A disputa entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos deixou de aparecer apenas nas divergências diplomáticas e militares. Empresas passaram a encontrar dificuldades para transferir dinheiro entre os dois países, indicando que o conflito entre as duas monarquias do Golfo atingiu também suas relações financeiras.
Segundo informações obtidas pela Reuters, as autoridades sauditas aumentaram a fiscalização sobre transferências destinadas aos Emirados. Esse tipo de controle costuma ser reservado a operações envolvendo países considerados de maior risco para crimes financeiros.
Empresários afirmaram que pagamentos em diferentes moedas foram atrasados ou simplesmente devolvidos por bancos sauditas sem explicação. Relatos semelhantes vinham sendo feitos desde maio, quando empresas e indivíduos com contas nos Emirados começaram a enfrentar problemas para receber dinheiro proveniente da Arábia Saudita.
O Banco Central saudita negou a existência de restrições dirigidas especificamente a determinado país. Autoridades dos Emirados também afirmaram não ter recebido reclamações formais de empresas sobre atrasos incomuns. As negativas, no entanto, surgem depois de meses de relatos coincidentes entre empresários envolvidos em transações entre os dois países.
Os obstáculos bancários aparecem em meio a uma disputa que já atingiu diversos setores. Arábia Saudita e Emirados possuem interesses divergentes no Iêmen, onde passaram a apoiar forças concorrentes. Em dezembro, a própria aviação saudita atacou um carregamento militar emiradense destinado ao Conselho de Transição do Sul, organização separatista apoiada por Abu Dabi.
O petróleo tornou-se outro ponto de atrito. Em maio, os Emirados deixaram a Opep após quase 60 anos na organização e ampliaram fortemente sua produção. A decisão atingiu diretamente a posição da Arábia Saudita, principal força dentro do bloco de exportadores.
Também houve divergências durante a guerra contra o Irã. Os Emirados assumiram uma posição mais agressiva, enquanto o governo saudita procurou combinar sua colaboração militar com os Estados Unidos com tentativas de negociação por intermédio do Paquistão.
Durante anos, Riad e Abu Dabi atuaram como aliados próximos do imperialismo norte-americano e cooperaram em diversas intervenções contra os povos da região. A submissão comum aos Estados Unidos, entretanto, nunca eliminou a disputa entre as duas monarquias por petróleo, comércio, território e influência política.
O rompimento progressivo dessa aliança aparece agora dentro dos próprios bancos. Transferências antes rotineiras passaram a depender de verificações adicionais ou sequer são concluídas, atingindo diretamente empresas que operam nos dois lados da fronteira.
A disputa pelo Iêmen, a concorrência no mercado petrolífero e as divergências na política regional estão deixando de ser episódios separados. O que aparece é um conflito cada vez mais amplo entre duas monarquias que durante muito tempo procuraram apresentar uma frente comum no Golfo.





