O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, concedeu nessa terça-feira (18) uma entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, no YouTube. Durante cerca de uma hora e meia, falou sobre a operação da Polícia Filial (PF) contra o Partido, o poder do Ministério Público e do Judiciário, as restrições impostas às campanhas eleitorais, a crise da esquerda brasileira, o identitarismo e algumas das principais propostas defendidas pelo PCO.
A conversa começou pela ofensiva contra o Partido. Leandro Fortes chamou atenção para o conjunto de medidas que atingem o PCO e seus candidatos e perguntou a Rui como ele avaliava o cerco.
Pimenta revelou ter recebido, no fim de semana, uma informação segundo a qual a operação policial teria ocorrido por orientação do Mossad, serviço secreto israelense. Ressalvou, porém, que não conseguiu verificar a denúncia.
“Nesse final de semana, uma pessoa me procurou e me passou a seguinte informação: essa operação da Polícia Federal veio por uma orientação do Mossad israelense. Essa pessoa me disse que ela tem uma fonte segura de que foi isso que aconteceu. Eu não pude averiguar, mas estou passando aqui a informação tal e qual eu recebi porque acho que é plausível que isso tenha acontecido.”
Rui lembrou que o PCO acumulou adversários poderosos ao longo dos últimos anos por suas posições contra o STF, o sionismo, o identitarismo e setores do Ministério Público ligados à operação Lava Jato. Por outro lado, destacou que a operação também provocou inúmeras manifestações de solidariedade.
“Nós temos tido muita solidariedade e nós temos tido uma repercussão também muito grande na denúncia desse fato. Então, nós vamos continuar com isso, não vamos abaixar a cabeça para esse tipo de coisa. Vamos organizar uma campanha cada vez mais intensa, que eu acho que é a nossa grande defesa.”
Para o presidente do PCO, não é possível confiar numa resposta puramente jurídica. Ele citou o bloqueio de contas bancárias de militantes antes mesmo de qualquer julgamento ou indiciamento como exemplo da arbitrariedade do processo.
“O juiz mandou bloquear as contas de vários militantes do PCO. Aparece lá na conta da pessoa o seguinte: menos R$4 milhões e não sei quantos reais. Cara, é loucura isso. Por que ele mandou bloquear? Nós não fomos nem julgados. Nós não fomos nem indiciados ainda. Mas nós estamos sofrendo um pré-julgamento.”
Pimenta advertiu que o precedente pode atingir outros partidos. Chamou atenção especialmente para a transformação de questões relativas às contas partidárias em matéria criminal.
“Pela primeira vez, o caso de contas partidárias se transformou num problema criminal. Se eu fosse dos outros partidos, ficaria muito preocupado. Ficaria muito preocupado. Até porque vários partidos aí foram protagonistas de escândalos com a verba partidária. […] Isso daqui pode se transformar, sem dúvida nenhuma, numa espécie de caça às bruxas contra os partidos políticos.”
https://www.youtube.com/watch?v=0hvwrHjSaSE&pp=0gcJCRMMAYcqIYzv
Ministério Público como ‘Inquisição’
Ao tratar do Ministério Público, Rui afirmou que a instituição acumulou poderes extraordinários sem qualquer controle equivalente pela população.
“O Ministério Público se transformou assim numa espécie de Inquisição. Eles perseguem todo mundo. E nós aqui somos uma vítima especial disso. Não somos a única, mas somos uma vítima especial. A maioria da população não se deu conta do que é o Ministério Público, do poder que essa gente tem, da liberdade com que eles atuam. Essa é uma coisa muito grave.”
Mais tarde, ao responder a uma pergunta enviada pelo público, explicou o que o PCO propõe para modificar essa situação.
“Reduzir os poderes do Ministério Público. Não tem que ter poder de investigação. E tornar o Ministério Público regional. Se é o Ministério Público que tem que instruir a denúncia contra você, tem que ser o Ministério Público dali onde você está. […] Você não pode escolher o juiz, o juiz tem que ser aleatório, senão é um jogo de cartas marcadas.”
Rui defendeu também a eleição de juízes e promotores.
“Juiz e promotor teriam que ser eleitos pela população. Cargo oficial sem eleição? Não. Tem que cumprir a Constituição. A Constituição fala: todo poder emana do povo. O povo, na democracia burguesa, se manifesta pelo voto.”
Jornalismo e censura
A discussão sobre a volta da obrigatoriedade do diploma de jornalista surgiu no programa em meio às recentes medidas tomadas contra profissionais da imprensa.
Rui reconheceu que o fim da exigência do diploma foi aproveitado pelas grandes empresas para reduzir salários e piorar as condições de trabalho nas redações. Afirmou, no entanto, que qualquer regulamentação da profissão precisa impedir que o diploma se transforme em instrumento para censurar pessoas que produzem informação e opinião na Internet.
“Com a abolição do diploma, os grandes jornais sucatearam a profissão de jornalista, baixaram os salários. Se você entra no jornal, você já entra uma mão na frente e outra atrás. Então precisaria ter alguma coisa nesse sentido. Agora, se você for usar o diploma para impedir as pessoas de dar sua opinião, eu acho que isso daí é um problema muito grande, não é possível. Seria uma atividade de censura generalizada.”
Também considerou muito grave o uso da PF contra jornalistas para chegar às suas fontes.
“As pessoas vão ficar com medo agora de publicar matéria, porque, se incomodar um poderoso, vai ter ação da Polícia Federal contra ele. O jornalista fica numa posição extremamente vulnerável. Quem vai querer criticar um poderoso aí? O que fizeram com esse jornalista é uma barbaridade. É uma coisa assim de ditadura.”
Ao comentar a afirmação de que a liberdade de imprensa não pode servir para cometer crimes, Rui apontou o problema de se transformar a manifestação de uma opinião em delito.
“Nada pode ser usado para cometer crimes, lógico. Só que, na hora que você vai ver quais são os crimes, o crime é que o cidadão falou um negócio que ele não gostou. Não matou ninguém, não roubou ninguém, não cometeu nada. O crime foi um crime de opinião.”
A esquerda e o regime político
Fortes perguntou também por que setores da própria esquerda permaneceram em silêncio ou chegaram a comemorar a ação da Polícia Filial contra o PCO.
Rui considerou absurdo tratar a repressão estatal como instrumento aceitável contra um adversário político. Recordou que, apesar de José Dirceu ter participado da expulsão da Causa Operária de dentro do PT, defendeu o dirigente petista quando ele foi perseguido no chamado mensalão.
Para Pimenta, o problema mais geral é a adaptação da esquerda institucional ao regime.
“A esquerda, principalmente do PT, mas também o pessoal do PCdoB, a esquerda mais institucional, tem aquela sensação de que eles são parte do poder. Isso gera um conformismo nessa esquerda, um conservadorismo muito grande. Então eles acham assim: não vai acontecer nada com eles. Eles achavam isso até que aconteceu.”
Depois dos acontecimentos que levaram ao golpe contra Dilma Rousseff e à prisão de Lula, segundo Rui, parte dessa esquerda voltou a acreditar que a perseguição judicial havia sido uma exceção.
“Como a operação toda do golpe levou a uma crise muito grande, eles conseguiram se recuperar e agora estão pensando que aquilo lá foi um acidente de percurso. Não é uma coisa anormal. Na realidade, é uma coisa normal do regime político.”
Formação marxista abandonada
Outro problema apontado foi o desaparecimento de uma verdadeira formação política nos partidos de esquerda.
“O PT não tem formação de quadros. Os quadros do PT são os parlamentares. E, se você for ver o nível político dos parlamentares, dos parlamentares eu estou falando do cidadão comum, é muito baixo. Eu já tive a oportunidade de ver isso em primeira mão, o pessoal não sabe nada. E não é culpa deles também. O partido tem que formar os seus militantes.”
Para Pimenta, uma organização guiada principalmente pelas conveniências imediatas acaba sem conteúdo para transmitir aos seus próprios militantes.
“A política do PT é a política de ocasião, de oportunidade. Então, o que você vai formar? Acaba ficando aquele esquerdismo genérico, que agora está sendo completamente devorado pelo identitarismo.”
Rui contou que, pouco antes da entrevista, havia consultado o programa de uma organização que se reivindica revolucionária. Sem identificá-la, criticou a ausência de uma análise econômica e histórica da formação brasileira e a substituição dessa discussão por fórmulas centradas em questões raciais e identitárias.
Lembrou que autores do antigo movimento comunista, como Caio Prado Jr., procuravam explicar a formação econômica e social do Brasil. Embora tenha dito discordar das conclusões do historiador, ressaltou que havia ali uma análise séria e fundamentada.
‘Mulheres trans’ no esporte feminino
Leandro Fortes perguntou também sobre a decisão da Confederação Brasileira de Vôlei de impedir a participação de “mulheres trans” (homens que se identificam como mulheres) em competições femininas.
Rui apoiou a medida por considerar que a diferença física cria uma situação injusta para as mulheres.
“Eu sou favorável a essa decisão, eu acho que é uma injustiça com as mulheres. Não tem como negar. […] A mulher trans, que é um homem biologicamente, fisicamente, tem uma constituição masculina. Eles querem negar que isso não seja uma desvantagem para as mulheres. É absurdo. É negar a realidade.”
O presidente do PCO distinguiu o direito de cada pessoa decidir sobre sua própria vida da exigência de que essa decisão seja imposta ao restante da sociedade.
“Você acha que você é uma mulher? Um determinado homem botou na cabeça dele que é uma mulher? Tudo bem, não tenho nada contra. Quer fazer operação, mudar de sexo, tomar hormônio? […] Cada um, cada um. Se eu tomar uma decisão sobre a minha vida, eu não vou querer que ninguém venha mandar em mim. Então eu não vou mandar nos outros também. Agora, isso é uma coisa. Outra coisa é impor isso, que é um problema seu, a todo mundo.”
Rui lembrou ainda que o PCO assinou a carta-programa eleitoral apresentada pela Associação Mátria, que inclui entre suas propostas a proibição da participação de “mulheres trans” no esporte feminino, pois essa participação viola um direito democrático das mulheres, que são o setor mais oprimido entre os oprimidos.
Juventude e crescimento da direita
A atração exercida pela direita sobre setores da juventude foi outro tema da entrevista.
Rui destacou que o PCO procura dialogar inclusive com jovens atualmente identificados com posições direitistas.
“Eu acho que o nosso esforço é esse. É atrair essa juventude. […] Muita gente de direita nos escuta, e isso é uma coisa importante. E algumas pessoas de direita deixaram de ser de direita, entraram no PCO, o que eu acho uma coisa espetacular.”
Na avaliação de Pimenta, a esquerda institucional aparece para uma parcela importante desses jovens como parte do sistema vigente.
“O fato é que a esquerda, na sua maioria, é o sistema. Nesse momento não é que eles sejam a burguesia, eles não detêm o poder real, mas eles são a cara do sistema.”
Essa situação permite que o bolsonarismo apareça como oposição, mesmo quando não representa uma alternativa real ao regime.
“A gente pode falar que a eleição é entre esquerda e extrema direita, mas a gente pode falar também que a eleição é entre situação e oposição, e o bolsonarismo é uma oposição. O Bolsonaro não é governo, o Bolsonaro é uma oposição. Está aí um grande atrativo do Bolsonaro. O pessoal olha e fala assim: quem se opõe a tudo isso é o Bolsonaro, é o filho do Bolsonaro. É uma ilusão terrível, na minha opinião, mas perfeitamente natural.”
O identitarismo, acrescentou, contribui para afastar jovens da esquerda ao funcionar como imposição política e moral.
“O identitarismo é um mecanismo de opressão. Se tem uma coisa a que a juventude vai sempre reagir negativamente é à opressão. Você ser obrigado a pensar determinada coisa, você ser obrigado a fazer determinada coisa.”
Discord e os problemas da juventude
Rui criticou também a campanha da primeira-dama Janja da Silva contra a plataforma Discord. Para ele, atribuir à Internet os problemas psicológicos enfrentados por crianças e adolescentes significa ignorar suas causas sociais.
“Esses problemas não são causados pela Internet. A Internet só está dando uma certa visibilidade ao problema. O que não é ruim, porque é bom que todo mundo saiba que o problema existe. O que nós temos aqui é um problema social grave, ou até uma sociedade doente.”
O dirigente condenou a censura como resposta:
“Por que se preocupar com a juventude brasileira, que está passando por uma etapa muito difícil? Vamos censurar tudo, porque se censurar os problemas acabam. Eu acho lamentável que a esquerda brasileira tenha embarcado numa coisa dessas.”
TSE e campanha eleitoral
As restrições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à recomendação de publicações de candidatos nas plataformas foram apontadas por Rui como mais um mecanismo de desigualdade eleitoral.
Pimenta explicou que as publicações gratuitas ficariam limitadas principalmente às pessoas que já acompanham o candidato. A publicidade paga, entretanto, poderia alcançar um público mais amplo.
“As plataformas estariam obrigadas a só sugerir a postagem de um candidato, eu, por exemplo, para as pessoas que já me seguem, não para pessoas que não me seguem, mesmo que o que eu esteja falando seja do interesse da pessoa. Agora, se você pagar, essa norma desaparece. Gratuitamente não vão sugerir, só pagando.”
Para ele, a consequência é evidente:
“Colocaram os candidatos sem recursos, e os candidatos de esquerda, vamos falar que é verdade, no geral a ‘extrema esquerda’, [é] tudo candidato sem dinheiro. Então eles colocaram a campanha eleitoral na mão da direita.”
Rui relacionou a decisão a uma política de longa data da Justiça Eleitoral de diminuir a capacidade dos pequenos partidos de fazer campanha.
“A orientação do TSE há muitos anos já é de que [se] suprima ao máximo a campanha eleitoral. Não tem que ter campanha eleitoral. Você não tem campanha eleitoral, quem vai ser eleito? Os que já foram eleitos, os que já estão no poder. É uma perpetuação das pessoas que já estão aí.”
Privatizações e ausência de programa
Fortes chamou atenção para as propostas do PCO de reverter privatizações e estatizar setores fundamentais da economia sob controle dos trabalhadores.
Rui avaliou que a apresentação dessas reivindicações produz hostilidade em setores ligados ao PT e ao PSOL.
“Eu acho que uma parte da esquerda petista e psolista está olhando com hostilidade a nossa colocação. Agora, é natural. O que a gente vai fazer? Eu não sou do PT. Eu acho que nós fomos muito tolerantes com o PT, muito condescendentes.”
A crítica principal foi dirigida à ausência de propostas mais profundas na campanha eleitoral petista.
“O PT não está apresentando nada, nada de programa. É uma coisa assustadora o que a gente vê na campanha eleitoral do PT.”
Rui citou os juros e a pressão por um novo ajuste fiscal como problemas que deveriam estar no centro da discussão eleitoral.
“Ele [Lula] está indo para a eleição com uma taxa de juros de 15%. A burguesia está exigindo um maior ajuste fiscal. Eles [o PT] não estão falando nada sobre esse problema, se eles são a favor ou contra o ajuste fiscal. São problemas, inclusive, administrativos, não são problemas de grande voo. São problemas imediatos administrativos.”
O PT ainda é um partido de esquerda?
Questionado por uma espectadora sobre a caracterização do PT como partido de esquerda, Pimenta rejeitou colocá-lo no mesmo campo dos partidos tradicionais da burguesia, apesar de todas as suas críticas à política seguida pela legenda.
“Eu acho que, se você falar que o PT é de direita, você está embaralhando as cartas. Fica confuso. Porque aí o PT seria o quê? O PSDB, o Bolsonaro, o que seria o PT exatamente? Por exemplo, o PSB, que é aliado do PT, é um partido de direita, na minha opinião. Esse partido não tem nada a ver com o movimento operário, com o movimento popular. O PT tem.”
Rui observou, porém, que uma eventual mudança de direção depois de Lula poderia levar o partido a uma transformação mais profunda.
Contra a chantagem eleitoral
Na parte final do programa, Leandro Fortes questionou a polarização que reduz a disputa eleitoral à necessidade de votar em Lula para impedir Flávio Bolsonaro ou vice-versa.
Rui rejeitou a ideia de que uma vitória eleitoral da direita levaria automaticamente a um governo fascista.
“Isso é uma manipulação. A eleição, na atual situação brasileira, não vai levar a um governo fascista. Vai levar a um governo de direita. Esse governo de direita vai ter que se defrontar com todos os instrumentos que a sociedade tem para controlar o governo. Assim como um governo de esquerda também.”
Ele também comentou a possibilidade de uma abstenção elevada e, nas condições atuais, defendeu a manutenção do voto obrigatório.
“Nesse momento aqui nós somos favoráveis à obrigatoriedade. Eu acho que, se for acabar a obrigatoriedade, a eleição vai ser manipulada por uma oligarquiazinha, que já acontece, porque a abstenção é muito grande. Eles estão estimulando a abstenção. Isso é uma forma de manipular a eleição muito clara.”
Energia, alimentos e terra
Já perto do encerramento, Rui respondeu sobre medidas imediatas para diminuir o custo de vida.
No caso da energia elétrica, relacionou as tarifas elevadas às privatizações.
“O aumento da energia elétrica é um abuso da empresa que é concessionária da energia elétrica. […] Estão cobrando o olho da cara, é a privatização. Teria que acabar com a privatização. Por que o povo tem que pagar caríssimo por energia elétrica? Não faz o menor sentido.”
No caso dos alimentos, defendeu maior apoio à produção destinada ao abastecimento interno e acesso à terra para quem queira trabalhar.
“Tem muito estímulo para a agricultura de exportação, soja, por exemplo, e outros, mas o estímulo para a agricultura de subsistência é pequeno. Em geral são empresas menores que fazem isso. Então teria que ter um programa governamental que auxiliasse uma expansão dessa lavoura, teria que ter terra para o pessoal que quer trabalhar.”
E concluiu:
“Tem muita gente que quer trabalhar na terra, não pode, porque uma boa parte da terra brasileira é ociosa, fica aí parada enquanto o povo morre de fome.”
A perseguição ao PCO, tema que abriu a entrevista, voltou a aparecer como fio condutor das críticas feitas por Rui ao regime político. Diante da operação policial e da campanha contra o Partido, ele resumiu qual será a resposta:
“Nós vamos continuar com isso [uma contracampanha], não vamos abaixar a cabeça para esse tipo de coisa.”




