Na primeira parte desta polêmica, mostramos como Eduardo Guimarães transforma um relatório de inteligência da Polícia Federal em uma sentença contra André Mendonça. Suspeitas viram crimes comprovados, uma citação que não demonstra que o ministro tenha mandado investigar cinco colegas é apresentada como se demonstrasse e a comparação entre Lulinha e ACM Neto ajuda a sustentar uma manchete sobre Flávio Bolsonaro.
Há, porém, um problema político ainda maior. Guimarães conhece muito bem o que acontece quando um relatório policial, uma suspeita ou uma informação obtida numa investigação passa a ser apresentada como verdade incontestável. Ele não acompanhou esse método apenas como jornalista. Foi pessoalmente atingido por ele durante a Lava Jato.
Em março de 2017, a Polícia Federal esteve em sua casa, apreendeu computadores e telefones e o levou para depor por ordem do então juiz Sérgio Moro. A operação procurava descobrir a fonte que havia informado Guimarães antecipadamente sobre a condução coercitiva de Lula, ocorrida no ano anterior.
Naquela ocasião, não havia para o articulista uma “Corporação” neutra, tecnicamente situada acima das disputas políticas. Havia uma operação policial e judicial dirigida contra Lula e contra quem atrapalhasse seu funcionamento.
A PF da Lava Jato não desapareceu
A Lava Jato não foi realizada exclusivamente por Sérgio Moro. Policiais federais tiveram papel central nas buscas, prisões, investigações, relatórios e vazamentos que alimentaram durante anos uma campanha política contra Lula e o PT.
Pelo menos dois ministros do STF davam sustentação à Lava Jato: Luiz Fux e Edson Fachin. O vazamento de mensagens mostrou a comemoração de Deltan Dallagnol em que dizia aos seus colegas do Ministério Público: “Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso”
As informações produzidas no interior das investigações eram sistematicamente transformadas em manchetes antes que qualquer julgamento tivesse ocorrido. Suspeitas policiais passavam a funcionar como condenação pública. Delações eram tratadas como provas. Vazamentos seletivos serviam para produzir determinada reação política.
O resultado é conhecido. Lula foi preso e retirado da eleição de 2018, abrindo caminho para a vitória de Jair Bolsonaro.
Essa experiência deveria ter produzido na esquerda uma conclusão simples: a PF não é uma entidade científica neutra, combatendo o mal e acima da sociedade. É parte do aparelho do Estado e também participa da luta política. E a palavra “Polícia Federal” não transforma uma hipótese em verdade. Mas, é justamente isso que Guimarães parece ter esquecido.
Não é sequer necessário recorrer apenas à história da Lava Jato para perceber o problema. O próprio documento usado por Guimarães reconhece que a Polícia Federal é “parte interessada” em um dos conflitos analisados, já que a determinação de Mendonça atingia a própria corporação e seu diretor-geral. O relatório alerta expressamente para o risco de “raciocínio motivado”. Em outras palavras, a própria PF reconhece aquilo que Guimarães apaga: ela não está situada fora da disputa.
A polícia muda conforme o acusado
O contraste com a defesa que o mesmo articulista faz de Alexandre de Moraes é esclarecedor. Quando aparecem informações comprometedoras sobre Moraes no material apreendido de Daniel Vorcaro, Guimarães se torna extremamente prudente. Questiona registros, exige confirmação, procura hipóteses alternativas e insiste corretamente que uma informação encontrada num telefone não deve ser aceita sem exame.
Essa cautela desaparece quando o relatório é contra André Mendonça. A PF afirma haver indícios de tratamento desigual? Guimarães anuncia perseguição política. Há suspeita de interferência em procedimentos policiais? Aparecem “crimes”.
Uma decisão foi inicialmente entregue aos policiais sem assinatura, embora depois tenha sido comparada com a peça dos autos e considerada idêntica? Guimarães destaca a irregularidade e a insere num artigo que já apresenta Mendonça como suspeito até de “ADULTERAR PROVAS”. O problema é que nem essa passagem, nem as demais citadas pelo articulista, demonstram por si mesmas que Mendonça tenha adulterado uma prova.
Ao final, Mendonça já pode, segundo Guimarães, “perder o cargo e a primariedade. Simultaneamente”. A exigência de prova depende, portanto, de quem está sendo acusado.
Quando a acusação atinge Moraes, o articulista lembra que suspeita não é condenação. Quando atinge Mendonça, a simples existência de um relatório policial basta para antecipar até as consequências penais.
Não existem duas Polícias Federais. Existe um critério político diferente para avaliar os documentos da mesma instituição.
Uma disputa dentro do aparelho de Estado
A situação torna essa confiança ainda mais absurda.
O relatório contra Mendonça foi produzido no meio de um conflito envolvendo justamente a condução das investigações relacionadas ao Banco Master. A PF acusa o ministro de ultrapassar limites e interferir em atribuições policiais. Mendonça, por sua vez, entrou em choque com Moraes, cuja situação passou a ser discutida depois das revelações envolvendo Daniel Vorcaro.
Não há nenhum observador neutro nessa história.
A direção da PF possui seus próprios interesses. Ministros do Supremo defendem suas atribuições e posições. Procuradores possuem seus interesses. Cada setor da cúpula do Estado procura preservar seu poder diante dos demais.
É perfeitamente possível que um deles revele fatos verdadeiros sobre o outro.
Um ministro bolsonarista pode expor corretamente uma irregularidade de Moraes. A Polícia Federal pode encontrar uma irregularidade cometida por Mendonça. Moraes pode denunciar uma atuação abusiva de um adversário.
Nada disso transforma qualquer uma dessas partes em representante da verdade.
É justamente a crise entre essas instituições que está trazendo à superfície suas relações, seus métodos e suas disputas internas.
Guimarães prefere apresentar uma história muito mais simples: de um lado, um ministro bolsonarista que comete crimes; do outro, a Polícia Federal que finalmente o desmascara.
Lulinha como salvo-conduto
Há ainda um elemento particularmente útil para essa operação: Fábio Luís Lula da Silva. A possível diferença de tratamento entre Lulinha e políticos da direita. Defender Lulinha não obriga ninguém a confiar na Polícia Federal. Seria justamente o contrário.
A perseguição a Lula deveria ter ensinado que uma investigação criminal pode ser, e é, utilizada como arma política. A esquerda conheceu buscas espetaculares, vazamentos, conduções coercitivas, delações negociadas, acusações reproduzidas pela imprensa e processos dirigidos por autoridades que depois se revelaram profundamente envolvidas na disputa política.
Foi esse mecanismo que Guimarães denunciou quando ele próprio estava sob sua mira. Agora, a presença de “Lulinha” na história serve para dar à operação contra Mendonça uma aparência progressista. O raciocínio passa a ser simples: se a PF diz que o filho de Lula foi prejudicado, então o relatório deve estar correto. Mas não funciona assim.
Em 2017, quando agentes da PF entraram em sua casa para descobrir sua fonte, Guimarães compreendeu perfeitamente que a polícia podia atuar politicamente.
Em 2026, diante de André Mendonça, a instituição reaparece em seu artigo como “a Corporação”, produtora de uma verdade que já permitiria falar em crimes, perda do cargo e cadeia.
A Polícia Federal não mudou de natureza. Mudou o alvo.





