por Aragon deveria levá-lo a questionar a instituição, e não apenas um de seus integrantes.
Mendonça pode ser um juiz reacionário, bolsonarista e ter relações com círculos conservadores dos Estados Unidos. Nada disso transforma Alexandre de Moraes, por oposição, num representante da soberania nacional. A biografia política de Moraes e a atuação do STF nos últimos dez anos tornam impossível essa operação.
Aragon procura escapar escrevendo que “defender a soberania brasileira, por isso, não significa blindar Alexandre de Moraes”. Mas é exatamente nessa direção que sua argumentação empurra o leitor. Em vez de discutir prioritariamente os negócios de Vorcaro, as relações com o escritório da esposa de Moraes e o uso excepcional dos poderes do STF, ele desloca o problema para o que Trump poderá fazer com essas informações. É uma adaptação à pressão imperialista.
A ingerência imperialista deve ser combatida independentemente de quem governa os Estados Unidos e de quem ela beneficia no Brasil. E os negócios e abusos existentes no interior do STF devem ser enfrentados independentemente de quem pretenda explorá-los eleitoralmente ou no exterior.





