No artigo Chega de fim do mundo, a gente quer é imaginar o começo – por uma plataforma política da imaginação!, publicado em 27 de agosto de 2026, José Paulo Guedes Pinto e Taylisi de Souza Corrêa Leite apresentam o livro Imaginações Pós-Capitalistas. A proposta é combater o pessimismo da esquerda por meio de oficinas e exercícios destinados a imaginar como seriam o trabalho, a cidade, a família, o Estado e outros aspectos da vida depois do capitalismo.
O resultado consegue ser mais atrasado que o velho socialismo utópico. Robert Owen acreditava que seria possível demonstrar a superioridade de uma sociedade cooperativa por meio de comunidades-modelo. Tentou reorganizar materialmente a produção, a educação e a vida social. Seu método era limitado porque não resolvia a questão do poder político. Dois séculos depois, o “pós-capitalismo” apresentado pelos autores oferece como experiência transformadora estudantes queimando uma lista de chamada.
O artigo conta que, em uma oficina, “os estudantes queimaram a lista de chamada da disciplina em que estavam envolvidos e criaram um ‘manifesto anti-escola’”. Segundo os autores, nessas experiências os jovens “desbloquearam uma parte adormecida do cérebro” e o processo teve “um caráter terapêutico e político”.
Marx e Engels superaram o socialismo utópico mostrando que o problema não era inventar uma sociedade ideal, mas descobrir na sociedade existente a classe capaz de derrubar a velha ordem. Pinto e Leite fazem o caminho inverso: depois de quase dois séculos de luta operária, revoluções, retornam à utopia, só que numa versão ainda mais pobre. A própria atividade de imaginar passa a ser tratada como ação política.
Imaginar já seria organizar
Os autores afirmam que “o processo de imaginar coletivamente já é, em si mesmo, uma forma de organização e de construção de contra-hegemonia cultural”. É aí que a brincadeira de oficina vira concepção política. A consciência política não nasce de uma atividade terapêutica destinada a “desbloquear” a imaginação, mas da luta entre interesses sociais opostos.
Imaginar transporte gratuito não organiza os trabalhadores dos transportes. Imaginar moradia para todos não expropria uma incorporadora. Imaginar uma vida sem patrões não tira uma fábrica das mãos do capitalista. Queimar uma lista de chamada não altera a propriedade de uma escola, muito menos a estrutura de classes da sociedade.
O próprio artigo reconhece que “é uma ilusão pensar que os fragmentos imaginativos podem ser simplesmente somados ou replicados por contágio espontâneo” e que “a totalidade capitalista não é um agregado de micro-utopias, mas uma estrutura de poder”. Ora, se é uma estrutura de poder, é preciso discutir o poder.
Quem controla o Estado e detém os meios de produção?
O artigo chega à questão e recua.
Programa? Melhor imaginar
Essa fuga é apresentada como qualidade. Os autores dizem que o livro “não oferece um programa pronto” e que “a falta de uma agenda programática perfeitamente desenhada, longe de ser uma fraqueza, é vista como um convite à experimentação concreta”.
Não se chega ao socialismo imaginando como as pessoas viverão daqui a cem anos. É enfrentar o aparelho repressivo da burguesia, expropriar os grandes capitalistas, estatizar os bancos, organizar um governo dos trabalhadores, etc.
Essas questões não podem ser substituídas por perguntas como “como fica a arte depois do fim do capitalismo?” ou “é possível viver sem supermercados?”. Quem vai tomar o poder? A classe operária, aliás, praticamente desaparece do artigo. Em seu lugar aparecem “jovens”, “comunidades”, “afetos”, “cidadania”. Mas capitalismo não é um estado de espírito. Sem apontar a classe capaz de retirar o poder dos capitalistas, o “pós-capitalismo” vira literatura sobre uma sociedade cuja chegada ninguém sabe explicar.
Dissolver palavras não dissolve a realidade
O livro também pretende questionar “a nação, o estado e trabalho como categorias centrais, justamente os pilares que a obra se esforça para dissolver”. O problema é que dissolver uma categoria num livro não dissolve a relação social que lhe deu origem.
O imperialismo não desaparece porque se deixou de falar em nação. A exploração não desaparece porque o trabalho deixou de ocupar o centro da teoria. O Estado não desaparece porque uma oficina imaginou um “horizonte pós-estatal”.
Nenhuma imaginação vai dissolver o poder real da burguesia.
O problema nunca foi falta de imaginação
Os autores atribuem parte do avanço da extrema direita ao fato de ela ter ocupado “o território da imaginação, oferecendo sonhos concretos, narrativas afetivas e promessas de futuro”. Daí a conclusão de que a esquerda deveria disputar esse terreno, o que é ridículo.
Mas a extrema direita não avança porque sonha melhor. Ela possui dinheiro, organizações, setores da burguesia, apoio de grandes empresários e relações com o aparelho de Estado. Enfrentá-la não é uma competição para descobrir quem produz a fantasia mais atraente.
O capitalismo também não permanece de pé porque os trabalhadores não conseguiram imaginar transporte gratuito, moradia digna, jornada menor ou uma vida sem patrões. Não é preciso uma oficina universitária para descobrir que seria melhor trabalhar menos e viver melhor.
O obstáculo é material, é concreto: bancos, indústrias, terras, transportes e grandes redes comerciais têm donos, e esses donos dispõem de um Estado para defender seus interesses.
O capitalismo não precisa ser imaginado para fora da existência. Precisa ser derrubado e um programa revolucionário é uma coisa séria, não uma maluquice com cheiro de movimento hippie.




