No artigo O sustentáculo da democracia é Lula, publicado no Brasil 247 no sábado (6), Alberto Cantalice, diretor da Fundação Perseu Abramo e membro da direção do PT, comenta a crise provocada pelo escândalo do Banco Master e seus efeitos sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). Depois de mencionar as revelações envolvendo ministros da Corte, Cantalice apresenta Lula como o homem capaz de restabelecer a estabilidade e recuperar a credibilidade das instituições.
O artigo procura esconder a própria responsabilidade de Cantalice na defesa de Alexandre de Moraes e do STF.
Em novembro de 2025, ele publicou um artigo de título STF sacramenta a derrota do golpe e fortalece consolidação democrática. Ali, afirmou que a Corte estava agindo “firmemente, respeitando o devido processo legal” e concluiu convocando a população a apoiá-la: “o STF recolocou o Brasil nos trilhos da democracia; cabe à sociedade respaldá-lo!”.
Em setembro de 2024, ao defender a suspensão do X determinada por Alexandre de Moraes, Cantalice afirmou que a decisão “veio em boa hora”. Agora, diante das revelações envolvendo o Banco Master, escreve que “o ministro Alexandre de Moraes deve explicações ao Brasil”.
Quando Moraes acumulava poderes, censurava perfis e conduzia inquéritos políticos, o dirigente petista defendia o ministro e o STF como sustentáculos da democracia. Agora que a crise atinge a Corte, procura se afastar de Moraes e aparecer como crítico de seus excessos. São as moraisetes sem moral.
Cantalice tenta explicar a crise dizendo que Daniel Vorcaro “estendeu seus tentáculos por variados setores da institucionalidade brasileira”.
A formulação transforma Vorcaro na causa do problema. Um banqueiro teria corrompido ou contaminado instituições que, fora sua influência, funcionariam normalmente.
Mas o próprio escândalo mostra outra coisa. As relações de Vorcaro alcançaram ministros, parlamentares, familiares de autoridades e diferentes setores do aparelho de Estado porque essas relações encontraram terreno dentro do próprio regime político.
Vorcaro não criou um sistema no qual banqueiros mantêm relações estreitas com integrantes do Judiciário e do Congresso. Ele atuou dentro desse sistema e se beneficiou dele. Ao tratar Vorcaro como um polvo que invadiu instituições sadias, Cantalice preserva as próprias instituições. Retira-se o banqueiro, apuram-se alguns crimes, anuncia-se uma reforma e tudo poderia voltar ao normal.
O escândalo, no entanto, não revela apenas os negócios de um banqueiro. Revela a podridão do regime.
Depois de descrever uma crise que atinge STF, PGR, PF e Congresso, Cantalice chega ao objetivo político de seu artigo:
“Para romper o fogo de barragem, o fio da suspeita e a dissintonia entre as instituições e abrir caminho para uma reforma de fundo, é preciso coragem e experiência na Presidência da República. Esse nome é Luiz Inácio Lula da Silva.”
E conclui:
“A garantia da estabilidade e da previsibilidade é Lula. O outro caminho é o abismo.”
Lula, porém, não aparece de fora do esquema político que entrou em crise. Seu governo foi um dos principais fiadores do STF e de Alexandre de Moraes.
Lula não combateu os poderes excepcionais acumulados pelo Supremo, não se colocou contra a censura promovida pela Corte e não iniciou qualquer campanha contra Moraes. Durante anos, o governo e setores dirigentes do PT apresentaram o ministro como defensor da “democracia”.
Cantalice foi um dos defensores dessa política. Agora que o STF atravessa uma crise profunda, ele tenta apresentar Lula como o bombeiro capaz de apagar o incêndio que o próprio governo ajudou a manter sob controle enquanto servia aos seus interesses políticos.
Qual é a saída oferecida? Segundo Cantalice, Lula reuniu autoridades do sistema de Justiça e defendeu que se deveria “abrir tudo” para que a Justiça recuperasse “a sua inteira credibilidade”. O dirigente petista fala ainda em uma “nova reforma do Poder Judiciário”.
Lula não explica quem controlará os ministros do Supremo, por que devem continuar ocupando seus cargos sem serem eleitos pela população ou como poderão ser retirados de seus postos.
A preocupação é restaurar a “credibilidade” das instituições, não retirar delas o poder que permitiu chegar à situação atual.
Cantalice apresenta Lula como solução justamente porque vê nele a possibilidade de recompor a autoridade do regime. É esse o significado concreto da “estabilidade” e da “previsibilidade” defendidas no artigo.
A classe trabalhadora não precisa recuperar a confiança no STF. Precisa acabar com o poder político de uma casta de juízes que não responde perante a população. A crise coloca na ordem do dia o fim do STF tal como existe, a eleição de todos os juízes pelo voto popular e o direito de revogação de seus mandatos.




