Política

Emir Sader vê derrota da direita onde ela só acumula vitórias

Enquanto a direita enquadra Lula e empurra o PT para alianças com os golpistas, articulista insiste em enxergar uma suposta “consolidação da democracia”

O artigo Por que a direita está sendo derrotada no Brasil, de Emir Sader, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (18), faz uma avaliação completamente equivocada da situação política brasileira, a começar pelo próprio título.

Segundo Sader, “a direita só conseguiu chegar ao governo, depois da ditadura militar, quando usou o lawfare e impôs um impeachment indevido à Dilma e prendeu Lula, também de forma injusta, como o próprio Judiciário reconheceu posteriormente”. Mais adiante, porém, o articulista passa a tratar a direita brasileira praticamente como sinônimo de bolsonarismo, afirmando que ela estaria “presa na armadilha de ser bolsonarista” e, por isso, condenada à derrota.

A contradição está justamente aí. Quando fala do golpe contra Dilma Rousseff, da Operação Lava Jato e da prisão de Lula, Sader está se referindo à direita tradicional. Afinal, não foi Bolsonaro quem organizou o impeachment de Dilma ou colocou Lula na cadeia. Foram setores fundamentais do regime político – a grande imprensa, o Judiciário, os partidos tradicionais da burguesia e outras instituições que sustentaram o golpe de 2016.

Foi essa mesma direita tradicional que criou as condições para a ascensão da extrema direita. O golpe contra Dilma, a perseguição contra Lula e a campanha política levada adiante pela imprensa e pelo Judiciário abriram caminho para Bolsonaro. Agora, porém, os dois setores entraram em conflito: a direita tradicional procura eliminar o bolsonarismo da disputa política e recuperar o controle direto sobre o campo da direita.

É justamente nesse ponto que a análise de Sader se torna conveniente. Depois de reconhecer, na prática, que a direita tradicional promoveu o golpe contra Dilma e perseguiu Lula, ele a retira da categoria “direita” quando analisa a situação atual. Assim, “direita” passa a significar apenas Bolsonaro e seus apoiadores.

Essa operação tem a função de justificar a frente ampla da qual o PT faz parte. Se a direita for apenas Bolsonaro, então o STF, a grande imprensa, Geraldo Alckmin, setores do centrão e antigos apoiadores do golpe podem ser apresentados como integrantes de um suposto campo democrático contra o fascismo.

A realidade, porém, é que tanto a direita tradicional quanto o bolsonarismo têm obtido vitórias, embora estejam em conflito. A primeira conseguiu colocar Bolsonaro na cadeia, aprofundar a perseguição contra seu movimento e emparedar o governo Lula. Ainda não conseguiu estabilizar a situação a ponto de impor um candidato próprio da chamada terceira via, mas conseguiu fazer o governo capitular diante de boa parte de sua política.

O bolsonarismo, por sua vez, também não está sendo derrotado. Apesar da perseguição promovida pela direita tradicional — e apoiada pela maior parte da esquerda —, continua tendo uma enorme base popular e cresce politicamente. A prisão de Bolsonaro, mesmo que uma derrota evidente, não liquidou seu movimento e pode, inclusive, reforçar sua posição diante de seu próprio eleitorado.

Portanto, a tese de que “a direita está sendo derrotada” não corresponde à realidade. Há uma luta entre dois setores da direita, enquanto ambos obtêm resultados importantes. A esquerda, por outro lado, continua capitulando diante da direita, seja ela qual for.

Além disso, a afirmação de Sader de que a direita “só conseguiu chegar ao governo” após a ditadura militar por meio do golpe contra Dilma e da prisão de Lula não se sustenta. E o que teriam sido, então, os governos Sarney, Collor e FHC? Governos de esquerda?

Mesmo Lula, todas as vezes em que chegou à Presidência, procurou estabelecer alianças com a direita. Tentou inicialmente Paulo Bisol, depois se elegeu com José Alencar e, atualmente, governa tendo Geraldo Alckmin como vice. Dilma Rousseff, por sua vez, teve ninguém menos que Michel Temer, um dos principais articuladores do golpe que a derrubou.

A prisão de Lula tampouco foi apenas uma “injustiça”. Ela fez parte do golpe de Estado iniciado em 2016 e levado adiante por setores fundamentais da burguesia, da imprensa e do aparelho de Estado.

No segundo parágrafo de seu artigo, Sader apresenta os acontecimentos de maneira bastante confusa. Diz que “depois, veio o flagrante com o Vorcaro, a tentativa de golpe para tentar impedir a posse do Lula, pelo qual o Bolsonaro está em prisão domiciliar, o discurso da mulher do Bolsonaro revelando a forma como eles tratam as mulheres, além de outras circunstâncias, todas negativas”.

Lula tomou posse em 1º de janeiro, enquanto as manifestações na Praça dos Três Poderes ocorreram no dia 8, uma semana depois. Bolsonaro, diferentemente do que sugere Sader, está preso em meio a uma ofensiva da direita tradicional para retirá-lo da disputa e reorganizar o campo da direita em torno de outro candidato.

Quanto ao tratamento que Bolsonaro ou sua família dispensam às mulheres, é difícil saber que importância eleitoral isso realmente terá. É bastante provável que seu eleitorado simplesmente não se importe.

Para Sader, “a direita brasileira está presa na armadilha de ser bolsonarista, de querer herdar os votos do ex-presidente em prisão domiciliar, mas, ao mesmo tempo, herdar todas as consequências negativas da imagem da família”.

Se é assim, é preciso explicar por que tantos setores da direita se aproximaram de Bolsonaro. A resposta é bastante simples: porque Bolsonaro tem votos e uma base social. O problema da direita tradicional é justamente não possuir, até agora, um candidato capaz de mobilizar essa base por conta própria.

A chamada “armadilha”, se é que se pode utilizar esse termo, decorre do aprofundamento da polarização social. Pelo mesmo raciocínio, seria possível dizer que a maior parte da esquerda pequeno-burguesa está “presa” ao PT porque Lula também possui uma base social que nenhuma dessas organizações consegue substituir.

Sader afirma ainda que “a direita brasileira não tem compromisso com a democracia. Em condições democráticas, perde as eleições e, por isso, busca outros caminhos. Assim, em tempos de consolidação da democracia, se vê condenada à derrota e ao fracasso”.

Se a direita não tem compromisso com a democracia, por que Lula e o PT se juntam justamente a ela?

O PT se aproximou do Supremo Tribunal Federal, instituição que desempenhou um papel fundamental no Mensalão, na Operação Lava Jato e em toda a ofensiva política contra o Partido dos Trabalhadores. Também se aliou a inúmeros integrantes do centrão e incorporou ao governo figuras diretamente ligadas aos setores que apoiaram o golpe contra Dilma. Isso sem contar a ofensiva generalizada da burguesia contra os direitos democráticos da população.

É aí que aparece com mais clareza o interesse político da caracterização feita por Sader. Para defender a frente ampla, é preciso retirar da direita todos aqueles que hoje estão aliados ao PT. O STF deixa de ser parte do aparato que perseguiu Lula e passa a ser apresentado como defensor da democracia. A grande imprensa que apoiou o golpe transforma-se em uma espécie de aliada circunstancial. Os partidos burgueses que derrubaram Dilma tornam-se “centro”. No final das contas, “direita” passa a significar apenas Bolsonaro.

O PT também está apoiando, nas eleições, figuras que participaram ou apoiaram o golpe. Em São Paulo, por exemplo, duas das candidaturas ao Senado apoiadas pelo partido são Simone Tebet e Marina Silva. Tebet participou diretamente do processo político que derrubou Dilma; Marina, embora não fosse parlamentar e não tenha votado no impeachment, justificou politicamente o golpe.

Sader alega que “a direita conta com a força do capital especulativo, que sobrevive graças às taxas de juros altíssimas, o que dificulta a retomada de um ciclo longo expansivo da economia”. Apenas omite que foi o próprio PT quem escolheu o atual presidente do Banco Central.

Choque de realidade

O articulista parece ter acordado para o fato de que a grande imprensa — isto é, um dos principais instrumentos da direita tradicional — atua contra Lula. Alega que “seja por estes riscos e pelos efeitos psicológicos do medo da inflação, seja por dificuldades para superar estes problemas, os governos do PT esbarram nessa questão. Não logram impor a questão social, das desigualdades sociais, como a mais importante no país. Encontram na grande mídia um obstáculo difícil de superar, pelo poder que essa mídia tem”.

A grande imprensa é, de fato, um obstáculo. Mas o governo Lula não pode ser apresentado simplesmente como uma vítima impotente dessa situação. O PT escolheu governar em acordo com os setores que defendem justamente a política econômica responsável pelo arrocho contra os trabalhadores.

O governo foi emparedado pela direita tradicional e capitulou diante dessa pressão. Durante este mandato, não realizou nenhuma transformação fundamental em benefício dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, levou adiante privatizações, adotou um novo teto de gastos, preservou os interesses do capital financeiro e apoiou uma política cada vez mais ampla de censura e repressão política.

A direita tradicional pode não ter conseguido ainda impor um candidato próprio com força eleitoral, mas conseguiu impor boa parte de sua política ao governo.

É por isso que dizer que o PT não consegue colocar a questão social no centro simplesmente por causa da força da imprensa é esconder metade do problema. O partido prefere chegar a acordos com a direita a mobilizar sua própria base trabalhadora contra ela. Governa com o centrão, procura o apoio do STF e busca permanentemente demonstrar ao grande capital que não pretende colocar seus interesses fundamentais em risco.

É também um equívoco dizer que “o mandato do Lula, mesmo sem maioria no Congresso e tendo que fazer alianças com setores de centro, apresenta resultados positivos, de todos os pontos de vista. Tem problemas, que ficam transferidos para o quarto mandato, se conseguir eleger um Congresso menos desfavorável que o atual”.

Primeiro, Lula fez alianças com setores da direita, e não simplesmente do “centro”. Chamar esses setores de centro faz parte justamente da falsificação necessária para justificar a frente ampla.

Segundo, não há motivo algum para acreditar que o próximo Congresso será mais favorável à esquerda. Tudo indica que a direita continuará tendo enorme peso, enquanto a própria política do PT contribui para o enfraquecimento da esquerda.

Há, portanto, uma contradição evidente na análise de Emir Sader. Ele reconhece que a direita tradicional promoveu o golpe contra Dilma e a prisão de Lula, mas, quando chega ao presente, retira esses mesmos setores do campo da direita porque agora fazem parte da frente ampla.

A direita tradicional não está derrotada. Conseguiu colocar Bolsonaro na cadeia, mantém enorme influência sobre o aparelho de Estado e emparedou o governo Lula. Ainda não conseguiu realizar plenamente seu objetivo de substituir o bolsonarismo por uma candidatura própria capaz de reunir uma base eleitoral equivalente, mas segue trabalhando nesse sentido.

O bolsonarismo também não está derrotado. Mesmo submetido a uma perseguição promovida pela direita tradicional e apoiada pela esquerda, continua reunindo uma parcela enorme do eleitorado e ampliando sua força política.

É preciso separar as duas coisas. A direita tradicional e a extrema direita estão em conflito, mas isso não significa que uma delas tenha deixado de ser direita, muito menos que estejam ambas em processo de derrota.

A caracterização de Sader serve para uma finalidade política bastante clara: justificar a frente ampla do PT. Se “direita” for apenas Bolsonaro, então o STF, a grande imprensa, Geraldo Alckmin, o Centrão e todos os antigos golpistas podem aparecer como integrantes de um suposto campo democrático.

O problema é que foram justamente esses setores que prepararam o terreno para Bolsonaro e que hoje continuam impondo sua política ao governo Lula.

Ao final, Emir Sader escreve que o PT precisa, principalmente, “formular um projeto para o futuro do Brasil”. Como assim? O partido teve quatro mandatos e meio e ainda precisa formular um projeto para o “futuro”? Depois de quase 20 anos no governo, dizer algo assim é um completo contrassenso.

Sader, que até outro dia pregava que Lula venceria no primeiro turno, parece estar tendo um choque de realidade. O problema é que ainda não acordou completamente.

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