O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, afirmou que a investigação da Polícia Federal contra o Partido toma como suspeitas contratações que não são proibidas pela lei. O inquérito envolve o escritório do advogado que atende o PCO e quatro gráficas.
Durante seu programa, Pimenta explicou que uma das acusações é a de que recursos partidários teriam sido desviados para o escritório de advocacia que presta serviços ao PCO.
“Nós estamos sendo acusados de ter desviado o dinheiro para o escritório de advocacia do advogado do PCO, que é militante do PCO.”
Ele argumentou que não há nada de anormal em uma organização política confiar seus assuntos jurídicos a um advogado ligado ao próprio partido.
O mesmo, afirmou, vale para as quatro gráficas incluídas na investigação. Todas eram dirigidas por militantes. Apenas uma envolvia um familiar seu, o genro, que também fazia parte do PCO.
“Das quatro gráficas que estão sendo colocadas no inquérito, uma delas, o titular era meu genro, que era militante do PCO. Todas as gráficas, os donos, eram militantes do PCO.”
Para Pimenta, esse é o problema fundamental do inquérito: a relação pessoal ou política entre quem contrata e quem é contratado está sendo apresentada como indício de irregularidade, embora não constitua crime.
“O partido pode contratar o familiar de qualquer dirigente do partido. Não é crime. Nós estamos sendo investigados por uma acusação que não é crime.”
Rui também rejeitou a ideia de que teria decidido sozinho a destinação dos recursos. Disse que ele e o tesoureiro da época são os responsáveis legais, mas que o PCO possui organismos coletivos que decidem a política e a administração partidárias.
“Eu sou o responsável legal. Eu e o tesoureiro do partido na época somos os responsáveis legais. Mas daí presumir que eu tomei a decisão sozinho não faz o menor sentido.”
Segundo ele, o Comitê Central se reúne mensalmente e a Comissão Executiva, quase todos os dias.
“O PCO tem direção. Nós temos um Comitê Central, o Comitê Central se reúne todo mês. Nós temos uma Comissão Executiva, se reúne quase todo dia. É um partido que funciona como órgão colegiado.”
A explicação foi dada ao comentar um editorial do Estado de S. Paulo que apresenta Rui como uma espécie de “dono” da legenda e descreve o PCO como um empreendimento sustentado por dinheiro público.
O presidente do Partido respondeu também à caracterização das gráficas como empresas destinadas a beneficiar integrantes da sigla. De acordo com seu relato, elas foram criadas pelos próprios militantes para atender às necessidades do PCO e de movimentos operários e populares.
Rui disse que essas gráficas já imprimiram materiais para movimentos de solidariedade à Palestina, inclusive gratuitamente, e para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
“Se aparecer aí um grupo de trabalhadores e falar ‘vocês rodam o panfleto aqui?’, a gráfica vai rodar o panfleto. Porque ela é uma gráfica que existe para servir o movimento operário.”
Ele negou que seus responsáveis tenham acumulado riqueza com essa atividade.
“Não tem nenhum empresário, ninguém tem dinheiro, ninguém está rico.”
O custo da própria defesa judicial apareceu no programa como outro aspecto do problema. Pimenta contou que, depois da operação da Polícia Federal, procurou advogados e encontrou honorários a partir de R$100.000,00 entre profissionais de maior projeção.
Pouco antes, Rui havia mencionado o caso de um funcionário de universidade processado e posteriormente demitido. Sem salário, destacou, um trabalhador nessa situação não tem as mesmas condições de contratar uma defesa cara.
“Para uma pessoa pobre, R$5.000,00 já é uma fortuna.”
Para mostrar por que é falsa a imagem do PCO como um negócio criado para obter recursos públicos, ele recorreu à trajetória da Causa Operária desde a época em que ainda era uma tendência do PT.
Um dos episódios lembrados foi a eleição municipal de Diadema. Segundo ele, a Causa Operária era a maior força dentro do diretório local do PT quando surgiu a discussão sobre quem seria o candidato à prefeitura.
A direção petista pretendia lançar um advogado. A corrente de Rui se opôs e defendeu o metalúrgico Gilson Menezes.
“A gente falou: ‘não vamos lançar advogado, vamos lançar um diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, que é um operário, vamos lançar um operário’.”
Rui contou que Gilson não queria inicialmente ser candidato. Sentia-se intimidado pela disputa eleitoral justamente por ser um operário sem a formação e a projeção dos nomes que normalmente apareciam na política.
Ele e outro dirigente conversaram com Gilson durante aproximadamente duas horas até convencê-lo.
“Conversamos com ele umas duas horas e finalmente ele se convenceu a sair candidato.”
Gilson Menezes acabou eleito prefeito de Diadema. Conforme o relato de Pimenta, foi o único prefeito conquistado pelo PT em todo o País naquela eleição.
A lembrança antecede em muitos anos a existência do fundo eleitoral e a própria legalização do PCO.
Em 1990, a Causa Operária foi expulsa do PT. O partido somente seria legalizado em 1996. Rui descreveu o PT daquele período como uma espécie de “Igreja Católica da esquerda”: ficar fora dele significava, na prática, um enorme isolamento.
“Se era expulso do PT, você ficava sozinho que nem um cachorro.”
A expulsão ocorreu justamente quando o movimento operário entrava em forte recuo. Rui afirmou que as demissões em massa do governo Collor atingiram duramente uma corrente cuja principal base estava entre operários e sindicalistas.
Os sindicatos se esvaziaram e a Causa Operária também perdeu espaço na Central Única dos Trabalhadores (CUT). O grupo, segundo Rui, chegou a ter cerca de meia dúzia de militantes liberados para a atividade política sem dinheiro sequer para pagar um salário mínimo.
“Uma meia dúzia de companheiros que estavam liberados para atividade política, você não tinha nem como pagar o salário mínimo de dinheiro para o pessoal. Nada, zero.”
Foi nessas condições que a corrente atravessou os anos seguintes até conseguir legalizar o PCO.
Pimenta recordou também a dificuldade para produzir os primeiros programas do horário eleitoral gratuito. Os militantes não sabiam editar vídeo e não possuíam equipamento profissional.
A solução foi comprar dois videocassetes e utilizar uma câmera Super-VHS. Três ou quatro militantes receberam a tarefa de aprender a fazer o programa.
“Ninguém nunca tinha feito nada disso. Pegamos os três ou quatro militantes e falamos: ‘olha, pessoal, vocês vão ter que aprender a fazer’.”
Rui lembrou que esse material ainda pode ser encontrado no YouTube. Reconheceu que a qualidade era ruim, mas disse que, para um grupo sem dinheiro, equipamento ou experiência, produzir o programa já era uma dificuldade enorme.
Em 2002, o PCO resolveu dar outro passo que parecia desproporcional às suas condições materiais: lançar um candidato à Presidência da República.
“O partido não tinha tamanho, não tinha estrutura. Dinheiro, então, nem falar. Tinha nada.”
A própria direção, contou Pimenta, discutia se seria possível realizar uma campanha presidencial.
“A hora que a gente discutiu, a maioria olhou e falou assim: ‘nossa, será possível lançar um candidato a presidente?’”
Para Rui, é essa história — da atuação operária em Diadema à expulsão do PT, dos anos de isolamento à legalização, dos programas feitos com dois videocassetes à candidatura presidencial — que contradiz o retrato do PCO como uma máquina criada para receber recursos eleitorais.
Segundo ele, durante décadas a grande imprensa simplesmente não dava importância ao partido.
“Quando a gente não era nada, a gente não merecia editorial. Eles simplesmente ignoravam a existência do PCO.”
Na avaliação de Pimenta, a mudança de tratamento tem uma explicação: os ataques apareceram quando o partido passou a incomodar politicamente.
“A hora que eles começam a falar mal de você, você pode ter certeza que é porque você já é alguma coisa e eles estão se sentindo incomodados.”





