No artigo Diante das guerras: militarismo e masculinismo na esquerda, publicado no sítio Quilombo Invisível em 18 de junho de 2025, Agnes Oliveira pretende criticar um tal “militarismo” em setores da esquerda. Para isso, mistura análise política, crítica ao capitalismo, feminismo, psicanálise e teoria crítica. Conceitos como “masculinismo”, “economia libidinal” e “pulsão de morte” acabam substituindo a análise concreta da guerra e servindo como explicação para fenômenos políticos completamente diferentes.
A contradição aparece logo no começo. A autora registra que “Israel” atacou o Irã, reconhece o apoio dos Estados Unidos e observa que “não é segredo, aliás, que Netanyahu se utiliza das guerras para se manter no poder e escapar da possibilidade de ser condenado e preso”. Há aí, concorde-se ou não, uma explicação política: existem governos, Estados e interesses concretos.
Logo depois, porém, a guerra passa a ser “ao mesmo tempo um produto e um meio da intensificação da lógica de aniquilação não só do Estado de Israel, mas global e autodestrutiva do próprio capitalismo”. Em seguida, aparecem o “masculinismo de crise, o militarismo sacrificial e sua economia libidinal subjacente”.
Qual é, afinal, a explicação da guerra? O papel dos Estados Unidos e de “Israel”? Os interesses de Netaniahu? Ou uma suposta “economia libidinal”? O artigo salta de uma explicação para outra sem demonstrar como essas categorias explicam concretamente o ataque israelense.
Um conceito que serve para tudo
Agnes Oliveira argumenta que “o masculinismo não diz respeito apenas aos ‘homens’ como indivíduos empíricos”. Essa definição permite que a categoria seja estendida a praticamente qualquer pessoa, organização ou fenômeno político.
O militarismo seria masculinista. O nacionalismo seria masculinista. A direita seria masculinista. Setores da esquerda também. O governo israelense e o iraniano aparecem dentro da mesma dinâmica. A categoria deixa de distinguir os fenômenos e passa apenas a reuni-los sob um mesmo nome.
A coisa fica ainda mais arbitrária quando o artigo atribui motivações psicológicas aos adversários. Segundo a autora, o apoio de setores da esquerda à resistência militar seria uma “compensação da sua própria impotência política diante do genocídio em Gaza”.
A posição dos que defendem o Irã deixa de ser explicada por sua avaliação da luta contra o imperialismo e passa a ser tratada como sintoma psicológico. Mas como demonstrar que alguém apoia a resistência iraniana por “impotência” ou por determinado “investimento libidinal”? Não há demonstração. A teoria simplesmente presume a motivação que pretende provar.
É nesse terreno que Agnes Oliveira coloca lado a lado “Do Aiatóla Khamenei à Netanyahu, da Guarda Revolucionária às Forças de Defesa de Israel”, em vez de estabelecer a necessária e fundamental diferença entre as partes.
“Israel” é o agressor. É armado, financiado e protegido pelas principais potências imperialistas e funciona como instrumento de sua política no Oriente Próximo. O Irã é o país agredido e adota, neste momento, a posição mais revolucionária diante do imperialismo de todos os países oprimidos.
Essa diferença determina a posição que a esquerda deve adotar.
A esquerda deve defender o Irã
A esquerda melindrada não quer aparecer apoiando o regime iraniano, sua política interna, sua religião oficial ou sua burguesia. Mas a questão não é saber se o governo iraniano merece a simpatia da esquerda. A questão é saber quem agride e quem é agredido.
Diante de uma guerra de “Israel” e dos Estados Unidos contra o Irã, a esquerda deve estar do lado do Irã e de sua vitória contra os agressores. Isso vale independentemente do regime existente no país. Uma derrota do Irã diante de “Israel” e dos Estados Unidos fortaleceria o imperialismo em toda a região e colocaria outros povos sob ameaça ainda maior.
É justamente essa distinção que desaparece no artigo.
Agnes critica a esquerda que apresenta a guerra como uma luta anti-imperialista e fala em “belicismo moral”. Mas resistir a uma agressão militar não é militarismo. Um povo ou um país atacado precisa se defender. Condenar igualmente quem lança a agressão e quem responde a ela é apenas uma forma aparentemente radical de neutralidade.
E neutralidade entre opressor e oprimido favorece sempre o primeiro.
Quem é atacado deve fazer o quê?
Essa é a pergunta que o artigo não responde. Se um país é bombardeado, resistir militarmente é “militarismo”? Se não é, onde Agnes estabelece a diferença? Uma população submetida a uma agressão estrangeira reproduz necessariamente um pecado “nacionalista” quando tenta defender seu território?
A dificuldade fica ainda maior porque a autora sustenta que “as lutas de libertação nacional fizeram sentido e se concluíram historicamente”.
A afirmação entra em choque com o próprio tema de seu artigo. A Palestina continua submetida à ocupação, expulsão e massacre. O Irã permanece submetido a sanções, sabotagens, ameaças e ataques. Se a opressão nacional não terminou, por que a luta contra ela teria se encerrado?
O texto ainda procura aproximar o anti-imperialismo da esquerda da extrema direita pró-Rússia. Mas o fato de algum setor da direita se opor, em determinadas circunstâncias, aos Estados Unidos não transforma a luta contra o imperialismo numa política de direita.
A autora não faz uma análise materialista da guerra, transforma relações concretas entre Estados, classes sociais e imperialismo em abstrações psicológicas e culturais. Daí resulta o erro de colocar Khamenei e Netaniahu no mesmo plano.
Esse erro não é apenas teórico. Uma política que condena a soberania dos países oprimidos, sua resistência armada e suas alianças contra o imperialismo, na prática, desarma justamente quem está sendo atacado. O agressor já possui armas, exército e o apoio das maiores potências do mundo.
Na guerra contra o Irã, não existem dois militarismos equivalentes. Existe uma agressão imperialista e existe um país que resiste a ela.
A esquerda deve tomar partido do Irã nessa luta. Derrotar a agressão de “Israel” e dos Estados Unidos é uma derrota para o imperialismo e, portanto, interessa aos trabalhadores e aos povos oprimidos do mundo inteiro.





