Renan Santos, candidato à Presidência pelo Missão e antigo dirigente do Movimento Brasil Livre (MBL), defendeu durante entrevista ao Jornal Nacional a implantação de um regime de exceção nas favelas brasileiras.
A proposta prevê recorrer ao Estado de Defesa em regiões controladas pelo crime organizado. Renan também defende uma política de encarceramento em massa, com a construção de 10 enormes presídios, e toma como exemplo a repressão promovida pelo governo de Nayib Bukele em El Salvador.
No Brasil, uma política desse tipo significaria ampliar enormemente a violência que já é praticada diariamente pela polícia contra a população pobre. As operações policiais nas favelas produzem chacinas, invasões de casas, agressões e assassinatos. Renan propõe dar ao aparato repressivo condições ainda mais amplas para agir nesses bairros.
Trata-se da defesa de um banho de sangue do Estado contra o povo. A proposta não consiste simplesmente em aumentar o policiamento ou endurecer penas. Trata-se de colocar milhões de moradores das regiões pobres sob condições excepcionais e ampliar os poderes do Estado para usar a violência contra eles. É uma política fascista.
A truculência serve também a uma necessidade eleitoral muito concreta. Renan Santos procura disputar uma parcela do eleitorado bolsonarista apresentando-se como um candidato supostamente mais radical e mais disposto a enfrentar o regime político.
Para boa parte desse eleitorado, os Bolsonaro aparecem como políticos antissistema, enquanto o PT é identificado com o próprio regime. Renan procura entrar nesse terreno exibindo-se como um homem disposto a romper regras, desafiar instituições e tomar medidas extremas.
A encenação esbarra, porém, na própria trajetória do candidato.
Renan Santos não é um inimigo do sistema. Sua carreira política foi construída no interior de movimentos impulsionados pela burguesia. Como dirigente do MBL, esteve entre os principais organizadores da campanha de rua que ajudou a preparar o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.
O MBL surgiu a partir do Estudantes pela Liberdade, ligado ao norte-americano Students for Liberty. Essa ONG foi apadrinhada pelos irmãos Koch, bilionários do setor petrolífero dos Estados Unidos e grandes patrocinadores do movimento neoliberal internacional.
Renan foi, portanto, formado politicamente no interior de organizações financiadas por grandes capitalistas e participou diretamente da campanha que derrubou um governo eleito para abrir caminho a uma ofensiva contra os trabalhadores.
Agora, sua candidatura recebe a simpatia declarada de setores do capital financeiro. Não há mistério nisso. Seu programa econômico é exatamente o programa dos banqueiros: redução dos gastos públicos, ataques à Previdência, destruição dos direitos trabalhistas e diminuição dos recursos destinados à população para entregar aos bancos.
O suposto rebelde contra o sistema é, na realidade, o candidato que mais representa o sistema.
A burguesia procura uma alternativa tanto a Lula quanto ao bolsonarismo. Lula mantém vínculos históricos com o movimento operário e uma base eleitoral gigantesca entre os trabalhadores. Não pode aplicar de maneira ilimitada todas as exigências dos grandes capitalistas sem provocar conflitos com essa base.
O bolsonarismo, apesar de sua política de direita, também se transformou em um problema para setores importantes da burguesia. Possui uma base própria e uma direção política que não pode ser inteiramente controlada pelas instituições tradicionais.
Renan Santos apresenta uma vantagem evidente: não possui nenhuma independência desse tipo. Seu programa é totalmente controlado pelo grande capital.
O problema é que isso não ganha eleição.
Para conquistar votos, ele precisa representar outro papel. Precisa parecer um candidato que enfrenta tudo e todos. É daí que surge a demagogia da mão de ferro e do regime de exceção.
Mas é revelador observar contra quem o candidato pretende empregar toda essa força.
Renan não promete poderes extraordinários para enfrentar os poderosos que recebem fortunas em juros da dívida pública. Não fala em colocar o Estado contra os grandes inimigos que exploram os trabalhadores. Não ameaça especuladores nem os grandes grupos econômicos.
O regime de exceção é para a favela.
Sua valentia termina exatamente onde começam os interesses dos ricos.
Na economia, oferece aos banqueiros o ultraneoliberalismo. Na segurança pública, oferece à população pobre a polícia com poderes ainda maiores para prender e matar. As duas coisas fazem parte da mesma política.
Não há qualquer contradição entre o apoio dos grandes capitalistas e a demagogia fascista. Historicamente, os banqueiros e grandes industriais sempre souberam utilizar o fascismo quando precisaram aumentar a exploração dos trabalhadores e esmagar sua resistência.
Foi o que ocorreu na Alemanha. O grande capital alemão sustentou Hitler porque via no nazismo uma força capaz de destruir as organizações operárias, perseguir comunistas e socialistas e impor pela violência uma política favorável aos grandes monopólios.
O fascismo não é uma revolta contra os capitalistas. É uma arma deles.
O aparato repressivo é mobilizado contra os trabalhadores para garantir as condições políticas necessárias ao aumento da exploração. Enquanto os bancos recebem lucros, juros e uma política econômica inteiramente favorável aos seus interesses, o povo recebe repressão.
Renan Santos reproduz essa combinação em escala brasileira. De um lado, um programa econômico feito para agradar a especuladores como George Soros. De outro, a promessa de transformar as favelas em território submetido à força policial.
O candidato tenta vender essa política como rebeldia. Na realidade, trata-se de um playboy profundamente ligado aos interesses da burguesia tentando conquistar a confiança total dos capitalistas e votos suficientes com a promessa de massacrar pobres.





