Certa vez, ao responder a uma crítica de Pelé, Romário disse: “Pelé calado é um poeta”. A frase ficou famosa porque, embora fosse o maior gênio da história do futebol dentro de campo, o Rei nem sempre demonstrava o mesmo talento em suas declarações.
Com Janja ocorre algo parecido, embora sem gênio nenhum para compensar. Janja calada é uma poetisa. Se ficasse quieta, ao menos não criaria novos problemas para Lula e para o PT, já atolados de preocupações por seus próprios erros.
A última demonstração veio após o debate presidencial da Band, realizado no domingo (23). Renan Santos fez uma provocação contra Lula usando Janja como alvo indireto. Disse que o presidente era um “coitado” por “ter que ficar” com ela e, em outro momento, afirmou: “Ou está bêbado ou está com a Janja. Melhor ficar bêbado nessas horas, né, presidente?”.
A provocação pode ser considerada grosseira, ruim ou sem graça. Misógina, porém, não foi. Não houve qualquer ataque às mulheres enquanto mulheres, nem defesa de sua inferioridade. Foi uma crítica pessoal e política do tipo que se faz contra homens e mulheres que ocupam posição pública.
Além disso, o principal alvo era Lula. É ele quem disputa a eleição contra Renan Santos. Janja foi mencionada para atingir o presidente.
Ainda assim, a primeira-dama publicou uma nota acusando de misoginia o sugar baby de banqueiros.
A acusação é particularmente descabida porque a declaração ocorreu em um debate eleitoral.
A campanha é justamente o momento em que candidatos devem ter a maior liberdade possível para criticar seus adversários, autoridades e demais personagens da vida política. Um debate não serve apenas para que os participantes recitem programas previamente preparados. Serve também para o choque de opiniões, para a crítica e para a denúncia dos adversários.
Renan Santos apresentou sua opinião. Poderia ter recebido uma resposta igualmente dura, uma ironia ou qualquer outra crítica. Janja preferiu transformar a provocação em uma acusação de misoginia.
O candidato respondeu:
“Fazer uma crítica política a uma figura pública ser misoginia significa criminalizar todo o debate político que envolva mulheres.”
A resposta está correta.
Se toda crítica feita contra uma mulher puder ser apresentada como misoginia, mulheres que participam da política acabam recebendo uma espécie de imunidade que nenhum homem possui. A discussão deixa de ser sobre o conteúdo do que foi dito e passa a ser sobre a possibilidade de dizer alguma coisa.
É uma política de censura.
Janja conseguiu, assim, oferecer a Renan Santos uma posição politicamente favorável.
Um candidato de direita, bonequinha de George Soros, pôde aparecer como defensor de um direito democrático elementar porque a primeira-dama resolveu tratar uma provocação eleitoral como uma manifestação de ódio contra as mulheres.
A direita não precisou inventar o episódio. Janja entregou o argumento pronto.
Santos pôde responder defendendo o direito de criticar figuras públicas, enquanto a primeira-dama apareceu procurando impor limites ao que pode ser dito em um debate político.
Para Lula e para o PT, o resultado é inteiramente negativo. A nota não enfraqueceu o seu adversário. Deu a ele mais espaço e uma resposta capaz de encontrar apoio entre pessoas que sequer simpatizam com sua candidatura.
O episódio não é apenas produto de uma declaração infeliz de Janja. É expressão de uma política muito disseminada na esquerda pequeno-burguesa.
Uma crítica contra uma mulher torna-se “misoginia”. Uma piada passa a ser apresentada como “violência”. Uma opinião considerada ofensiva transforma-se em motivo para censura, punição ou cancelamento.
Essa política é profundamente antipopular e antidemocrática. É a política identitária, uma política de repressão estatal contra o cidadão comum.
A população está acostumada a criticar políticos. Não aceita facilmente a ideia de que determinadas pessoas devam ficar protegidas de ataques políticos devido ao sexo, à cor ou a qualquer outra característica pessoal.
Quando a esquerda tenta impor esse tipo de policiamento sobre o debate, abre espaço para que a direita faça demagogia com a liberdade de expressão.
Setores que não têm qualquer compromisso real com os direitos democráticos passam a aparecer como seus defensores simplesmente porque encontram pela frente uma esquerda disposta a censurar críticas e opiniões desagradáveis.
É assim que o identitarismo fortalece politicamente a direita.
Depois a esquerda ainda se pergunta quais as causas do crescimento da direita, por que perde rapidamente o eleitorado e parcelas cada vez maiores de trabalhadores votam na direita.
Casos como este ajudam a explicar o problema.
Uma esquerda que se apresenta diante do povo como fiscal da linguagem e do comportamento e procura transformar opiniões políticas em delitos morais inevitavelmente produz rejeição. A direita percebe isso e explora a situação para aparecer como defensora de liberdades que ela própria ataca sem hesitar quando se trata de seus próprios adversários.
Janja poderia ter respondido politicamente a Renan Santos ou simplesmente ignorado uma provocação banal. Preferiu produzir uma acusação de misoginia que deu ao adversário uma boa oportunidade de responder e ganhar terreno.





