O artigo Victoria Dandara, do Direito na USP ao Doutorado em Nova York, assinado por Sara York e publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (18), mostra que o identitarismo é uma ideologia liberal que reivindica que pessoas pertencentes a setores oprimidos da sociedade ocupem “posições de poder” ou de “mando”.
A ideia por trás dessa proposta é que pessoas oprimidas, ao ocuparem determinadas posições, seriam mais justas — uma mulher negra no STF, por exemplo — e que sua presença ajudaria, supostamente, a diminuir a desigualdade social. No entanto, o que muda na sociedade quando uma pessoa negra se torna gerente de uma loja de departamentos? Absolutamente nada. O mesmo vale para o Supremo, que continuará sendo o mesmo inimigo do povo, independentemente da cor de quem ali esteja.
A presença de um homem negro na Presidência dos Estados Unidos e toda a destruição pela qual ele foi responsável já deveriam ter dado razões suficientes para que ninguém levasse o identitarismo a sério.
York inicia seu artigo dizendo que “quando uma travesti vinda da periferia, ocupa espaços historicamente negados e transforma sua trajetória em potência global, a história não apenas se registra — ela se reescreve. A advogada e pesquisadora brasileira Victoria Dandara acaba de anunciar sua aprovação nos programas de doutorado da Fordham University School of Law e da UCLA (University of California, Los Angeles), dois dos mais prestigiados centros de pesquisa e estudos críticos raciais dos Estados Unidos. Victoria optou por permanecer em Nova York para iniciar seu PhD em Fordham, marcando mais uma virada fundamental em sua jornada”.
Em que sentido isso constitui uma “potência global”? A vida dos transexuais em geral continua a mesma, ainda que um deles tenha sido admitido nos salões da nobreza. A história não está sendo reescrita e o indivíduo pode muito pouco diante do curso da história. Além disso, para que servem esses “prestigiados” centros de pesquisa e “estudos críticos raciais” se a base material da sociedade continua a mesma?
‘Reality show’
“A trajetória de Victoria”, continua o texto, “é tecida por pioneirismo, rigor acadêmico e compromisso visceral com os direitos humanos desde a graduação. Primeira travesti/trans a se formar na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) — momento emblemático em que sua banca de defesa contou com a presença e o nosso acompanhamento orgulhoso, ela transformou o sonho de ‘ser alguém na vida’ em uma carreira internacional sólida. Um travesti defendendo um Trabalho de Conclusão de Curso em uma banca com outra travesti avaliando seus escritos”.
A esquerda deveria lutar pelo livre ingresso nas universidades, em vez de celebrar o fato de que, de vez em quando, um transexual consegue entrar em uma instituição imperialista – cujo acesso, diga-se de passagem, é negado à classe trabalhadora, e não às minorias sexuais. Com acesso gratuito e universal, não apenas Dandara, mas qualquer pessoa poderia chegar ao ensino superior.
Adiante, Sara York escreve que “após a graduação no Brasil, Victoria alçou voos ainda maiores. Lançou o livro ‘Direitos na Esquina’, concluiu seu mestrado em Harvard, atuou em fóruns multilaterais e levou a voz das periferias brasileiras para o Congresso dos EUA, transitando com fluidez entre reuniões em inglês, espanhol e português”. Isso é o mais puro suco da meritocracia, o que mostra como o identitarismo e o liberalismo são gêmeos siameses. A palavra “Harvard” não desperta boas lembranças para os brasileiros: por lá passaram Sérgio Moro e Tabata Amaral, duas figuras extremamente reacionárias.
Por outro lado, de que serve levar a voz dos pobres brasileiros ao Congresso dos EUA? Aquilo é um antro dominado pelo lobby sionista e por políticos da pior espécie. A única coisa que esse país quer com nosso povo é utilizá-lo como pretexto para impor seu “combate ao terror” e ao crime organizado, um atalho para construir aqui suas bases militares.
Em depoimento, Dandara diz: “quando a minha vida virou isso? Quando aquela menina que cruzava a cidade às 5h da manhã pra ir atrás do sonho de ‘ser alguém na vida’ realmente se ‘tornou alguém’ formada em Harvard, com uma carreira internacional e, agora, doutoranda?”.
A promessa do identitarismo é justamente a de “se tornar alguém”, expressão que passa a ser sinônimo de alcançar algum posto, reconhecimento ou dinheiro dentro da sociedade capitalista. O identitarismo, assim como a meritocracia, tem essa função: vender um sonho enquanto mantém o sistema intacto. Afinal, se você se esforçar, acordar às 5h da manhã e correr atrás do seu sonho, conseguirá “vencer na vida”. Quem não conseguir é porque não se esforçou o suficiente.
Em seu texto, York destaca a “importância coletiva do feito”, embora se trate da conquista individual de uma pessoa que conseguiu estudar e se formar. Ainda assim, Victoria teria dito que “nenhuma conquista individual se consolida sem o axé da ancestralidade, da família e da comunidade”, o que, concretamente, não diz absolutamente nada sobre a realidade.
Ao final, a autora escreve que Victoria ingressará “no doutorado em Fordham sob a orientação da professora Tanya Hernández que estuda o racismo na comunidade latina, criticando a ideia de que a mistura de raças elimina o preconceito”. Infelizmente, o mundo acadêmico se transformou em um verdadeiro deserto. As universidades norte-americanas conseguiram produzir apenas o identitarismo, uma ideologia em franca decadência, e têm servido até para proteger os genocidas de Gaza, além de dividir a esquerda e enfraquecer suas lutas. É por isso que essa ideologia recebe tanta atenção e tantos recursos do imperialismo. Nesse sentido, York está comemorando que mais um brasileiro será doutrinado pelo imperialismo.





