A Folha de S.Paulo e O Globo resolveram se apresentar como defensores dos direitos democráticos dos eleitores depois que Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não compareceram ao primeiro debate presidencial das eleições de 2026.
A Folha afirmou que Lula e Flávio deram um “tapa na cara do eleitor”. O Globo declarou que faltar a um debate viola o direito à informação.
A indignação é profundamente hipócrita.
O eleitor realmente tem o direito de conhecer os candidatos, ouvir suas propostas e vê-los confrontar seus adversários. Mas são justamente os grandes órgãos da imprensa burguesa que impedem que isso aconteça.
O debate promovido pela Band havia reservado espaço para apenas seis candidatos: Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury e Romeu Zema. Caiado, Santos e Cury compareceram. Os demais faltaram.
Rui Costa Pimenta, candidato do Partido da Causa Operária, não teve sequer a possibilidade de faltar: foi excluído de antemão. O mesmo aconteceu com candidatos de outros partidos pequenos.
Os jornais reclamam, portanto, que alguns dos escolhidos pela burguesia recusaram o convite, enquanto silenciam sobre os candidatos que a própria burguesia decidiu impedir de falar.
A manipulação começa muito antes do dia da votação.
Os grandes jornais e canais de televisão estabelecem quais candidaturas serão tratadas como importantes. Essas recebem cobertura permanente, entrevistas, manchetes, análises e participação nos principais debates. Outras praticamente desaparecem do noticiário.
Em seguida, surgem as pesquisas eleitorais.
O candidato mantido fora da televisão e dos grandes jornais aparece naturalmente com pouco apoio – quando não é sumariamente descartado pelos entrevistadores, como foi o caso dos candidatos do PCO nas pesquisas da Quaest. O resultado da pesquisa é então utilizado para justificar sua nova exclusão dos debates e acompanhamento da imprensa.
É um mecanismo feito para se reproduzir.
O candidato não aparece porque tem poucos votos e continua com poucos votos porque não aparece.
Depois, os monopólios apresentam esse processo como se fosse uma seleção feita espontaneamente pela população. Claro que não é.
A própria imprensa decidiu previamente quem receberia a oportunidade de falar para milhões de pessoas. É difícil imaginar uma eleição mais desigual.
O editorial de O Globo destacou que os três candidatos presentes no debate somavam menos de 10% das intenções de voto. A intenção era demonstrar o prejuízo provocado pela ausência de Lula e Flávio Bolsonaro.
O argumento, porém, expõe o problema.
Por que as pesquisas devem dar aos jornais o poder de decidir quem merece participar de um debate?
O conjunto dos partidos precisam justamente desses espaços para apresentar seus programas e disputar o apoio da população. Excluir um partido porque ainda não possui uma votação expressiva significa impedir que conquiste essa votação.
A Folha segue a mesma linha ao tratar como dispensável a presença de candidatos considerados eleitoralmente irrelevantes. Mas essa relevância não caiu do céu. Ela é produzida, entre outros fatores, pela própria exposição na imprensa.
Uma candidatura que aparece todos os dias nos principais jornais e emissoras do País não disputa em igualdade de condições com outra que precisa lutar até mesmo para informar à população que existe.
A burguesia transforma essa desigualdade em critério de seleção e depois chama o resultado de democracia.
A participação nos debates não deve depender da opinião do proprietário da emissora. Se um candidato está oficialmente na disputa, o eleitor deve poder conhecê-lo.
Essa é a posição defendida pelo PCO. O Partido já ressaltou que a questão fundamental não é proteger o interesse particular de um partido, mas assegurar ao povo o conhecimento de todas as alternativas apresentadas na eleição. Depois disso, cabe ao eleitor decidir.
O método da imprensa capitalista é o contrário: primeiro elimina uma parte das opções do campo de visão da população e só então pede que ela escolha.
A diferença entre a ausência de Lula e a exclusão de Rui Costa Pimenta e dos demais candidatos deixa isso particularmente claro. Lula foi convidado e decidiu não ir. Rui, Edmilson Costa, Samara Martins, entre outros, não foram convidados. Um recusou uma oportunidade. Aos outros, a oportunidade foi negada.
O PIG tenta transformar a primeira situação em escândalo democrático enquanto considera a segunda perfeitamente normal.
O Globo aproveitou seu editorial para defender também a superioridade do chamado “jornalismo profissional” sobre influenciadores, produtores de conteúdo e programas transmitidos pela Internet.
O discurso serve para sustentar uma velha pretensão do monopólio de propaganda da burguesia: a de que somente eles estariam qualificados para informar a população, a fim de desacreditar e afastar o público dos meios alternativos.
É uma posição bastante conveniente para quem controla a maior emissora e jornais pelo País.
Primeiro, concentra-se o acesso a meia dúzia de participantes do cartel da imprensa burguesa. Depois, escolhem-se os candidatos que aparecerão neles. Por último, afirma-se que esses mesmos meios são indispensáveis para que o eleitor possa conhecer adequadamente a eleição.
O monopólio econômico converte-se diretamente em poder político.
Uma grande rede de televisão pode colocar um candidato diante de milhões de pessoas numa única noite – quem não se lembra do debate Lula vs. Collor em 1989, manipulado pela Globo? Um grande jornal pode transformar diariamente suas declarações em assunto nacional. Nenhum partido pequeno possui algo remotamente semelhante.
Quem controla esses meios consegue estabelecer quais candidaturas parecem importantes, quais assuntos serão discutidos e até quais opções serão vistas pela população como possíveis.
Não é preciso adulterar uma urna para interferir profundamente numa eleição. Basta controlar o acesso aos eleitores. Antes do dia da votação a eleição já está em grande medida decidida.
Os grandes partidos entram na campanha com enorme financiamento, estruturas nacionais e acesso permanente à imprensa. Os pequenos entram submetidos a um cerco.
No papel, todos disputam a mesma Presidência. Na prática, alguns disputam diante de milhões de espectadores, enquanto outros são condenados a falar para quem conseguirem alcançar por seus próprios meios.
Chamar isso de competição eleitoral em condições democráticas é uma ficção.
Os grandes órgãos de imprensa possuem capacidade para fabricar a própria noção de “candidato viável”. Dão exposição aos escolhidos, medem posteriormente sua popularidade e utilizam os números obtidos para continuar oferecendo exposição aos mesmos nomes.
O resultado é apresentado como vontade do eleitor. Na realidade, o eleitor já recebeu uma lista previamente filtrada pelo grande capital. É justamente por isso que o Partido da Imprensa Golpista possui tamanho peso nas eleições brasileiras.
O problema não será resolvido apenas convencendo Lula ou Flávio Bolsonaro a comparecer aos próximos debates.
É necessário acabar com o poder de empresas privadas de selecionar quais candidatos poderão participar. Todos devem ter espaço.
Se há dez, 12 ou 15 candidatos registrados, cabe aos organizadores encontrar uma forma de realizar o debate com todos. O que não pode ocorrer é esse monopólio assumir para si a função de eliminar candidaturas antes que o povo tenha a oportunidade de avaliá-las.
Também é preciso colocar em questão o próprio monopólio dos meios de comunicação.
Não há nenhum rastro de “democracia” quando um cartel controla os principais instrumentos pelos quais a população recebe informação política.
Esse poder permite esconder candidaturas, promover outras e interferir decisivamente na formação do voto. A verdadeira democratização da imprensa exige romper esse monopólio.





