O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, analisou nessa quinta-feira (20) a crise internacional, com destaque para a instabilidade no Oriente Médio, a guerra na Ucrânia e a deterioração dos regimes políticos na América Latina. No Análise Internacional, transmitido pelo Diário Causa Operária em conjunto com o canal Arte da Guerra, ele também tratou do bloqueio contra Cuba, do acordo entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a OpenAI e da operação da Polícia Filial contra o PCO.
A edição contou, como de costume, com a participação do analista militar Robinson Farinazzo, que discutiu principalmente os aspectos militares dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
Sobre a Ucrânia, Rui avaliou que o enfraquecimento de Kiev prossegue, embora num ritmo muito mais lento do que se poderia imaginar no início da guerra. Para ele, a postura cautelosa adotada pela Rússia e o enorme apoio militar dado pelas potências imperialistas ao governo ucraniano prolongaram o conflito.
“Isso aqui é um filme em câmera lenta. A Ucrânia vai caindo assim numa lentidão inacreditável. Eu acho, a gente já comentou bastante isso aqui, até certo ponto natural. Os russos não querem arriscar muito. Eles têm uma posição muito conservadora. O comandante está chamando a atenção de que eles intensificaram um pouco a ofensiva contra a Ucrânia. Isso se deve aos ataques contra civis dos ucranianos, que de fato é uma coisa que necessita uma resposta mais dura.”
No começo da guerra, lembrou, havia a expectativa de que a situação pudesse ser definida rapidamente. O apoio recebido pela Ucrânia e a própria mudança da política militar russa alteraram esse quadro. A guerra passou, nas palavras de Rui, a avançar “em câmera lenta”, obrigando a acompanhar os acontecimentos no terreno até que surja uma definição mais clara.
A discussão passou então ao Líbano, onde continua a pressão para que o Hesbolá entregue suas armas. Pimenta caracterizou o atual governo libanês como subordinado ao imperialismo e afirmou que uma das finalidades de sua instalação foi justamente avançar contra a organização que resistiu às sucessivas invasões israelenses.
https://www.youtube.com/watch?v=w3CAsXoCxwM&pp=0gcJCRMMAYcqIYzv
“O governo libanês é um governo títere. Ele foi imposto pelos Estados Unidos, pelo imperialismo em geral. E um dos objetivos da imposição desse governo era a tentativa de desarmar o Hesbolá. Com a guerra dos Estados Unidos contra o Irã, nós tivemos aí uma oportunidade para Israel realizar uma ofensiva no Líbano, quando o principal aliado do Hesbolá estava paralisado com o esforço de enfrentar a máquina de guerra imperialista.”
A tentativa, entretanto, não conseguiu eliminar a resistência libanesa. Rui comparou a situação com Gaza e o Iêmen, onde as ofensivas de “Israel” e seus aliados tampouco conseguiram destruir as organizações que enfrentam militarmente o imperialismo.
Uma reportagem da RT mencionada durante o programa trouxe declarações de moradores de regiões libanesas atingidas pelos bombardeios israelenses. Eles rejeitaram a ideia de entregar as armas do Hesbolá em troca de recursos internacionais para a reconstrução.
Para Rui, a reação decorre do próprio papel desempenhado pela organização na defesa do território libanês.
“Me parece natural que o governo perca. É um governo de humilhação nacional mesmo, é um governo títere, é um governo antinacional, e o Hesbolá é reconhecido por toda a população do Líbano como sendo uma força que defende o País contra o seu pior inimigo na região, que é o sionismo.”
A crise entre Turquia e “Israel” foi analisada a partir das transformações provocadas pela ofensiva palestina de 7 de outubro de 2023. Pimenta considera que aquele acontecimento rompeu o equilíbrio existente até então e obrigou os diferentes governos da região a se movimentarem.
“O que vem acontecendo no Oriente Médio, a partir de 7 de outubro de 2023, tem levado a uma crescente desestabilização política de todos os países. Quer dizer, a ação do Hamas e o enfrentamento do Hamas na Faixa de Gaza fez com que as peças do tabuleiro político que estavam todas paradas fossem obrigadas a se mexer.”
A guerra contra o Irã e a derrubada do governo de Bashar al-Assad na Síria foram apontadas como acontecimentos diretamente relacionados a essa desestabilização.
No caso sírio, a deposição de Assad não levou à pacificação prometida. “Israel” avançou sobre novas partes do território, os Estados Unidos mantiveram suas tropas no País e as forças curdas apoiadas pelo imperialismo permaneceram organizadas.
Ao mesmo tempo, a Turquia ampliou sua influência sobre o novo governo de Damasco. É justamente aí, avaliou Rui, que se encontra uma das origens do atrito crescente entre Ancara e “Israel”.
“O problema da Turquia é que o imperialismo já começou o trabalho de desestabilização do governo. Embora esse seja um governo direitista e pró-imperialista, inclusive, ele é muito ligado à Turquia. E o imperialismo não quer deixar que a Turquia ocupe um espaço político desse tamanho, dessa magnitude. Isso desequilibra bastante as forças na região. Acho que a tensão que vem crescendo entre Israel e a Turquia tem a ver com isso.”
Pimenta não afirmou que uma guerra direta entre os dois países seja inevitável, mas considerou que ela passou a fazer parte das possibilidades abertas pela crise.
A situação regional, ressaltou, já é muito diferente daquela existente antes de outubro de 2023. O Iêmen adquiriu uma importância militar que não possuía anteriormente, o Hesbolá demonstrou sua capacidade de resistência e o Irã exibiu um potencial bélico capaz de modificar os cálculos das potências imperialistas.
“Nós temos que entender bem que, depois do dia 7 de outubro, nós temos uma mudança numa série de parâmetros do relacionamento entre os países aí. Por exemplo, o Iêmen apareceu como uma potência militar, atacando navios relacionados com ‘Israel’. O Irã mostrou o seu potencial bélico, o Hesbolá mostrou também a sua capacidade bélica. Quer dizer, nós temos uma situação inteiramente nova.”
A definição da guerra entre os Estados Unidos e o Irã terá, para Rui, grande peso sobre a reorganização futura do Oriente Médio. A vulnerabilidade das bases militares norte-americanas no Golfo Pérsico também apareceu no debate como um elemento importante da nova relação de forças.
O programa tratou em seguida de Bangladexi, onde foi realizada uma eleição depois da derrubada do governo anterior e da proibição da organização política ligada à antiga direção do país.
Rui observou que a votação ocorre dentro do regime construído pelo próprio golpe de Estado. Para ele, intervenções desse tipo fazem parte da ofensiva imperialista contra países que mantêm relações com Rússia, China e Irã.
Na América Latina, o Equador serviu de exemplo para uma tendência semelhante. Luisa González, dirigente vinculada ao partido do ex-presidente Rafael Correa, teve sua candidatura impugnada e anunciou ter sido informada da abertura de uma nova investigação.
https://causaoperaria.org.br/2026/aliada-de-correa-tem-candidatura-impugnada-pela-ditadura-equatoriana/
Rui relacionou a perseguição contra a dirigente equatoriana à decomposição dos regimes políticos em todo o continente.
“Esse caso do Equador, que já virou rotina, mostra a desagregação do regime político em todos os países da América do Sul. Quando você não tem eleição fraudada, você tem pessoas que são impedidas de participar, governos que são derrubados e tal. Toda essa movimentação mostra que a burguesia e o imperialismo não conseguem controlar a situação de uma maneira normal. Então, eles apelam para esses recursos.”
O Brasil, ressaltou, não está fora desse processo. A multiplicação de cassações, investigações, proibições e interferências judiciais sobre a disputa política indica, para o presidente do PCO, uma tendência geral ao regime de exceção.
Foi nesse contexto que entrou em discussão o acordo estabelecido entre o TSE e a OpenAI para as eleições de 2026.
Rui ironizou a contradição dos setores da esquerda que desenvolveram uma campanha contra as grandes empresas de tecnologia e, diante de sua colaboração com o TSE, passaram a tratar a situação com naturalidade.
“Primeiro que nós vamos ter que considerar a OpenAI como a Big Tech do bem. É claro, a esquerda não tem programa, vive ao sabor dos acontecimentos. Antigamente era só o Lula que fazia todo tipo de loucura e o pessoal apoiava. Lula ia buscar o Geraldo Alckmin e todo mundo falava: ‘nossa, olha que sabedoria’. Então agora tem também o STF. O STF faz loucura, a esquerda é obrigada a apoiar. É uma avacalhação total.”
Sobre a finalidade do acordo, levantou a possibilidade de utilização dessas tecnologias para ampliar a vigilância sobre o conteúdo político publicado na Internet durante o processo eleitoral.
“Para que serve isso daí? Para detectar, em geral, coisas na Internet. Isso é o uso mais significativo. Quer dizer, é um processo de vigilância, de patrulhamento e tal. Deve ser isso.”
Outro tema abordado foi Cuba. O bloqueio econômico norte-americano, que há décadas procura estrangular a economia da ilha, foi caracterizado por Rui como uma forma de guerra contra a população.
“Temos que deixar claro: essa política de sanções econômicas é um ataque de guerra contra o povo do país. É uma política genocida, é uma política criminosa. Agora, apesar de todos os boatos de que Cuba iria afundar imediatamente, eles estão resistindo, estão permanecendo. O que é muito positivo.”
Na parte final do programa, a discussão se voltou para a operação da Polícia Filial contra o PCO.
Pimenta colocou a investigação em contraste com os sucessivos escândalos envolvendo dezenas de milhões de reais no sistema político brasileiro e lembrou que declarou não possuir patrimônio à Justiça Eleitoral.
“Eu apresentei as minhas contas aí ao TSE. Eu não tenho nada. Descobri que eu sou o candidato mais pobre da eleição. Então, vamos falar: é ou não é Brasil? Você prender por enriquecimento ilícito o candidato mais pobre da eleição. É muito Brasil. É do arco da velha.”
Ele negou qualquer desvio dos recursos recebidos pelo partido e afirmou que os serviços eleitorais pagos pelo PCO foram efetivamente prestados.
“Queria reafirmar aqui que nós não cometemos nenhuma irregularidade. O serviço que nós pagamos com o dinheiro do Fundo Eleitoral foi realizado. Nós temos como comprovar isso, que é o que é exigido pela lei eleitoral e pela Justiça Eleitoral: saber se você pagou por serviços num valor que é correspondente ao serviço. Nós sempre pagamos abaixo daquilo que é a média da eleição em todos os serviços, e todos os serviços foram realizados. Não há como contestar isso.”
No período abrangido pela investigação, lembrou, o PCO lançou mais de 400 candidatos. O material produzido e distribuído poderia ser confirmado pelos próprios participantes das campanhas.
Apesar disso, Rui disse não considerar que a ausência de provas seja hoje uma garantia contra uma condenação.
“No Brasil não existe mais lei. Isso aqui virou um faroeste. O fato de que eles não tenham nenhuma prova contra nós não garante que a gente não seja condenado. Vai ser da cabeça do juiz. Já citei aqui a Rosa Weber, falou que ia condenar o pessoal do mensalão, do PT, apesar de que ela não tinha provas. Então, quer dizer, nós vivemos num mundo muito especial. Você não precisa de provas. Você nem, nessa altura do campeonato, sabe mais o que é crime ou o que não é crime.”
A crítica se estendeu aos partidos de esquerda que permaneceram em silêncio diante da operação. Pimenta lembrou que o PCO denunciou arbitrariedades cometidas contra o PT e também contra bolsonaristas, mesmo sendo adversário político de ambos.
Para ele, aceitar violações de direitos porque elas atingem um inimigo político abre caminho para que os mesmos métodos sejam empregados posteriormente contra qualquer organização.
“Nós já denunciamos isso aí contra vários partidos, contra o PT, denunciamos as arbitrariedades que foram realizadas contra os bolsonaristas. A esquerda não quis defender os direitos da população. A esquerda achava que condenar o Bolsonaro, condenar um bolsonarista qualquer aí era muito mais importante do que exigir da Justiça um comportamento democrático, respeitador.”
O silêncio atual, afirmou, é particularmente grave entre as organizações que se apresentam como revolucionárias.
“Queria chamar a atenção aqui que a totalidade dos partidos políticos legais de esquerda não se pronunciaram contra essa perseguição. É uma coisa absurda. Quer dizer, eles estão se posicionando pela condenação do PCO também. As pessoas que estão assistindo aqui, se são de outro partido, devem levar em consideração esse fato. Por que o pessoal não se pronuncia?”
Rui anunciou ainda sua participação nas atividades de lançamento das candidaturas do PCO no Distrito Federal e informou que o partido prepara viagens e atos também no Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. O Análise Internacional é transmitido todas as quintas-feiras, às 12h30, pelo canal do DCO.




