O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou, durante sabatina no Jornal Nacional, da Rede Globo, na noite de sexta-feira (28), que o médico Cláudio Luiz Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), será seu ministro da Saúde caso seja eleito. É o primeiro nome de um eventual governo apresentado oficialmente pelo candidato.
“Conversei com o Dr. Cláudio Lottenberg, que vai ser o meu ministro da Saúde, uma pessoa preparada que vai poder adotar as melhores práticas [do setor] privado”, declarou Flávio.
Segundo o candidato, Lottenberg já havia recebido e aceitado o convite. “Quero agradecer ao doutor Cláudio Lottenberg por aceitar esse convite para ser o meu ministro da Saúde. Eu acho que é uma pasta importante que a população leva muito em consideração, quem precisa do SUS, quem encontra muita dificuldade”, afirmou.
O anúncio surgiu quando Flávio respondia a uma pergunta sobre meio ambiente. Depois de defender investimentos em saneamento básico, passou a falar sobre saúde pública e prometeu levar métodos do setor privado para o Sistema Único de Saúde (SUS).
“Eu quero falar para você hoje, que tem dificuldade de achar um médico numa UBS, você que não tem na hora de pegar o seu filho e levar com febre, passando mal pra uma unidade de saúde perto da sua casa, você não encontra remédio… Eu quero falar para você que eu vou enfrentar essa situação como prioridade no meu governo. Eu vou transformar a saúde pública numa saúde de qualidade. SUS vai ser moderno”, disse.
Após a entrevista, Lottenberg divulgou uma nota sobre o convite.
“Assumo esta missão sem espírito de disputa, com a convicção de que a saúde de um povo não pertence a um governo nem a um campo político, e sim às pessoas, sobretudo às que mais dependem dela. Meu compromisso é com um sistema mais humano, mais eficiente e mais próximo de quem precisa, e pretendo trabalhar com todos os que queiram somar. É a isso que me dediquei a vida inteira, e é para isso que estou pronto”, declarou.
Presidente da Conib
Flávio Bolsonaro entregou seu primeiro compromisso ministerial ao presidente de uma das principais organizações do lobby sionista no Brasil.
Lottenberg preside a Conib, entidade que atua sistematicamente em defesa de “Israel” e que acumula representações e ações contra adversários do sionismo no País. O Partido da Causa Operária (PCO), devido à defesa aberta da Palestina e da resistência palestina, tornou-se seu principal alvo.
O médico também preside o Conselho Deliberativo do Einstein Hospital Israelita e o Instituto Coalizão Saúde, que reúne empresas e entidades do setor privado. Foi secretário municipal de Saúde de São Paulo em 2005, durante a gestão de José Serra (PSDB), e participou de conselhos federais nos governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Michel Temer.
Nascido em São Paulo, em 1960, Lottenberg formou-se em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 1984, onde posteriormente concluiu mestrado e doutorado em Oftalmologia.
Perseguição ao PCO
A Conib presidida por Lottenberg está na linha de frente da ofensiva judicial contra o PCO por causa de suas posições sobre a Palestina.
Em maio deste ano, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO e candidato à Presidência, e o dirigente Henrique Áreas tornaram-se réus depois de uma representação da Conib. A acusação de antissemitismo teve como base manifestações políticas contra o Estado de “Israel” e em defesa da resistência palestina.
A Conib e outras entidades do lobby sionista apresentaram sucessivas denúncias contra o Partido e seus dirigentes por suas posições contra o genocídio em Gaza, contra a ocupação da Palestina e em defesa do direito dos palestinos de resistir.
Ao comentar os processos em maio, Pimenta afirmou que todos os inquéritos a que respondia naquele momento por essa questão haviam começado a partir de iniciativas da Conib.
“Todos os inquéritos que eu respondi até agora têm origem na Conib. Todos”, disse.
O dirigente do PCO classificou as ações como uma tentativa de tornar ilegais as críticas ao sionismo e transformar a defesa da Palestina em caso de polícia. Em outra ocasião, afirmou que ele e o Partido chegaram a responder a 12 processos simultaneamente, dos quais dois haviam sido arquivados, sendo a maioria relacionada à questão palestina.
Em um desses processos, segundo Pimenta, o Ministério Público chegou a pedir o fechamento definitivo dos órgãos do PCO na Internet e uma indenização de R$240 milhões.
É o presidente dessa organização que Flávio Bolsonaro acaba de escolher para comandar uma das principais pastas de um eventual governo.
A família Bolsonaro mantém há anos uma política de alinhamento com “Israel”. Com Lottenberg, Flávio avança um passo: em vez de limitar-se às declarações de apoio ao Estado sionista, abre diretamente seu futuro ministério para um dos principais dirigentes do sionismo brasileiro.
De MAGA a MIGA
Flávio Bolsonaro segue uma política que já trouxe muitos problemas para seu principal modelo político internacional, Donald Trump.
O atual presidente dos Estados Unidos construiu sua base sob as palavras de ordem MAGA — Make America Great Again — e America First, apresentando-se como adversário das guerras externas promovidas por Washington. No governo, porém, aprofundou o alinhamento com “Israel” e entrou em choque com setores que haviam apoiado sua volta à Casa Branca.
A guerra contra o Irã levou essa crise a outro patamar. Antigos aliados e figuras influentes entre os apoiadores de Trump, como Tucker Carlson, Candace Owens, Alex Jones e Megyn Kelly, passaram a atacar sua política externa e acusá-lo de abandonar o America First em benefício de “Israel”.
Daí surgiu, dentro da própria direita norte-americana, a provocação de que MAGA havia virado MIGA — Make Israel Great Again.
Trump reagiu atacando antigos apoiadores. Em abril, chamou Carlson, Kelly, Owens e Jones de pessoas de “baixo QI”, “estúpidas”, “malucas” e “encrenqueiras”. No mesmo período, sua desaprovação chegou a 57%.
Tucker Carlson acusou diretamente o governo de entrar em uma guerra que Trump havia prometido evitar. Ao ser perguntado sobre a razão do ataque ao Irã, respondeu: “porque Israel quis fazer isso. Eles escolheram o momento. Ninguém contesta isso”.
Candace Owens, que durante anos cresceu a audiência entre os apoiadores de Trump, chegou a pedir sua destituição. Alex Jones também acusou o presidente de abandonar o America First para participar de mais uma guerra no Oriente Próximo.
A crise atingiu até o governo. Joe Kent, então diretor do Centro Nacional de Combate ao Terrorismo, renunciou e declarou que os Estados Unidos haviam iniciado a guerra devido à “pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”.
O desgaste foi especialmente forte entre os republicanos mais jovens. Pesquisa do Pew Research Center realizada em março mostrou que 85% dos republicanos com 50 anos ou mais apoiavam o ataque ao Irã. Entre aqueles de 18 a 49 anos, o índice caía para 58%.
A experiência de Trump mostra o preço que pode ter a submissão ao lobby sionista. Flávio Bolsonaro, contudo, resolveu começar sua campanha ministerial justamente entregando espaço a esse setor.





